Se no terminal rodoviário de BH há detector de metal, ele não é usado na maioria dos embarquesE, por isso, o repórter do EM não teve qualquer dificuldade para entrar com uma faca de porte médio numa bolsa de mão num ônibus com destino a Uberlândia, no Triângulo Mineiro, às vésperas do feriado de 1º de MaioUma pistola de brinquedo também fazia parte da única bagagemMesmo se comportando de forma suspeita, observando de perto passageiros com equipamentos eletrônicos, o repórter não foi incomodado pela segurança do terminal, que apenas não permitiu que o repórter fotográfico da equipe fizesse imagens no localUm zelo talvez para com a imagem dos usuários.
A viagem até Uberlândia, mesmo sendo na madrugada de um feriado, não teve qualquer intervenção de fiscais ou policiais no percursoO carro da reportagem, descaracterizado, seguindo o ônibus até Araxá, chegou a ser alvo de suspeita do motorista, que admitiu temer se tratar de bandidos, quando encostou e o veículo não o ultrapassouMas, sem treinamento, ele não chamou a polícia e, se fosse um grupo criminoso, não faltaram oportunidades de assalto, já que no trecho de mais de 500 quilômetros nem num posto da PRF foram vistos policiaisO manuseio da faca na bagagem de mão pelo repórter numa das duas paradas do ônibus, próximo a funcionários da empresa, também não serviu de alerta.
O estudante Michel Gonçalves Silva, de 28 anos, seguiu de BH a Araxá no mesmo ônibus, de onde viajaria para sua cidade, Sacramento, em outro coletivo"Há três anos faço esse trajeto e apenas duas vezes o ônibus foi parado por policiais que pediram identificação de passageiros e verificaram bagagemNunca fui assaltado, mas é um risco e até hoje conto com a sorte”, afirma.
Felipe Oliveira Assunção, de 22, cursa engenharia em Itabira, na Região Central de Minas, e há um ano e dois meses atravessa parte do estado de ônibus quando vai para a casa dos pais em Ituiutaba, no Triângulo
Ataque
Em vários registros de ocorrências policiais fica evidente casos de passageiros com armas dentro dos ônibusEm 2 de abril, num ônibus que seguia de Uberlândia para Brasília viajavam sete policiais militares armadosNa BR-050, em Araguari, um dos pontos de maior número de assalto a ônibus no Triângulo, o veículo foi abordado por uma quadrilhaHouve troca de tiros, um ladrão morreu e seis foram presos, todos moradores de Uberlândia.
No dia 14 do mesmo mês, Antônio Donato Baudson Peret, de 24, acusado de incitar crimes de intolerância em BH, foi preso em fuga na rodoviária de Americana (SP), com um soco-inglês, duas facas e um facãoIsso depois de sair de BH em direção a São Paulo de ônibus.
Motoristas atacado três vezes
O medo faz parte da rotina do motorista Jair Marques Izidoro, de 52 anos, assaltado três vezes desde 2008 em estradas do TriânguloO mais recente foi na madrugada do dia 17 do mês passado“Eu seguia de Uberlândia para Mineiros (GO) e quando saí da BR-365 para pegar a BR-452, em Xapetuba, menos de 30 minutos depois de deixar a rodoviária, com 25 passageiros, surgiram os bandidos num Gol prata, apontando suas armasTrês entraram com revólveres e começaram a saquear os passageiros”, afirmou.
Jair contou que, ao contrário do que os criminosos fazem, o motorista do carro da fuga seguiu à frente do coletivo e não atrás: “Os bandidos mandavam sinalizar para ele parar
Em março de 2011, a caminho de Uberlândia, Jair estava ainda em trecho da BR-452, em Goiás, com 34 passageiros, quando foi abordado por assaltantes“Havia um delegado federal dentro do carro e eu nem imaginavaFui fechado por um Gol depois de sair de Jataí em direção a ItumbiaraQuando os bandidos entraram só ouvi os tirosUm deles mandou que eu abrisse a porta e pulouMorreu dois dias depois feridoO outro morreu dentro do ônibus”, contaJair ainda guarda as fotos do bandido morto e conta que outros sete integrantes da quadrilha foram presos, além de dois mortos.
Ainda este mês Jair Marques pretende se aposentar, depois de 20 anos trabalhando como motoristaA mulher dele, Sara de Deus da Cruz, de 28, quer que o marido pare com as viagem e trabalhe dentro de UberlândiaEle parece concordar, já que não pretende mais se expor aos riscos das rodovias.