O símbolo do Caraça está doentePersonagem mais querido dos turistas que vão ao santuário localizado em Catas Altas, na Região Central do estado, e um visitante noturno do adro da igreja neogótica, onde come, numa bandeja, carne servida pelos padres, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) tem uma ferida, no lado direito do pescoço, que não cicatriza“É um tumor do tamanho de uma bola de pingue-pongueSe não for tratado, ele pode morrer”, alerta o médico-veterinário Jean Cristo Teixeira Ciarallo, que, de forma voluntária, vem tentando capturar o animal para fazer exames e os procedimentos necessáriosMesmo com armadilhas e estratégias montadas, o lobo doente é o único da região que a equipe de Jean e do santuário ainda não conseguiram pegar“Já capturamos e soltamos oito, mas nenhum tinha a feridaContinuamos nosso objetivo”, afirma o veterinário, residente em Conselheiro Lafaiete.
No início do ano, ao passar uns dias na pousada do santuário, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, e presenciar o lobo recebendo a carne, Jean notou o machucado“Vi a ferida vermelha no pescoço e me preocupeiFiquei sabendo, então, que o animal estava desaparecido desde setembro de 2011 e havia reaparecido em janeiroPensavam até que ele tivesse morrido devido ao ferimentoMe ofereci, então, como voluntário para cuidar e notei, com o tempo, que o tumor só aumentava.”
Desde então, Jean, dono de uma clínica veterinária na sua cidade, especializada também em cirurgias, tem visitado constantemente o Caraça na esperança de capturar o canídeo
Embora tenha entre os seus equipamentos um dardo com tranquilizante, o veterinário explica que a prática com zarabatana não resolverá o problema, pois o remédio só faz efeito de 10 a 15 minutos depois de injetadoE o lobo só aparece entre as 20h30 e as 22h, ressaltaDessa forma, corre-se o risco de o animal fugir, cair no meio do mato e não ser encontrado de noiteNa visualização, o veterinário constatou que tumor é de caráter benigno, embora seja preciso fazer a cirurgia para salvar o animalUma nova incursão para tentar pegar o lobo está marcada para o fim de semana prolongado de 7 de setembro“Ficaremos lá por um período de cinco dias”, adianta.
Dócil
A prática de alimentar o lobo-guará na porta do Santuário do Caraça, onde fica a primeira igreja neogótica do país, começou há 30 anosNesse período, visitantes brasileiros e estrangeiros, além de muitas autoridades, como o então governador de Minas, Itamar Franco (1930–2011), admiraram a cena curiosa e peculiarNum flagrante de 2002, Itamar está entre assessores observando um dos simpáticos lobos-guarás
A presença, na porta do Caraça, do lobo-guará, maior canídeo da América do Sul e típico do cerrado brasileiro, fomentou trabalhos científicos e fortaleceu ações de educação ambiental, afirma Aline“Ele um lobo bom, e não um lobo mauÉ dócil”, diz a bióloga, Por falta de informações, muitos foram mortos e a espécie entrou na lista dos animais ameaçados de extinção
Aproximação paciente
O lobo-guará é encontrado do Sul da Amazônia ao Uruguai, excetuando-se o litoral, picos de altitude e a mata atlânticaÉ canídeo por ser família do cachorro, do cachorro-do-mato, do coiote, do chacal, da raposa e do lobo europeu, norte-americano e canadense, o Canis lupusE é o maior canídeo da América do Sul, porque a fêmea mede 90cm e o macho 95cm, aproximadamente – e da ponta do focinho até a ponta do rabo, 1,45mAs patas são altas para facilitar o movimento nos campos, já que é um animal do cerrado.
Os pesquisadores dizem que o Chrysocyon brachyurus não é animal das matas fechadas, mas um espécie campestre, que anda em estradas e trilhas e onde há campos com baixa vegetaçãoNo Caraça, quem se dirigir ao Banho do Belchior, Pinheiros, Tanque Grande, Prainha, Cascatinha e Bocaina poderá ver com muita facilidade as pegadas do lobo-guaráEle tem quatro dedos, sendo que os dois do meio são um pouco mais juntos, almofadado e com garras.
Estima-se que a espécie viva 16 anos, pese em média 25kg e ande 30 quilômetros por noite nas suas caçadasTrata-se de um animal de hábitos noturnos, mais ágil ao entardecer e ao amanhecerDurante o dia, fica descansando sobre a relva, deitando-se cada dia em um lugar, jamais em tocasO Chrysocyon brachyurus é onívoro, ou seja, come de tudo (pequenos animais e aves)“Ele continua caçando, independentemente da comida que nós oferecemos a eleEssa comida não o deixa dependente dos padresDos pequenos animais, ele come rato, gambá, coelho, coelho-do-mato, preá, cobra, sapo; das aves, jacu, saracura e outrasPor sinal, precisa dos pelos dos animais e das penas das aves para facilitar os movimentos peristálticos, da digestão”, informa a coordenadora Ambiental da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça, bióloga Aline Cristine Lopes de AbreuA área tem 11,2 mil hectaresO lobo-guará come também frutas, como a fruta-do-lobo ou lobeira, pêssego, maracujá, goiaba etcAlém disso, é atraído por cheiros fortes, como o de frutas e comida apodrecendo, motivo pelo qual costuma revirar as lixeiras.
Solitário
O lobo-guará não vive em alcateiaTambém não uiva, lateTerritorialista, demarca a área com urinaO acasalamento ocorre em abril e maioOs pesquisadores sabem disso, porque ele ac ontece quando o macho e a fêmea começam a andar juntosA gestação dura de 62 a 65 diasOs filhotes, de um a três, nascem cinza-escuros e são colocados em buracos, às vezes, de cupinzeiros, para ficar mais protegidosPor dois a três meses, são alimentados pelos pais, que regurgitam o que comem para elesDepois começam a fazer pequenas caminhadas com a fêmea, até que, no quinto e sexto mês, começam a caçarNo Caraça, passam a subir as escadas da igrejaUma fêmea, diz Aline, já foi vista empurrando com o focinho um filhote de degrau em degrau.
A aparição de lobos-guarás no Caraça começou em maio de 1982, quando algumas lixeiras começaram a aparecer reviradas e derrubadasO irmão Thomaz falou ao padre Tobias, superior na época, que devia ser cachorroPadre Tobias achou muito difícil, porque cachorro não subiria a serra com tanta frequênciaComeçaram a observar e descobriram que o responsável erao Chrysocyon brachyurus“Aí começaram a colocar uma bandeja de carne em cada portão e elas amanheciam mexidasForam aproximando as bandejas da escada da igreja e, por algum tempo, os lobos foram alimentados lá embaixoAté que resolveram subir com a bandejaA bandeja subiu, o padre subiu, o lobo subiu!”, conclui a bióloga.