Jornal Estado de Minas

Saiba quando foi o dia em que a bola rolou pela primeira vez no Mineirão

Inauguração do velho Mineirão ocorreu em setembro de 1965, com vitória da Seleção Mineira sobre o River Plate. Cambistas já agiam, cobrando o dobro pelas entradas

Eugênio Moreira
A pelota para o começo da partida, cujo único gol foi marcado pelo atleticano Buglê chegou de helicóptero: solenidades tiveram participação do capitão da Seleção de 1962, Bellini - Foto: ARQUIVO O CRUZEIRO/EM/D.A PRESS - 5/9/65

 

A importância do Mineirão para a ascensão do futebol mineiro na década de 1960 é inquestionávelOs clubes do estado cresceram nacional e mundialmente, conquistando títulos importantes e revelando craques a partir da inauguração do estádio em 5 de setembro de 1965Amanhã, depois de quase três anos fechado para ampla reforma visando à Copa das Confederações, em junho, e a Copa do Mundo, no ano que vem, o Gigante da Pampulha estará de novo de portões abertos para a torcida mineira.

Diferentemente dessa reinauguração, dividida em duas – em 21 de dezembro, a obra foi oficialmente entregue pela empresa responsável pela remodelação –, em 1965 a festa de inauguração se concentrou num único dia, com extensa programação, incluindo solenidades e o jogo inauguralOs eventos começaram às 9h, com salva de tiros de sete canhões, em frente ao hall – 15 minutos antes, os últimos operários ainda deixavam o local.

Os portões do estádio, ainda conhecido como “Minas Gerais”, foram abertos às 10hSegundo o extinto Diário de Minas, o primeiro torcedor a entrar foi Antônio Gomes da Silva, morador da Cidade IndustrialEle chegou às 6hDezoito alunos da Escola de Educação Física e 22 funcionários da Ademg se encarregavam de orientar as pessoas na entrada.

Às 11h, teve início a série de apresentações para entreter o público: evoluções de balizas cariocas e mineiras, exibição de cães amestrados e da banda da Polícia MilitarÀs 13h45, houve o descerramento das placas alusivas à inauguração e a bênção, dada pelo arcebispo auxiliar dom João Resende CostaEm seu discurso, o governador Magalhães Pinto destacou a importância da obra para a cultura do povo mineiro e finalizou com a frase: “Mais uma vez, repito: o estádio é do povo”Em seguida, houve queima de fogos e show da Esquadrilha da FumaçaTambém estiveram presentes João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Desportos, antecessora da CBF, e Vicente Feola, técnico da Seleção Brasileira.

As equipes entraram em campo ao mesmo tempo: a Seleção Mineira pelo túnel à direita das cabines, e o River Plate pelo da esquerda

Com os jogadores perfilados ao lado do trio de arbitragem, foram executados os hinos nacionais pela banda marcial da Polícia MilitarO zagueiro Bellini, capitão da Seleção Brasileira campeã mundial em 1958, deu uma volta olímpica e acendeu a pira olímpica.

A bola do jogo foi atirada de um helicóptero da Força Aérea Brasileira, num voo rasante, com as duas equipes em campo – os paraquedistas, que trariam a bola e a bandeira da Federação Mineira de Futebol (FMF), não tiveram autorização do Ministério da AeronáuticaO jogo teve início às 15h30, pouco depois que o governador autorizou a abertura dos portões para a entrada de torcedores sem ingresso.

Houve um minuto de silêncio em homenagem ao pai de Osvaldo Nascimento, funcionário da FMFA saída foi dada por Tostão, que rolou a bola para Dirceu LopesOs capitães foram Bueno, pela Seleção Mineira, e Ramos Delgado, pelo time argentinoAinda no primeiro tempo, ocorreram as duas primeiras expulsões: o ponta Tião e o armador do River, Sarnari, por causa de uma dividida violenta.

Além de ter sido expulso, o argentino havia desperdiçado a chance de entrar para a história como autor do primeiro gol: ele cobrou para fora um pênalti cometido pelo lateral Canindé, que havia feito um toque de mão dentro da áreaA glória ficou com o volante Buglê, do Atlético, que marcou aos 2min do segundo tempo o gol da vitória da Seleção Mineira por 1 a 0 sobre o River Plate.

