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Estado de Minas NOIVAS À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

É cada vez mais difícil conseguir data para se casar nas igrejas mais tradicionais de BH

Obras de reforma da Boa Viagem e da São José ajudaram a complicar a situação


postado em 22/09/2012 06:00 / atualizado em 22/09/2012 06:59

A médica Ana Clara Ribeiro vai se casar no começo do próximo ano. Ela não conseguiu vaga nas igrejas de Lourdes, Boa Viagem, e Sao José(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
A médica Ana Clara Ribeiro vai se casar no começo do próximo ano. Ela não conseguiu vaga nas igrejas de Lourdes, Boa Viagem, e Sao José (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


Altar enfeitado, bancos lotados, marcha nupcial, ele emocionado e ela toda de branco, ambos ansiosos para dizer sim à vida a dois. Esse é o sonho de quem quer se casar na Igreja, e que virou pesadelo em Belo Horizonte. Não bastasse a dificuldade de encontrar uma cara-metade, a corrida por uma data nas paróquias mais tradicionais da cidade se acirra com as obras de reforma da Catedral de Nossa Senhora da Boa Viagem e da Igreja São José, no Centro. Duas das sete igrejas mais requisitadas por noivos em BH não abriram agenda para casamentos em 2013 e aumentaram a disputa por um horário em outros templos. Nas paróquias campeãs em procura, só há vaga para 2014, caso quem vá se casar não queira celebrar a união durante a semana ou na manhã de sábado.

Em Lourdes, a preferida entre as noivas, só restam vagas em 2013 para cerimônias às quintas-feiras e aos sábados pela manhã, e, para 2014 a situação da basílica não está definida. O conselho paroquial se reunirá no fim do ano para decidir se o templo passará por obras e ganhará nova pintura, o que pode complicar ainda mais a vida dos noivos, ansiosos com o fechamento da Igreja São José e a Catedral da Boa Viagem para casamentos no ano que vem e, quem sabe, em 2014. Nas galerias laterais, os andaimes já fazem parte do cenário da São José, em revitalização desde 2011.


A partir de fevereiro, as estruturas serão montadas no altar e na nave central. “Os restauradores fizeram uma projeção de como os andaimes ficarão e mostramos as fotos para os noivos. São 14 colunas de andaimes e não fica bacana para casamento”, afirma o pároco da igreja, padre José do Carmo Zambom. Esta é a primeira vez em 100 anos que a São José, onde é celebrada uma média de quatro casamentos por semana, está sendo restaurada, num investimento total de R$ 2 milhões. A previsão é concluir as obras no Natal de 2013, e até lá, casais estão sendo orientados a procurar outras paróquias.


Mas quem bate à porta da Catedral da Boa Viagem, onde cerca de 280 casamentos são celebrados ao ano, recebe a mesma recomendação. A revitalização está marcada para começar em fevereiro, apesar de a Igreja não ter conseguido ainda captar os recursos de R$ 4 milhões necessários para as obras, a maior desde a inauguração do prédio atual, em 1932. Por precaução, a agenda de casamentos está fechada para celebrações em 2013 e 2014. “Sabemos que casar na Igreja da Boa Viagem é um sonho relacionado às histórias das famílias. Porém, não queremos marcar cerimônias e depois prejudicar os noivos”, afirma o solidário pároco da catedral, Marcelo Carlos da Silva. Segundo ele, a restauração vai melhorar as condições da igreja e permitir que ela tenha mais segurança.


 “E ela ficará muito mais bonita para os casamentos e celebrações diversas”, ressalta o pároco. As palavras de otimismo consolam, mas não resolvem o problema enfrentado pelos noivos para marcar casamento nas igrejas mais tradicionais da capital mineira, geralmente situadas na Região Central. Os médicos Ana Clara Ribeiro, de 26 anos, e Eduardo Réche, de 33, ficaram noivos em março e, depois de negativas em Lourdes, Boa Viagem e São José, até pensaram em adiar o casamento. “Entrei em desespero, comecei a olhar alternativas e consegui no São Bento”, conta Ana Clara, mais aliviada. “Fiquei sabendo até de noivas que reservaram data sem ter o noivo ainda por causa desse problema. Acho que virou uma compulsão”, diz.


