Jornal Estado de Minas

Defesa de mãe que torturou tetraplégico diz que sofrimento com vício do filho levou acusada ao limite da violência

A mãe lutou por mais de 10 anos contra o vício do filho em crack. Ele caiu de um telhando quando tentava furtar solvente para se entorpecer e ficou tetraplégico. Depois instalou câmera para gravar as agressões da mãe, que acabou presa e processada por tortura

Luana Cruz, Paulo Filgueiras, Cristiane Silva, Daniel Camargos, Mateus Parreiras, Pedro Rocha Franco, Luciane Evans, Leandro Couri
A defesa da Tilma das Graças Teles, de 53 anos, acusada de torturar o filho tetraplégico em Rio Acima, na Região Central de Minas Gerais, vai entrar nesta quinta-feira com um habeas corpus para tentar a liberdade da mãe
Ela está presa no Complexo Penitenciário Estevão Pinto, no Bairro Horto, em Belo Horizonte, e cumpre prisão preventiva determinada pela Justiça após denúncia de Ministério Público por crime de torturaA advogada, Maria Helena Medeiros de Moraes, vai mostrar que o histórico de sofrimento da mãe com o filho drogado a levou ao limite da violência

A advogada está recolhendo documentos, desde 7 de maio quando Tilma foi presa, para comprovar o histórico problemático do rapaz de 27 anosO caso de violência foi denunciado pelo próprio filho, que mesmo deficiente, instalou uma câmera no quarto e gravou as agressões da mãeAos 25 anos ele sofreu um acidente que o deixou tetraplégico

Segundo a advogada, o rapaz era usuário de crack e cola de sapateiro há mais de 10 anos e causou inúmeros transtornos à Tilma, à família e outros moradores da cidade“Era frenquentemente acusado de furto e roubos que eram realizados para que sustentasse seu vício”, relataSegundo Moraes, o acidente que o deixou tetraplégico ocorreu quando o jovem subiu no telhado da casa de um tio para furtar solvente para se entorpecerEle caiu e sofreu uma grave lesão“Embora fosse muito inteligente - chegou a ser servidor público em Nova Lima - o vício o levou ao estado de mendicância
Só no Hospital André Luiz esteve internado por 22 vezes, sem contar em várias outras instituições de internação”, conta a defensora

Cárcere

A advogada não tenta justificar a agressão de Tilma, mas quer reverter a situação de cárcereMoraes afirma que há outras medidas cautelares que poderiam afastar a mãe do filho sem que sua cliente fique presa“Ela pode morar com outros familiares, pode se comprometer a comparecer em juízoNão tem certo ou errado, vítima ou vilão nas reações humanasEstou tentando mostrar isso para o juizÉ com cárcere que vão tratar isso?”, questiona a advogada

Moraes relata que Tilma procurou ajuda do estado durante anos, para tentar internar o filho ou tratá-lo do vício“Ela não foi omissa em relação ao filho, ela procurou autoridades públicas que nunca tinham agidoEla foi adoecendo
A pessoa vai enlouquecendo”A advogada relata que a mãe passava noites em claro porque o filho, em crise de abstinência, não parava de gritarPara a criminalista, o crack é um problema de saúde pública que deveria ser tratado com intervenções do estado“Esse evento mostra que o estado só chega quando a situação está limite, quando não tem mais jeito, quando essa mãe está doente por correr atrás do filho a vida inteira."

Filho arrependido

Para a defensora, o vídeo com as agressões mostra uma realidade parcial, um momento em que Tilma estava descontrolada e nervosaPara ela, o rapaz pegou uma parte da convivência e mostrou aquiloMas o delegado que comandou as investigações, disse na época da descoberta do crime, que as agressões eram frequentesMoraes argumenta que não há provas“O filho falou que era com frequência, mas não tem nada provadoEles discutiam muito, era uma relação desgastada há anosEle manipulava as coisasEle é totalmente lúcido”, afirma Moraes

Um dia depois da prisão de Tilma, o rapaz se mostrou arrependido pedindo à polícia a soltura da mãeNa época, o delegado Ésio de Jesus Viana, que investigou o caso, disse que ele só queria ser respeitado e bem tratado por TilmaNo entanto, o apelo do filho não foi suficiente porque ela vai responder pelo crime inafiançável que prevê pena de dois a oito anos de reclusão

O rapaz atualmente está com cuidadoras e sob a responsabilidade de um padrinhoDe acordo com Moraes, a prisão de Telma gerou não só o arrependimento do filho, mas também comoção na cidade de Rio Acima, dos moradores que acompanharam a luta da mãe durante anos para livrar o filho das drogas

Veja as cenas da agressão: