Terreno fértil para os arquitetos, vitrine de vários estilos, cidade aberta para criatividade sem limites. Belo Horizonte chega aos 115 anos sem grandes comemorações. Afinal, o país acaba de perder Oscar Niemeyer (1907-2012), o mestre das curvas de concreto que faria ontem 105 anos e deixou seu legado modernista na Pampulha e em outras regiões. Não são poucos os flashes, e encantamento, de visitantes diante da Igreja de São Francisco de Assis, Casa do Baile e Museu de Arte (MAP), antigo cassino. Mas BH não para – e nunca parou no tempo –, desde o primeiro traço de José de Magalhães, responsável pelo Palácio da Liberdade e antigas secretarias. Na sequência vieram Luiz Signorelli, Raffaello Berti, o carioca Niemeyer, Sylvio Vasconcellos, Humberto Serpa, Éolo Maia, Sílvio Podestá e Gustavo Penna.
Olhar para os lados e para cima, observar bem as fachadas, prestar atenção nas colunas, materiais e telhados. Morar em Belo Horizonte ou visitar a capital é também desfrutar do prazer de conhecer a arquitetura dos edifícios públicos, prédios residenciais, centros comerciais, escolas, hospitais, igrejas e monumentos.
Carsalade lembra ainda que BH teve a primeira escola de arquitetura do Brasil, criada na década de 1930. Um passeio pela cidade mostra a diversidade. E, para ver bem de perto essa gama de estilos, as irmãs Eloá Borba Castro, professora de espanhol que mora em BH, e Leonor Borba Subeldía, contadora e residente em Assunção, no Paraguai, caminharam na sexta-feira, à tarde, pela Praça da Liberdade, conferindo cada detalhe. “Aqui tem um conjunto muito rico, realmente uma beleza. Um mesmo lugar tem o modernismo do Edifício Niemeyer, os prédios do fim do século 19 e início do 20”, disse Eloá, sob total aprovação da irmã.
Mais adiante, o estudante de direito Mateus Zanetti, de 23, admirava o contraste das curvas do Edifício Niemeyer com as colunas do futuro Centro Cultural do Banco do Brasil, ex-Secretaria de Estado de Defesa Social, e escolhia o segundo como o mais expressivo. “Construções assim contam a nossa história”, disse o jovem ao se referir ao imóvel erguido entre 1926 e 1930 por Luiz Signorelli para abrigar a pasta de Interior e Justiça. Já o Palácio da Liberdade e as antigas secretarias de Fazenda, de Educação e Obras Públicas saíram da prancheta do pernambucano José de Magalhães, integrante da comissão construtora da capital, chefiada pelo engenheiro Aarão Reis.
Art decó
Na Praça da Liberdade, que, segundo os especialistas, reúne vários estilos arquitetônicos, está o Palácio Cristo Rei, de autoria do italiano Raffaello Berti. Ele foi autor de mais de 500 projetos de casas, cinemas, escolas, igrejas, hospitais e edifícios residenciais, comerciais e públicos. Só para destacar alguns que se tornaram referência: o prédio da prefeitura, na Avenida Afonso Pena; a Santa Casa, no Bairro Santa Efigênia; a sede social do Minas Tênis Clube, na Rua da Bahia; o Cine Santa Tereza; e o Cine Metrópole, demolido.
A trajetória profissional, no Brasil, do arquiteto formado na na Itália, começou em 1922.
1894 –Ex-sede do poder estadual em Minas, o Palácio da Liberdade, em estilo eclético com influência neoclássica, sai da prancheta de José de Magalhães em 1894. Fica na Praça da Liberdade
1937 – O poder episcopal chega à Praça da Liberdade com o Palácio Cristo Rei, projetado por Raffaello Berti. Prédio em estilo art déco, com linhas retas e frisos horizontais e fachada em pó de pedra
1940 – Oscar Niemeyer assina as obras do conjunto arquitetônico da Pampulha, com destaque para a Casa do Baile, o cassino (atual MAP) e Igreja de São Francisco, inaugurando o modernismo brasileiro, original e diferente do que se fazia no resto do mundo
Décadas de 1950 e 1960 – Construção de prédios consolidando o modernismo em BH. Destaque para o antigo prédio do Ipsemg, de Raphael Hardy e o Edifício Mape, de Silvio Vasconcelos, ambos na Praça da Liberdade, e o prédio da reitoria da UFMG, de Eduardo Mendes Guimarães
1974 – Inaugurado o prédio do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social de Minas Gerais (BDMG), no Bairro de Lourdes, com projeto de Humberto Serpa, Marcio Pinto de Barros, William Abdalla e Marcos Vinicius Rios Meyer. Representa a evolução do modernismo ou a maturidade desse estilo
1990 – Entra em cena o edifício Rainha da Sucata, de Éolo Maia e Sílvio Podestá, na linha pós-modernista, que reagiu aos dogmas modernistas com ornamentos, cores, mistura de materiais, colagens
1990/2000 – Na linha evolutiva do modernismo, revista com as novas possibilidades estéticas e tecnológicas, além de revigorada pela crítica pós-moderna, a obra do Arquiteto Gustavo Penna ganha destaque, com os prédios da Expominas, na Gameleira, e Escola Guignard, no Bairro Mangabeiras
José de Magalhães (1851-1899)
Arquiteto, enge-nheiro e geógrafo, o pernambucano José de Magalhães estudou na Escola Central do Rio de Janeiro, depois denominada Escola Politécnica. Na sequência, foi para Paris, França, onde se inscreveu, em 1876, na École de Dessin et des Mathématiques, etapa preparatória para o concurso de admissão à seção de arquitetura da École des Beaux-Arts. Voltou ao Brasil em 1880 e se transferiu, mais tarde, para Belo Horizonte, onde fez parte da Comissão Construtora da Nova Capital.
Raffaello Berti (1900-1972)
O italiano Raffaello Berti nasceu em Colla Salvetti, na Província de Pisa. Chegou a Belo Horizonte em 1929 com a intenção de passar apenas seis meses. Ficou até o fim dos seus dias. Participou da fundação da Escola de Arquitetura da UFMG, onde lecionou desenho artístico, arquitetura paisagística e composição decorativa. Fez mais de 500 projetos em BH e no interior de Minas, entre eles o prédio da prefeitura, o Cine Metrópole (demolido), hospitais, escolas e residências em estilo art déco e alguns já com linhas modernistas.
Oscar Niemeyer (1907-2012)
O arquiteto nasceu no Rio de Janeiro, mas foi em Belo Horizonte, especialmente na Pampulha, que fez seus primeiros projetos de repercussão internacional. Vai ficar na história uma das frases de Niemeyer que resumem a obra modernista: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.
Éolo Maia (1942-2002)
Natural de Ouro Preto, na Região Central de Minas, Éolo Maia se formou em arquitetura na UFMG, em Belo Horizonte.
Gustavo Penna
Formado, em 1973, na Escola de Arquitetura da UFMG, Penna é responsável por mais de mil projetos. Em BH, são destaques o Expominas, no Bairro Gameleira, a Academia Mineira de Letras, na Rua da Bahia, e Escola Guignard, no Mangabeiras. Essa última foi classificada pela revista Projeto, especializada no setor, como uma das 30 obras de maior relevância no país. Em estilo contemporâneo, é um dos autores do projeto do Memorial da Imigração Japonesa, no Parque Ecológico da Pampulha. O projeto da reforma do estádio Mineirão está a cargo do seu escritório.
E o modernismo chegou à cidade
Nas décadas seguintes, arquitetos importantes deixaram a sua marca na paisagem da cidade, como Raphael Hardy, autor do projeto do antigo prédio do Ipsemg, na Praça da Liberdade; Sylvio Vasconcellos, do Edifício Mape; e Eduardo Mendes Guimarães, do prédio da reitoria da UFMG. Em 1974, a inovação veio com a sede do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social de Minas Gerais (BDMG), no Bairro de Lourdes, considerado uma evolução do modernismo pela sofisticação arquitetônica.
Os ventos pós-modernistas sopraram no fim da década de 1980 e ganharam espaço nos anos 90. O maior nome é Éolo Maia, em parceria com Sílvio Podestá, do polêmico, na época, projeto do prédio Rainha da Sucata. Contrário à cartilha modernista que pregava “a verdade estrutural”, jogo de volumes e o concreto, Maia se rebelava contra tudo isso, usando cores, ornamentos, colagem e materiais diversos. “Era um homem ousado, visionário, com propostas diferenciadas”, diz a viúva Jô Vasconcellos, também arquiteta. Em 1973, bem antes de o pós-modernismo eclodir, Éolo projetou o Edifício Tinguá, na Rua Muzambinho, no Bairro Anchieta, na Região Centro-Sul. O conceito é bem diferente dos prédios convencionais e se tornou endereço muito procurado pelos arquitetos. “Segue a linha brutalista, com os materiais aparentes, como a laje do teto e o concreto das paredes. Se eu pintar, nunca mais será como antes” diz o arquiteto Alexandre Brasil, de 38, que considera o ambiente muito aconchegante. “É um prédio com personalidade”, elogia.
Com a sua arquitetura contemporânea, Gustavo Penna diz que o arquiteto é o profissional que cria ferramentas para a cidadania: “As casas são as ferramentas, um homem sem casa é indigno em qualquer lugar do mundo”. Para Penna, a arquitetura hoje perdeu os suportes antigos, é livre e variada e tem que ser inspirada. “A arquitetura deve interpretar os desejos dos cidadãos.”.