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Estado de Minas

Especialistas apontam falhas de planejamento que levaram à destruição de obras do BRT


postado em 11/05/2013 06:00 / atualizado em 11/05/2013 07:37

(foto: Juarez Rodrigues / EM / DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues / EM / DA Press)

A empreiteira Constran, contratada pela Prefeitura de Belo Horizonte para construção das estações do (BRT, transporte rápido por ônibus, na sigla em inglês), está quebrando o concreto do corredor central da Avenida Antônio Carlos, na altura do número 3.590, no Bairro São Francisco, na Região Norte. A destruição do trecho – que era de asfalto e foi quebrado para instalação de piso de concreto – é feita para construção de terminais de embarque e desembarque do novo sistema de transporte público. Mas especialistas entendem que o trabalho representa desperdício de dinheiro e mais transtornos para a população, que vive em meio a um canteiro de obras.


A medida, adotada por falta de planejamento, como reconhecem até funcionários da obra, soma-se a outro erro de projeto, desta vez na Avenida Cristiano Machado, onde uma estação do BRT foi demolida, no Bairro União, na quinta-feira. Segundo a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), a demolição de trechos da pista central do BRT Antônio Carlos é feita no trecho entre a Lagoinha e o Viaduto São Francisco para implantação de nove estações de transferência de passageiros.


O problema do quebra-quebra em uma obra que já sofreu vários adiamentos no cronograma é resultado do pouco tempo gasto com a concepção do projeto, explica o diretor do Instituto Mineiro de Engenharia Civil e assessor técnico do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-Minas), Maurício Fernandes.


“Em países desenvolvidos, o planejamento de uma obra dura cerca de 80% do tempo e a construção 20%. No Brasil é o contrário. O tempo reservado para o projeto é muito curto”, diz. A consequência disso, segundo o especialista, é que os erros começam a surgir ainda na fase de concepção. “Aí constrói-se errado e depois tem que demolir para consertar. Mexer no papel é simples, mas refazer uma obra exige novos custos e mais tempo”, lembra, criticando ainda que é a população que sofre os impactos desses erros. “Somos nós que pagamos pela incompetência da má gestão dos recursos públicos.”


O prazo apertado para entrega da obra também foi lembrado pelo diretor. Segundo ele, diante de uma situação como a que Belo Horizonte vive, com cronograma já remarcado e com data limite para funcionamento do BRT, não há mais condições de errar. “Nesses casos, o planejamento deve ser ainda melhor, porque quanto maior o atraso, maior será o custo e prejuízo com a obra”, destaca.


O chefe do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ronaldo Gouveia, critica também a falta de planejamento nas obras do BRT e diz que as várias mudanças de planos de meio do caminho resultarão em encarecimento. Para evitar os transtornos, ele diz que as peças e equipamentos instalados na via pública devem chegar prontos. “Engenharia existe para isso, para projetar e evitar erros.”


Testes no local errado

Sobre a estação do BRT demolida na Cristiano Machado, o maior erro está em testar um equipamento dessa natureza na via pública: “Não se constrói um equipamento desse em uma via como a Avenida Cristiano Machado para fazer testes. Isso deveria ter sido feito no galpão da fábrica. Se é um protótipo, não poderia ter sido colocado no local definitivo”, diz.

Para além dos impactos financeiros, os dois especialistas listam os transtornos ambientais, no trânsito, no comércio e na vida das pessoas. “Se uma obra estava prevista para durar três meses e dura seis, dobra o tempo de incômodos gerados à sociedade, que sofre com os ruídos, poeira, engarrafamento e demais problemas. Isso tudo só ocorre por falta de planejamento”, afirma Maurício.


Por meio de nota, a Sudecap informou que a demolição do módulo da estação de transferência de passageiros na Cristiano Machado feita pela empreiteira Constran não representará nenhum custo adicional aos cofres públicos. “A empresa desenvolveu dois modelos de estação para que a prefeitura pudesse optar pelo que fosse mais adequado às especificações técnicas exigidas no sistema de transporte a ser empregado – o BRT”, diz o documento.


Ainda segundo o texto, o módulo aprovado será mantido e integrado aos 12 equipamentos que serão instalados ao longo da via. De acordo com a assessoria, não serão feitas novas demolições e o processo de retirada do protótipo não atrasa o cronograma da obra. No entanto, a assessoria se contradiz ao afirmar, por e-mail, que o erro de engenharia foi da empresa responsável pela montagem do equipamento.


O EM tentou contato com a empreiteira Constran para comentar a demolição do terminal, mas não obteve retorno.

 

Enquanto isso...

…Crea precisa de laudo para vistoria

Responsável pela fiscalização do exercício profissional, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG) informou que no caso das obras do BRT é necessário laudo técnico de engenharia que comprove o erro profissional, que pode ser tanto de projeto, de execução ou mesmo de informação. Apenas se comprovada a falha, por meio de perícia técnica, feita denúncia formal ao conselho, ele fiscalizará e, havendo necessidade, irá abrir processo ético.


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