Moradores de rua relatam que um número crescente de sem-teto migra para áreas mais nobres da cidadeParte da população de rua tem buscado regiões onde há mais movimento, vigilância particular de edifícios e passagem de viaturas para fugir de violência, inclusive de brigas entre eles
Na Praça da Liberdade, não é difícil encontrar moradores recém-instaladosUm deles é Célio de Paula, de 64 anosO ex-faxineiro afirma que abandonou o Centro da cidade para se proteger“No Centro tinha uma porção de craqueados (usuários de crack) abusados, que batiam na gente por causa de nadaA polícia uma vez me bateu demais”, contaNa Região Centro-Sul, ele diz, é diferente“Achava que se entrasse aqui ninguém ia deixar, mas não fizeram nadaEntão vou empurrando meu carrinho”, revela ele, que batizou o carro de compras de Ferrari
Perto dali, no jardim da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, sete moradores de rua encontraram espaço para dormir entre folhas de papelão e cobertoresEles contam que só saem durante o dia para não atrapalhar o funcionamento da bibliotecaO grupo consegue dinheiro para comida, cigarros, álcool e crack lavando carros durante o diaO mais velho deles, Rodrigo de Souza, de 32 anos, veio de Santa LuziaEle conta que, a exemplo do ex-pedreiro que se instalou na Savassi, resolveu mudar de lugar por causa de violênciaRodrigo afirma também ter testemunhado a morte de um morador de rua“Foi terrívelJogaram gasolina no cara e depois botaram fogoPor isso vim para cá”, disseOs relatos coincidem com estatísticas do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua e Catadores de Material Reciclável (CNDDH)Segundo relatório da instituição, 54 moradores de rua foram assassinados em Belo Horizonte entre fevereiro de 2011 e maio de 2012.
Insegurança
A migração de sem-teto para pontos mais movimentados da cidade cria sensação de insegurança e gera reação entre moradores e comerciantes dessas regiõesO comerciante Marcos Vasconcelos, de 45 anos, conta que um dupla de moradores de rua que se instalou nas proximidades da Rua Aimorés, em Lourdes, foi vista tentando arrombar sua loja“Sei que é um problema social, mas não pode haver crimes”, reclamaDono de um restaurante na região, Ricardo Rodrigues, de 55 anos, disse que o número de pedintes nas mesas aumentou“A solução que encontrei foi oferecer comida aos mendigosNão adianta bater de frente, como alguns fazem”, afirmaMoradora da Savassi, a advogada Joana Garcia, de 34, disse que passou a evitar sair à noite com o filho por causa de sete moradores de rua que se instalaram ao lado de seu prédio“Já chamamos a PBH para levar essas pessoas para um albergue, mas ninguém veio”, afirmou
A prefeitura afirma ter 712 vagas em edifícios, sendo 400 de albergue, 32 no abrigo para famílias, 200 no abrigo de indivíduos, 80 nas repúblicas, além de 297 bolsas moradiaSegundo a administração municipal, um projeto piloto com a Polícia Militar para combater a violência entre os moradores de rua no Parque Municipal resultou 190 abordagens conjuntas em 2012 no espaço, que serve de projeto-piloto e poderá se expandir para toda a cidade.