O governador Magalhães Pinto e o prefeito de Belo Horizonte, Osvaldo Pierucetti, no entanto, não viram o lance: eles haviam saído no intervaloTambém entre a primeira e a segunda etapa foi inaugurada a pista de atletismo, com uma prova de 1.500m, vencida pelo atleta Ronaldo, do Atlético.

Problemas

O transporte coletivo, com 130 ônibus, não foi suficiente para levar os torcedores de volta para casaMilhares de pessoas voltaram a pé para o Centro da cidade, “formando verdadeira procissão na Avenida Antônio Carlos”, segundo o Estado de MinasCambistas também já eram um problema naquela época
O ingresso de arquibancada, que custava Cr$ 1 mil, era vendido a Cr$ 2 mil na região central e a Cr$ 1,5mil nas imediações do Mineirão.

A renda divulgada naquele domingo (Cr$ 82.792.625,00, com 73.201 pagantes) ficou registrada como a oficial, mas, segundo o EM do dia 7, faltava computar a venda nos postos da Loteria do Estado no interior, referente a 3 mil arquibancadas e 50 cadeiras (a Cr$ 4 mil).

Nos dias seguintes, foram disputados outros jogos festivosNa terça-feira, dia 7, o Palmeiras, representando a Seleção Brasileira, derrotou o Uruguai por 3 a 0Na preliminar, o América estreou com goleada por 5 a 2 sobre o UberabaNo dia 12, a atração foi o Botafogo, de Garrincha, que bateu a Seleção Mineira por 3 a 2Antes, o Atlético venceu o Siderúrgica por 2 a 1Na quarta-feira seguinte, foram disputadas as primeiras partidas noturnas: a Seleção Mineira ganhou do Santos por 2 a 1, depois de Cruzeiro e Villa Nova estrearem, com vitória celeste por 3 a 1.


Enquanto isso, guerra e épicos
Outros assuntos ganharam destaque no Estado de Minas nos dias próximos à inauguração do MineirãoNa política, as manchetes eram sobre a impugnação pelo Tribunal Superior Eleitoral à candidatura de Sebastião Paes de Almeida (PSD) ao governo de Minas Gerais, por abuso de poder econômico, e do marechal Teixeira Lott ao governo da Guanabara, por falta de domicílio eleitoral

Também foi anunciado, em tempos de Guerra Fria, um acordo entre os exércitos do Brasil e da Argentina para combater conjuntamente o comunismo, que ameaçava tomar o poder no UruguaiAinda no noticiário internacional, outro destaque era a declaração de guerra do Paquistão à Índia, por causa do território da Caxemira, conflito que ficou conhecido como Segunda Guerra da Caxemira.

Na área cultural, houve, no dia 4, a abertura do Museu Regional Dona Beja, em AraxáOs cinemas da capital exibiam, entre outros, A Noviça Rebelde, com Julie Andrews; O Príncipe e a Parisiense, com Brigitte Bardot; o épico A Conquista do Oeste; e ainda o festival Tom e Jerry, nas matinês do domingo no Cine Jacques.
Nas páginas de Esportes, além da inauguração do Mineirão, notícias sobre a apresentação, no dia 6, de Mário Celso de Abreu, que treinava a Seleção Mineira, como novo técnico do AtléticoE a conquista da Taça Guanabara pelo Vasco, com vitória por 2 a 0 sobre o Botafogo.



Linha do tempo...

Julho/1959
Início das obras, com os serviços de terraplanagem do terreno.

12/8/1959
Aprovado projeto de lei do deputado Jorge Carone Filho, que viabilizava a construção do estádio com verbas da Loteria do Estado.

5/9/1965
Inauguração do estádio, com solenidades e o jogo Seleção Mineira 1 x 0 River Plate.

24/10/1965
Disputado o primeiro clássico no MineirãoO Cruzeiro venceu por 1 a 0 e houve briga dos jogadores do Atlético com a arbitragem e a polícia.

11/1/1966
Aprovada lei que deu nome oficial ao estádio de Governador Magalhães Pinto.

6/6/2010
Último jogo antes do fechamento para a reforma: Atlético 0 x 1 Ceará, pelo Campeonato Brasileiro

21/12/2012
Solenidade de entrega do estádio, totalmente reformado para a Copa das Confederações e Copa do Mundo

3/2/2013
Inauguração oficial, com o clássico Cruzeiro x Atlético, pelo Campeonato Mineiro.