
Uma relação extremamente desgastada, com culpas e desculpas dos dois lados. A morte de sete pessoas após a queda de um ônibus de um viaduto no Rio de Janeiro chamou a atenção para a impaciência, o desrespeito e a violência que opõem motoristas e passageiros e colocam todos em risco no transporte coletivo. Em Belo Horizonte, os que dirigem e os que pagam passagem também andam no limite. O sinal de alerta já foi aceso por dois casos recentes, em que condutores abandonaram os ônibus no meio da rua depois de desentendimentos no trânsito ou com usuários. Não é à toa que as reclamações contra o serviço estão em alta e as infrações cometidas por rodoviários disparam.
Prova disso é que, até julho, 120 motoristas de ônibus devem ter suspensas suas carteiras de habilitação por excesso de pontos, principalmente no que diz respeito a avanço de sinal, segundo o sindicato da categoria. De acordo com a BHTrans, no ano passado foram 11.939 multas a condutores de coletivos, 7.520 delas por excesso de velocidade e avanço de sinal vermelho, o que representa 62,9% das infrações.
Também em 2012, de acordo com a BHTrans, foram 32.233 queixas contra o sistema de transporte coletivo, média de 88 reclamações por dia. O comportamento inadequado do operador está entre os três principais motivos de ligações dos usuários, que também criticam o desrespeito a pontos de embarque e desembarque e a quadro de horários, tipos de queixas que representam 80% do total de reclamações. Como órgão regulador do serviço, a BHTrans também é responsável pela fiscalização das atividades e aplicou mais de 18 mil multas administrativas, no ano passado, a empresas que não cumpriram o número de viagens programadas dentro das faixas de horário.
AO VOLANTE Em confronto com as queixas de passageiros estão as reclamações de quem é obrigado a enfrentar o trânsito no dia a dia. De acordo com o diretor de Comunicação do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Belo Horizonte, Carlos Henrique Marques, o motorista já sai da garagem estressado e muitos têm que cumprir dupla jornada, somando 13 horas de manobras no trânsito pesado da capital. Ao longo do dia, afirma, as ofensas, agressões verbais e constrangimentos passaram a ser corriqueiros. Segundo ele, pelo menos 3.060 motoristas estão afastados por depressão, estresse e problemas de saúde, o que representa 30% dos 10.200 associados ao sindicato.
“Os passageiros precisam ter compreensão maior. Eles estão irritados com o trânsito, mas somos nós que acabamos explorados até com mais rigor. As empresas não operam com o quadro completo, porque há um déficit muito grande de profissionais nessa área, e o motorista acaba obrigado a cumprir sua rotina e a jornada do colega que faltou ou que está afastado. Quem se recusa sofre pressão e ameaças”, afirma Carlos Henrique.
O sindicato admite que está preocupado com o número de motoristas com excesso de pontos na carteira. Carlos Henrique afirma que alta velocidade não é um problema frequente, porque o tacógrafo limita a velocidade a 60 km/h, permitindo o controle e rastreamento por parte das empresas. Quanto ao avanço de sinal, o sindicalista tenta justificar: “Ao passar no sinal amarelo, pelo tamanho do ônibus, a multa acaba sendo registrada”. Para o dirigente, também há explicações para as outras queixas. “Só não paramos no ponto quando o passageiro faz sinal em cima da hora, até para não provocar freada brusca, ou quando a baia está lotada com outros ônibus, porque BH não comporta mais o trânsito que tem.”
Os sindicatos das empresas negam as pressões sobre os trabalhadores, mas admitem que os problemas causados pelo trânsito expõem os rodoviários a uma convivência desgastante com passageiros. Para a diretora de Comunicação do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano, Valéria Reis, o tráfego caótico é o principal responsável pelo esgotamento dessa relação. “Em razão do trânsito, não temos mais como cobrar de forma tão radical o cumprimentos dos horários como há 10 anos. Então, o argumento da pressão de fato não existe mais. As empresas investem em capacitação e valorizam o bem estar e ainda temos uma série de mecanismos para saber o que acontece nos ônibus. Mas, realmente, o trânsito está bem complicado e o passageiro acaba esperando muito no ponto e querendo chegar logo a seu destino.”