Plano B

Diante da falta de vagas, a analista de projetos Nayara Montandon, de 30, e o administrador Rafael Muradas, de 28, noivos desde junho, precisaram de um plano B para conseguir realizar o desejo de se casar num sábado, em setembro de 2013, e decidiram transferir a cerimônia para Tiradentes, no Campos das Vertentes. Nayara conta que na semana seguinte ao noivado, deu início à saga frustrada em busca de uma data nas igrejas em BH. “Liguei para Lourdes, Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola, São Bento, e nenhuma tinha vaga, só em sábado de feriado. Na São José e na Boa Viagem, me disseram que estariam em obras”, lembra, sem qualquer saudade do período de angústia.

Certamente, quando a marcha nupcial começar a tocar na Matriz de Santo Antônio, e Rafael estiver lá à espera de Nayara, a moça sentirá um misto de realização e alívio. “Essa dificuldade para encontrar igreja, que, para mim, é o mais importante do casamento, me deu um certo desespero e uma raiva. Comecei a questionar como a pessoa quer casar e não tem igreja.”, diz Nayara, muito animada com os preparativos, embora tenha precisado antecipar a celebração para agosto. “Paramos para pensar e percebemos que temos uma história especial com Tiradentes: a família do Rafa é de São João del-Rei, o pedido do noivado foi lá. E acho que vai ter muita gente casando fora de BH porque não encontrou vaga”, afirma.

Diocese tranquiliza os noivos

Com 153 paróquias apenas na capital mineira, a Arquidiocese de Belo Horizonte tranquiliza os noivos e garante que eles não ficarão sem se unir pelos laços do matrimônio por falta de igreja. Pároco solidário da Catedral de Nossa Senhora da Boa Viagem, Marcelo Carlos da Silva ressalta que, embora a procura fique restrita a um pequeno grupo, há muitas paróquias que celebram casamentos. “O essencial nessa procura não é o templo, mas o sacramento. Não ignoramos a importância do sonho de se casar numa igreja específica, mas é importante realçar a qualidade da celebração, o contato com a palavra de Deus, a vida junto a uma determinada comunidade religiosa”, afirma.


Pároco da Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Correia, no Santo Agostinho, na Região Centro-Sul,  frei Agenor Chiarenelli ressalta que casais deveriam procurar celebrar o sacramento do matrimônio nas paróquias de seu bairro. “O que pastoralmente seria correto era que casais casassem em sua paróquia. Se ele procura a igreja, subentende-se que frequenta a comunidade. O problema é que a maioria das pessoas não frequenta igreja nenhuma”, afirma.

Para evitar que o matrimônio seja apenas uma lembrança no álbum do casamento, o pároco da Igreja de Santo Inácio de Loyola, padre Fernando Lopes Gomes, estimula os noivos a frequentar a paróquia, promovendo também encontros de casais. A Arquidiocese de BH cobra uma taxa de R$ 600 de casais interessados em firmar o matrimônio na Igreja Católica. A contribuição é paga diretamente a cada paróquia e é revertida para a manutenção e trabalhos sociais de cada instituição religiosa.

 

 

Mineiro gosta de casamento
A falta de espaços para se casar com as bênçãos da Igreja Católica ocorre justamente no estado onde a procura pelo casamento civil e religioso é maior. Divulgada ontem, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2011, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que Minas Gerais é o estado com o maior percentual de casamentos civis e religiosos. Uniões de papel passado e na Igreja correspondem a 58,5% do total em Minas, frente ao percentual de 43,2% no país. Dados da Arquidiocese de Belo Horizonte mostram crescimento de 4,4% nos casamentos em 2010, em comparação com o ano anterior, passando de 7.243 celebrações para 7.566 – diferença suficiente para lotar a agenda da Basílica Nossa Senhora de Lourdes, no bairro de mesmo nome, na Região Centro-Sul.


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