Mesmo com a média de internações compulsórias de dependentes de crack se mantendo estável em Minas nos últimos meses – 19 a cada 30 dias –, cresce o número de pessoas que batem às portas da Justiça pedindo hospitalização de usuários por via judicialEnquanto 117 ações dessa natureza foram ajuizadas pela Defensoria Pública de Minas em 2012, 59 já foram propostas somente nos quatro primeiros meses deste ano, um aumento médio mensal superior a 51%O crescimento, de acordo com o coordenador da Defensoria Especializada em Saúde, Bruno Barcala, espelha a corrida por atendimento“A população está mais esclarecida sobre a rede de serviçosCom isso, a procura e o número de ações aumentaram”, diz
Com os que buscam a intervenção dos defensores chegam relatos de insuficiência de vagas para atender a demanda da internação no estadoE o problema é maior do que indicam as estatísticas, porque nem todos os pedidos de hospitalização são levados adiante pela Defensoria e, dos que chegam ao Judiciário, pelo menos a metade é negada.
“As informações que chegam à Defensoria, seja por familiares de pessoas que chegaram a ser internadas ou até mesmo por profissionais da saúde, dão conta de que a rede não contempla a necessidade de internações”, afirmaO pior: a demanda cresce a cada diaApesar da procura em alta por internações, pesquisas feitas no Brasil mostram que a medida tem apenas 3% de efetividade no tratamento, como já afirmou o especialista em segurança pública Robson Sávio, coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Outro problema enfrentado pelas famílias que esperam da Justiça aval para internar um parente dependente de crack é o baixo índice de deferimento de pedidosDe acordo com o defensor Bruno Barcala, apenas de 40% a 50% dos pedidos passam pelo crivo dos juízes
Na Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde de Belo Horizonte, a média de ações ajuizadas por mês ta
mbém mostra que a internação compulsória não é o caminho mais acessadoDe acordo com o promotor Bruno Alexander Vieira Soares, coordenador do setor, são cerca de 20 pedidos do tipo recebidos por mês, mas apenas dois se transformam em ações judiciaisIsso ocorre, segundo ele, porque a internação só é indicada por esgotamento dos tratamentos em meio abertoAlém disso, é preciso que haja um laudo médico indicando a necessidade de hospitalização“Nem todas as famílias têm o documento”, diz
O representante do MP destaca a necessidade de um tratamento completo e intersetorial, que acompanhe o paciente também após a internação compulsória, para que não haja recaídasPor outro lado, ele cobra a ampliação da rede de tratamento
Recaída e agressão
Foram nove meses de desintoxicação em uma clínica em Atibaia (SP)Para a mãe, ao voltar a BH jovem parecia recuperadaGanhou peso, saltando de 39 quilos para mais de 60 e, animada, só pensava em trabalhar e construir uma relação de afeto com a filha, então com 3 anosNo entanto, dois meses se passaram e as oportunidades de trabalho não vieramSônia conta que a filha começou a ficar inquieta e um dia, ao sair para participar de um grupo de apoio, não voltou“Ela não aguentou ficar sem uma ocupação‘Caiu’ e desde então é uma luta diária para tentar tirá-la dessa vida”, lamenta a mãe
Na tarde de ontem, Sônia acompanhava a filha, que, depois de receber 10 facadas e passar a noite no Pronto-Socorro do Hospital João XXIII, foi encaminhada novamente ao Cersam“Não sei mais o que façoJá não durmo e só terei alívio quando souber que ela está internada em um local seguro e com ajuda para se ressocializar”, dizSegundo a gerente do Centro de Referência Leste, Maria Tereza Granha Nogueira, a internação compulsória não tem efeito se não for feito um trabalho posterior“No caso dela, a equipe de saúde mental tentou dar continuidade ao tratamento quando ela voltou de São Paulo, mas ela faltava às consultas e não conseguíamos encontrá-la em casaTudo isso dificulta a recuperação.”
Sem solução
A Secretaria de Estado de Saúde confirma a falta de leitos para atender a demanda por internação compulsória e diz não haver solução imediata para o problema“O estado tem encontrado dificuldades, porque o Ministério da Saúde não autoriza a abertura de leitos”, alega a coordenadora estadual de Saúde Mental, Tanit SarnurSegundo ela, a situação é agravada por decisões judiciais que estipulam o período de internação“Essa avaliação tem de ser feita pela equipe médicaCom as determinações dos juízes, temos casos de pacientes com condições de receber alta que continuam ocupando vagas.”
Tipos de internação
Segundo o artigo seis da Lei Federal 10216/01, as internações de dependentes químicos se dividem em três tipos:
Voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário
Involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiros
Compulsória: aquela determinada pela Justiça, mas que depende de laudo médico