Jornal Estado de Minas

Tetraplégico torturado pela mãe em Rio Acima quer que ela seja solta

Apesar do apelo, delegado que investiga o caso considera a situação gravíssima e pedirá a manutenção da prisão da mulher

Daniel Silveira

O rapaz tetraplégico que pediu socorro à polícia após ser vítima, por meses, de tortura cometida pela própria mãe está dividido entre o alívio pelo socorro recebido e a angústia

Ele quer que a polícia a solte, presa em Rio Acima, Grande BH, na noite desta terça-feira"Ele só queria ser respeitado e bem tratado por ela", relata o delegado Ésio de Jesus Viana, que investiga o casoApesar do apelo do rapaz, o policial já providencia o pedido para que a Justiça mantenha a mulher presa.

Nesta quarta-feira, o rapaz recebeu a visita do delegado, de uma assistente social da prefeitura e de uma enfermeira do Programa de Saúde da Família (PSF)Ele não quis falar com jornalistas e confessou ao policial ter ficado surpreso com a repercussão do caso na imprensa, já que acompanhou pela televisão as notícias sobre o casoNos telejornais foram exibidas cenas fa gravação feita por ele de uma das muitas agressões cometidas pela mãe, Tilma das Graças Teles, de 53 anosO situação comoveu os moradores do município e espantou a equipe do PSF que o acompanhava há cerca de um ano e que nunca desconfiou dos maus tratos.

"Ele chora, ao mesmo tempo sorri e a todo tempo pergunta pela mãe, preocupado com a situação delaPediu que eu aliviasse o lado dela", revela o delegado Ésio VianaO investigador começou a ouvir pessoas próximas ao rapaz para dar andamento ao inquérito e a buscar junto ao Estado garantias de assistência e cuidados a eleUma delas, a manutenção da prisão."No momento eu preciso que ela fique presa para preservar a vida dele e até mesmo dela, que me confidenciou querer se matarDisse até que pretendia matar primeiro o filho e depois cometer suicídio", ressalta Viana
Ele destacou ainda que a família da mulher também só demonstra preocupação com a condição dela e nenhum zelo pela vítima.

Embora um padrinho do rapaz tenha se apresentado e acolhido o enteado, o delegado enviou um ofício ao Ministério Público pedindo para que seja providenciada uma curadoria a eleÉsio revelou ter ficado impressionado com o caso, dizendo nunca ter visto uma violência doméstica tão graveRessaltou precisar dar andamento a outras investigações, mas garantiu atenção concentrada ao rapaz"Eu não posso virar as costas para uma questão destas, de cunho até mesmo humanitário", destacou.

O foco das investigações é dimensionar as agressões cometidas pela mãePretende o delegado saber se outras pessoas foram coniventes ou até mesmo co-autoras dos maus tratosTambém quer saber a que ponto chegou a negligência da mãe"Há muitas pessoas a serem ouvidasPessoas que tinham conhecimento, que ouviam as agressões, e que podem saber de coisas que ainda não sabemosEle se colocou disponível a falar, é muito lúcido e já nos forneceu muitos dados para dar prosseguimento aos trabalhos", comentou ÉsioO delegado se mostra notavelmente sensibilizado pela condição da vítima
"Ele é um indivíduo muito interessante e foi completamente alienado pela mãeCreio que seja um gigante espiritual", disse.

Além da atenção policial, o rapaz também recebe apoio da administração municipalPor meio de nota, a Prefeitura de Rio Acima informou que ele recebe atendimento sistemático de uma equipe multidisciplinar composta por médico, profissional de Saúde Mental, assistente social e fisioterapeutaNo comunicado, destacou-se que nenhum dos profissionais notou, desde que começou a atender o rapaz, nenhum tipo de lesão corporal ou suspeita de maus-tratos


Cenas de tortura

O rapaz ficou tetraplégico em dezembro de 2011, após um acidente domésticoEle relatou à polícia que passou a ser severamente agredido pela mãe, física e psicologicamente, depois de receber alta e retornar para o apartamento onde moravam apenas os doisPara denunciar o caso, ele conseguiu que fazer a mãe ligar a câmera do computador sem que ela percebeseAssim, registrou em vídeio uma das agressõesMesmo com a gravação, ele ainda demorou um pouco para criar coragem e pedir socorroChamou a polícia nesta terça-feira, por meio de um aparelho celular adaptado a seu usoO delegado

Tilma foi presa em flagrante pelo crime de tortura, que é inafiançável e prevê pena de 2 a 8 anos de reclusãoEla está detida no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) Centro-Sul, em BH