Jornal Estado de Minas

A dor de quem sofre à espera de reparação

Famílias que perderam alguém no trânsito amargam lentidão da Justiça

Mateus Parreiras Landercy Hemerson
Faltam apenas 17 dias para que a data mais triste da vida da psicóloga Márcia Palmer Irffi, de 52 anos, complete um ano
Foi em 6 de junho do ano passado que a filha dela, a estudante de medicina Caroline Palmer Irffi, de 23, morreu ao lado do namorado, Lucas de Oliveira Magalhães, de 26, quando o carro em que estavam foi atingido por uma carreta descontrolada, na Avenida Nossa Senhora do Carmo, altura do Bairro Carmo, na Região Centro-Sul da capital mineira“É uma dor muito grande que sintoUma ferida aberta no coração de mãe, que a gente sabe que vai carregar para o resto da vida”, disse IrffiO motorista da carreta, Jadson Santos Alves, de 26, chegou a ser preso, mas acabou solto

O inquérito foi remetido rapidamente ao fórum, mas a Justiça não aceitou a denúncia por dolo eventual, quando o motorista assume os riscos de matar ao trafegar em local indevido ou ao dirigir embriagado, por exemploO processo entrou na pilha de procedimentos que cresceu 4% entre 2011 e 2012, sem desfecho e como um homicídio culposo – cometido por imprudência, imperícia ou omissão – portanto com pena mais leve.

Jadson desceu a Nossa Senhora do Carmo conduzindo uma carreta de 24 toneladas, carregada de bobinas de aço, em uma via onde o limite de tráfego é para veículos até 5 toneladasMatou três pessoas e atingiu 11 carros“Cheguei a ir numa audiência com o motorista, mas a demora só me atormenta maisA gente quer justiçaQuer um ponto final, para então ver o que mais pode fazer da vida”, desabafa Márcia Irffi
Para a psicóloga, a demora dos processos é um estímulo a mais para que motoristas continuem a matar no trânsito“Infelizmente, o ser humano só aprende quando é punidoSe fica sem punição, por que respeitar a lei?”, afirma.

Nas comarcas que abrangem algumas das rodovias mais perigosas de Minas Gerais a situação também não é boaEm Caeté, na Grande BH, onde correm muitos dos processos de crimes de trânsito registrados na chamada Rodovia da Morte, a BR-381, as denúncias aumentaram 127% em um anoEntre 2011 e 2012 saltaram de 11 para 25O ritmo de julgamentos foi ampliado em 83%, de 12 para 22Mesmo assim, os processos acumulados somavam 123.

A situação é ainda mais crítica nas comarcas de Curvelo e Itabirito, onde tramitam ações relativas a crimes de trânsito ocorridos na BR-040, na direção de Brasília e do Rio de Janeiro, respectivamenteMesmo com o número de processos de 2011 para 2012 sendo reduzido em 3,6%, de 114 para 110, o ritmo de julgamentos caiu 44%, passando de 45 para 20O resultado disso não poderia ser outro, senão a ampliação dos volumes estocados nos acervos da Justiça, que foi ampliado em 17%, passando de 449 processos para 525.