Jornal Estado de Minas

Segredo para trânsito melhor é tolerância zero com o descumprimento da lei

Valquiria Lopes

A única forma de mudar essa cultura de falta de educação é ter uma fiscalização que não tolere as imprudências no trânsito, dizem especialistas - Foto: (Fotos: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)

A parada na porta da escola é só por um minutoO tempo é o mesmo que o motorista espera ganhar ao avançar com o carro e fechar o cruzamentoA pressa também faz muitos ignorarem limites de velocidade ou avançarem o sinal vermelhoOs que agem assim, e não são poucos, fazem mal ao trânsito de Belo HorizonteAlém de aumentar o risco de acidentes e mortes, eles contribuem para congestionar ainda mais as viasO preço é alto: com o aumento da frota, a falta de educação, admite a própria BHTrans, é um dos componentes que podem ampliar o totalde vias saturadas em horários de pico de 8,8% – dado de 2008, o último disponível – para 19% em 2020, caso medidas de impacto no transporte e circulação forem tomadasEspecialistas ouvidos pelo Estado de Minas afirmam ser possível tornar as ruas e avenidas lugares com mais paz e obediênciaO segredo, eles dizem, é tolerância zero com o descumprimento da leiÉ preciso reforçar a educação desde cedo, promovendo mais campanhas, garantir uma fiscalização mais eficiente e rigorosa e reduzir a sensação de impunidade.

Severidade é a palavra de ordem para que a tarefa de frear as infrações de trânsito seja posta em prática em Belo HorizonteSomente com fiscalização mais intensa, avaliam especialistas, a capital pode se ver livre de abusos que deixam a cidade congestionada e motoristas cada vez mais irritadosConcretamente, as medidas incluem maior rigor na atuação, aumento do número de fiscais, equipamentos e viaturas e, para alguns especialistas, até mesmo por uma questão que tramita na Justiça e causa polêmica na capital: o retorno do poder de multa dos agentes da BHTrans, proibidos de usar bloco e caneta para punir desde 2009.

“A única forma de mudar essa cultura de falta de educação é ter uma fiscalização que não tolere as imprudências no trânsito, notadamente uso de bebida, excessos de velocidade e os ‘jeitinhos’ para levar vantagem”, defende o chefe do Departamento de Transportes da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ronaldo Guimarães Gouvêa

O caminho para esse novo cenário, no entanto, esbarra no contigente de equipamentos e fiscaisSegundo o especialista em tráfego urbano, os 97 radares espalhados pela cidade não dão conta de impor limites a tantos deslizes dos motoristas, bem como os atuais 836 fiscais de trânsitoDo efetivo, 413 são agentes da BHTrans, 261 guardas municipais e 162 policiais do Batalhão de Trânsito.
Severidade é a palavra de ordem para que a tarefa de frear as infrações de trânsito seja posta em prática em Belo Horizonte - Foto: (Fotos: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
Para o consultor em transporte e trânsito Osias Batista, o aumento no quadro de pessoal é questão urgente, já que a presença do agente de trânsito inibe a ação dos infratoresEle comenta que os cerca de 800 fiscais estão muito distantes dos aproximadamente 1,2 mil agentes fiscalizadores da década de 1990, quando a cidade tinha cerca de 400 mil veículosProblema mais grave ainda, segundo ele, é que metade do efetivo não tem como multar e, por isso, não teria autoridadeTanto Batista, quantdo Gouvêa aprovam o retorno do poder de multa aos mais de 400 agentes da empresa que gerencia o trânsito na capital.

“São eles que entendem de operação de trânsitoFormaram-se para isso, mas estão nas ruas com conhecimento e sem autoridade para cobrar o cumprimento das regras”, opina BatistaEle não descarta, no entanto, que a presença do agente contribui para orientar o trânsito, especialmente para evitar fechamento de cruzamento e congestionamentos.

Os números indicam o tamanho da falta de educação no trânsito da cidade, onde as infrações de trânsito não param de crescerEntre 2010 e 2011, o salto foi de 7,4%, quando as multas aplicadas passaram de 963.799 autuações para 1.035.661 multasEste ano, até agosto, houve aumento de 52% em relação a 2011: as infrações pularam para 1.576.769
As estatísticas também mostram as consequências dos abusos nas vias da capitalEmbora o número seja menor que em 2010, no ano passado, 217 pessoas perderam a vida e 16.294 ficaram feridas em 20.110 acidentes ocorridos na cidadeNo ano anterior foram 262 mortos, 16.822 pessoas feridas e 20.875 acidentes.

Câmeras Receita para diminuir esses números seria, na avaliação de Batista, investir pesado em sistemas de monitoramento e fiscalização eletrônica, com mais radares e câmeras, sendo que estas inclusive pudessem auxiliar na aplicação de multas“O órgão público não pode ter vergonha de ser severo e deve usar de todos os recursos disponíveis para coibir irregularidades”, cobra.
Show de irregularidades: no Centro de BH, motoristas param em local proibido e em fila dupla; na Getúlio Vargas, fecham cruzamentos frequentemente - Foto: (Fotos: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
Especialistas acreditam ainda que a cidade precisa passar por uma reestruturação de transporte e sinalização que possa privilegiar o pedestre, considerado por eles vítima do trânsito, que dá preferência aos carros“É preciso priorizar os deslocamentos com modos não motorizados, que são aqueles feitos a pé e com bicicleta”Ele afirma que as calçadas devem ser tratadas dentro de uma política permanente de requalificação proposta pela prefeitura e que nos cruzamentos e travessias semáforos para pedestres devem estar instalados e as faixas em boas condições de visibilidadeAo mesmo tempo, o transporte de massa, como metrô, deve ser melhorado“O motorista reclama que o pedestre atravessa fora da faixa, mas a cidade não está preparada para eleOs tempos semafóricos são longos para carros e exíguos para quem está a péPor outro lado, condutores não respeitam as travessias na faixa”, alerta Gouvêa, referindo-se à cultura do automóvel que prevalece na cidade.