Jornal Estado de Minas

Na Pampulha, moradores de rua buscam sobrevivência

Vanessa soares presta apoio a sem-teto na Praça Iron Marra: "O problema é o álcool" - Foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS
O morador de rua vive sobre uma linha invisível que divide a tolerância e a intolerânciaSó que ele não sabe em que lado está uma ou outra e com quemPor isso, é um ser ressabiado, que sabe o momento conveniente de deixar a agressividade de ladoÉ, por isso, quase sempre acessível, mesmo porque precisa receber para sobreviverWiliam Alves Ribeiro, de 32 anos, e Adalto César de Almeida, de 34, conheceram primeiro o lado da intolerânciaEles são dois dos sobreviventes de uma tentativa de homicídio por envenenamento em maio de 2011, no Bairro Santa Amélia, Região da Pampulha, Norte de BH.

Eles e outros moradores da Praça Engenheiro Iron Marra serviram-se de uma garrafa de cachaça envenenada com chumbinho (produto tóxico para matar ratos)Wiliam, depois dessa experiência, continuou desatento à intolerância e sofreu mais dois atentadosUma noite, dormia com o namorado, o Warley, de 36, sob uma marquise de um estabelecimento comercial, na praça, quando alguém jogou álcool sobre os dois e ateou fogoUm taxista apagou as chamas com o extintor do carro, mas Warley não resistiuWiliam tem, no dorso, marcas das queimadurasE não foi só isso.

"Está vendo aqui, ó", diz e levanta a calça para mostrar a panturrilha direita com uma ferida ainda não totalmente cicatrizada
“Um moleque jogou uma garrafa plástica incendiada, enquanto eu dormiaHoje, durmo com um olho aberto e outro fechado.” E é para compensar as noites maldormidas, em alerta, que invariavelmente são flagrados dormindo durante o diaWiliam e Adalto integram um grupo de cerca de 10 pessoas que moram na Praça Iron Marra.

Wiliam, Adalto e os demais moradores da Praça Iron Marra usam carrinho, desses de supermercado, sobre o qual entulham as tralhas: pedaços de espuma, que servem de colchões, cobertores, roupas e têm a companhia de alguns cãesE foi um deles que lhes salvou a vida“Ganhamos um marmitex e, desconfiados, demos a comida para um dos cachorros e ele morreu.” Mas nem tudo é ruim por aliO intenso comércio da área aprendeu a conviver com eles“Não nos incomodam, mas os clientes reclamam muito das abordagens inconvenientes”, diz Marluce Costa, funcionária de um sacolão.

A tolerância dos comerciantes não é a única bênção que recebemHá moradores interessados em entendê-los e ajudá-los, como a dentista Vanessa Alcântara Soares Dutra, de 46, e o marido, também dentista“Eles precisam de apoio espiritual e moralFazemos parte de uma iniciativa religiosa, o Projeto Francisco, e há um mês os visitamos e conversamos com eles
Aos domingos, fazemos orações e eles participam com atenção e respeito.” O que Vanessa entende é que no plano material o máximo que pode fazer é servir um lanche depois das orações.

"O problema deles é o álcool"São dominados pela bebidaWiliam tem irmã no Bairro Copacabana e mãe no Bairro JulianaAdalto é casado, tem mãe em Esmeraldas, mas brigou com o padrastoA mulher, também alcoólatra, vive em albergueE não uma oferta oficial de tratamentoE, como a maioria dos moradores de rua, rejeitam os abrigos“Lá dentro é pior do que aqui foraÉ consumo de droga, discussões, bebidaNinguém consegue dormir”, diz Wiliam