O que têm em comum a professora Simone Hanke, de 35 anos, moradora do Bairro Estoril, na Região Oeste de Belo Horizonte, e o catador Claudinei Custódio Santos, de 42, que trabalha diariamente em um dos galpões da associação dos catadores Asmare, também na capital? Ambos enfrentam a ineficiência do poder público e a falta de condições de a cidade reciclar o lixo produzido por seus moradoresDo montante ínfimo de 30 toneladas diárias de resíduos sólidos enviadas para a reciclagem, que representa menos de 1% do total de 3,5 mil t de lixo produzidas por dia em BH, cerca de 30% viram rejeito nos galpões de reciclagem e vão direto para o lixo comum.
A constatação vem de levantamento feito pelo Estado de Minas nas sete cooperativas que trabalham com reciclagem na capital e que, além de doações, recebem resíduos da coleta seletiva da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU)Não bastasse o baixo alcance do serviço na capital mineira, onde apenas 30 dos 324 bairros são atendidos pela coleta porta a porta, o gargalo da reciclagem é reforçado pela falta de consciência da população e pela dificuldade de comercializar materiais que, apesar de recicláveis, acabam parando no aterro sanitário.
Mas o problema não acabou por aí: “Como vi que o caminhão da coleta seletiva não passaria, entrei em contato com catadores, mas eles também não apareceram”A professora, que é bióloga e pós-graduada em resíduos sólidos, não perde a esperança de os vizinhos aderirem integralmente à causa e, principalmente, de terem o lixo reciclável recolhido: “Ainda tenho esperança de o caminhão passar”
Na outra ponta da reciclagem, o catador Claudinei lida com uma situação ainda pior
“Infelizmente, tem muito papel higiênico e comida junto do material reciclávelIsso atrai roedores, contamina o que pode ir para a reciclagem, ocupa o galpão e o catador ainda perde tempoO mercado da reciclagem também é muito difícil ainda”, afirma Fernando Godoy, um dos administradores e associados da Asmare, a maior cooperativa de Minas, onde a taxa de rejeito chega a 40%.
Com tanta sujeira, profissionais da reciclagem acabam expostos a riscos“Direto tiro absorvente usado do saco de recicláveis”, conta Claudinei, que nem se importa mais com o papel higiênico“A gente se acostuma.” Enquanto o irmão dele, Claudecy Custódio Santos, de 35, descarrega carrinho lotado de sacos de rejeitos, Claudinei faz o apelo: “Se a população ajudasse, ficaria mais fácil para a gente.” A realidade é comum nas demais cooperativas“Muitos não se importam de fato com que o que jogam dentro do lixo reciclável e acham que estão contribuindo simplesmente por mandar materialJá recebemos sondas de hospital, uma caixa de pizza cheia de seringas, muita fralda”, conta a administradora da Cooperativa Solidária dos Recicladores e Grupos Produtivos de Venda Nova.
Mas caminhões que saem dos galpões das cooperativas direto para o aterro sanitário Macaúbas, em Sabará, para onde é levado o lixo comum de BH, carregam também fardos de isopor, embalagens de biscoito, vasilhas de marmitex, copos de liquidificador e até vidroEmbora sejam recicláveis, esses produtos não encontram mercado na capital mineira e, por vezes, lotam galpões já saturados à espera de compradores