Jornal Estado de Minas

Um abraço contra abusos

Multidão abraça o Mineirão para pedir proteção a crianças e adolescentes

Em manifestação no Mineirão, 3 mil estudantes alertam a sociedade para combater agressões a crianças, que chegaram a 4,3 mil este ano em MG

Jorge Macedo - especial para o EM
De mãos dadas, estudantes circularam entre as cadeiras do estádio, antecipando o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes - Foto: Euler Júnior/EM/D.A Press


Os órgãos de proteção a menores de Minas Gerais recebem, em média, 35 denúncias diárias de violação dos direitos das crianças e adolescentes, que somaram 4,3 mil nos quatro primeiros meses do ano, contra 3,3 mil no mesmo período de 2012Os números se referem aos atendimentos do serviço Disque 100, vinculado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, e Disque Direitos Humanos, ligado à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese).

Se em termos de denúncias a realidade revela um problema grave, registros da Secretaria Municipal de Políticas Sociais mostram um significativo aumento no número de atendimentos em Belo HorizonteEm todo o ano passado, 552 famílias com crianças vítimas de violência sexual foram recebidas nos centros de assistência social, enquanto nos quatro primeiros meses de 2013 já foram 342, com crescimento proporcional de 85%Outros dados preocupantes são da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), da Polícia Civil, que registrou mais de 1,8 mil ocorrências de lesão corporal, tortura, ameaça, estupro e exploração sexual na capital, com a média de cinco por dia.

Para tentar mudar o quadro, mais de 3 mil crianças das redes municipal e estadual de ensino deram ontem um abraço simbólico no Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, na Região da Pampulha, com o objetivo de sensibilizar e mobilizar a sociedade para a situação, muitas vezes provocada por parentes dentro de casaO abraço antecipou o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, comemorado hoje em todo o Brasil.

Um dos adolescentes que participaram do abraço, Richard Henrique, de 17 anos, do Bairro Ribeiro de Abreu, na Região Nordeste da capital, chamou a atenção para a violência cometida por familiares de crianças ou adolescentes, que normalmente têm medo de denunciar as agressões“Sei de um caso lá de uma menina, que foi abusada por um tio e não falou nada para ninguémTambém é muito comum ocorrer com vizinhos”, disseEle aprovou o ato no Mineirão“É importante para as pessoas ficarem atentas e denunciarem qualquer tipo de violência”, salientou

Em casa

Segundo a Secretaria Municipal de Políticas Sociais da capital, das 342 famílias atendidas nos centros regionais de assistência social, de janeiro e abril, 141 revelaram casos de abuso sexual praticado por parentesSegundo a secretária Gláucia Brandão, esse quadro motiva um atendimento que deve envolver toda a família
“O objetivo é preparar a sociedade para proteger as crianças e por isso precisamos aumentar a capacidade protetiva das famílias”, explicou

Para a subsecretária de Estado de Direitos Humanos da Sedese, Carmen Rocha, o aumento nos números está diretamente vinculado às ações de combate ao abuso contra crianças e adolescentes“Como as próprias famílias cometem agressões, esse número ainda é subnotificadoE, quando as ações são intensificadas, as denúncias aparecem”, diz

A coordenadora do Fórum de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes de Minas Gerais, Denise Avelino, concorda que os números refletem uma ampliação no acesso à informação“O grande desafio é a integração ampla de uma rede maior, que inclua órgãos de saúde, educação e defesa socialSó assim teremos sucesso no combate aos abusos contra crianças e adolescentes”, salientou

A especialista destaca a questão dos abusos dentro da própria casa, mas diz que nesse caso a maioria das vítimas são crianças de até 10 anos“No caso das adolescentes, as agressões costumam ocorrer mais em outros ambientes por onde circulam, como a rua”, afirma