Jornal Estado de Minas

Lenda ou chave do enigma?

Escritos encontrados em casarão em Pitangui sustentam que a cabeça de Tiradentes foi furtada

Ela teria sido retirada de Ouro Preto e sepultada em Quartel Geral, atiçando o imaginário da população

O advogado Sebastião Caetano de Andrade acredita na versão: "A cabeça está lá, na beirada da lagoa" - Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
 


Quartel Geral e Pitangui – Considerado o maior mistério da história brasileira, o sumiço da cabeça de Tiradentes também povoa a imaginação de moradores de um lugarejo de 3,5 mil habiantes, a 300 quilômetros da antiga Vila RicaEm Quartel Geral, no Centro-Oeste de Minas, para onde fugiram a amante do alferes, dona Eugênia Joaquina da Silva, e João, o filho do casal, parte da população acredita que o crânio do mártir foi enterrado no lado Norte da lagoa que é cartão-postal do município.

A lenda caiu na boca do povo depois que um calhamaço foi encontrado, na metade do século passado, durante a reforma de um casarão colonial de Pitangui, a 100 quilômetros de Quartel GeralNinguém sabe onde a papelada foi parar, mas muita gente diz que o material era composto de cerca de 100 páginas, amareladas pelo tempo, com o título “Memórias de um camarista (vereador) pitanguiense sobre o povoamento dos sertões diamantíferos do Indaiá e do Abaeté”

O material despertou a atenção de um historiador, que o comprou do dono do imóvel restauradoAs folhas estavam bastante desgastadas, o que não permitiu a leitura de todo o conteúdoMas algumas páginas relatavam um caso curioso: o próprio camarista e um padre de Pitangui teriam sido os responsáveis por furtar a cabeça de TiradentesA dupla teria planejado uma operação arriscada para conduzir o resto mortal do alferes de Vila Rica a Quartel Geral.

Todo cuidado era pouco, pois, se fossem descobertos, seriam julgados pelo crime de lesa-majestade, cuja pena era a forcaÉ bom lembrar que a ordem da Coroa portuguesa foi de que a colônia mantivesse a cabeça do herói exposta em uma gaiola na principal praça de Vila Rica, até que o tempo a consumisseO objetivo era inibir novos levantes contra o reinoDe acordo com o calhamaço encontrado em Pitangui, porém, o camarista e o padre conseguiram retirar a cabeça do local, no silêncio da terceira noite, e a teriam enterrado próximo à lagoa em Quartel Geral

“Aprendi a história ainda pequeno

A cabeça está lá, na beirada da lagoa”, aponta o advogado Sebastião Caetano de Andrade, de 64 anosPróximo ao espelho d’água há a Praça da Matriz, onde foi erguida a Igreja do Divino Espírito SantoO templo foi construído no terreno doado pela amante de Tiradentes, dona EugêniaDiante da igreja, na Casa de Cultura, um cartaz escrito à mão destaca a passagem de mãe e filho pelo antigo arraial.

A lenda de que a cabeça do alferes está enterrada às margens da lagoa seduziu escritores da região“Há um livro de crônicas de Rubens Fiúza, natural de Dores do Indaiá, que trata do assuntoA narrativa associa o suposto furto da cabeça a personagens que povoam o imaginário dos moradores do Oeste mineiro, como o capitão Inácio de Oliveira Campos, marido da matriarca Joaquina de PompéuFiúza afirma que essa história seria baseada em documentos de sua famíliaPorém, não há vestígios desses papéisPara mim, a ausência de fontes primárias dá à obra o caráter de ficção”, diz o historiador Licínio de Sousa e Silva Filho.

Titular da cadeira do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG) cujo patrono é o alferes, Adalberto Guimarães Menezes, um tenente-coronel da reserva do Exército, acha graça nas lendas sobre a cabeça do mártirNatural de Luz, cidade próxima a Quartel Geral e a Bom Despacho, ele faz questão de dizer que, “até hoje, não há nada sobre a localização do resto mortal que mereça crédito”


Seu colega de entidade, o presidente benemérito do IHGMG, Herbert Sardinha, destaca que o assunto já foi discutido a fundo: “Tenho duas ceretezasPrimeira: a cabeça não foi retirada (da Praça Santa Quitéria) por apenas uma pessoaSegunda: o sumiço da cabeça é o maior mistério da história brasileira”.

O segundo sumiço da relíquia

Pode soar estranho, mas a cabeça de Tiradentes foi furtada duas vezesE os autores da última ação são conhecidos e estão vivosTrata-se dos artistas plásticos José Efigênio Pinto Coelho e Gelcio FortesO “crime” deles foi cometido em 1992, na madrugada anterior à cerimônia de 200 anos da morte do mártirPara celebrar a data, o governo de Minas encomendou uma réplica da cabeça do heróiPesava 30 quilos e, tal qual a original, foi colocada em uma gaiola sobre um grande mastro

A cerimônia havia saído como o planejado, com as homenagens ao heróiPor volta das 5h, porém, quando a praça estava vazia, Efiênio e Gelcio, que haviam passado a madrugada rodando bares da cidade, se depararam com a réplica“Então, eu disse ao Gelcio que, conforme a história, a cabeça não poderia amanhecer na gaiolaRetiramos a réplica de lá e a enterramos no meu quintal”, conta Efigênio.

A audácia da dupla foi descoberta poucas horas depois, pois uma testemunha flagrou a ação e acionou a PM“Acordei com a polícia em minha casaFomos levados para a delegacia com a prova do crimeRecebemos voz de prisão e a notícia se espalhou pela cidadeMuita gente foi à delegacia, mas para nos apoiarHouve quem dissesse ao delegado que nosso ‘crime’ fazia parte (da cerimônia)”, recorda EfigênioDiante do clamor, os artistas plásticos foram liberadosE viraram heróis no município