Enquanto oito flanelinhas se desdobram para lavar e vigiar 60 automóveis parados em dois quarteirões da via, Toninho, o patrão deles, fica sentado numa espreguiçadeira ou dentro do carro, um Palio com película escura nos vidros e tela reflexiva no para-brisaA cada negócio fechado, seja vigiar um veículo em troca de moedas ou de uma nota de R$ 2, seja lavar um carro por dentro e por fora por R$ 25, os “meninos” vão até o chefe prestar contasDois terços do lucro ficam com ele, o que lhe permitiu instalar um hidrômetro e até um ponto de energia elétrica para ligar sua televisão em plena ruaToninho não se mostra preocupado com a fiscalização e continua a recrutar pessoas para cuidar dos carros, administrando tudo sem pegar no pesado.
O EM apurou com a PBH e com moradores mais antigos da região que Toninho começou no quarteirão de baixo, entre as ruas Ceará e Bernardo MonteiroEm pouco tempo, como era o único registrado no trecho, angariou clientes e estabeleceu os terceirizados para lavar e guardar automóveisEm seguida, se descadastrou oficialmente do ponto onde a clientela estava garantida, deixando lá os flanelinhas que arregimentou e que já tinham de freguesia cativaEntão se registrou no quarteirão seguinte, entre as ruas Piauí e Ceará, ampliando a área de influência e estabelecendo seus domínios atuais.
O primeiro encontro do “imperador” da Rua Timbiras com a reportagem ocorreu quando ele estava confortavelmente instalado no seu carro, ouvindo músicaO veículo é recheado de bugigangas e as chaves de dezenas de carros de clientes abarrotam o porta-luvasDiante da pergunta da reportagem, que pretendia ajudar a lavar os carros, o homem magro, de fala mansa e bem articulado diz que por enquanto está com o quadro de lavadores completo
Quando a reportagem cita os nomes de outros flanelinhas da área, que o teriam indicado, Toninho abre um pouco mais o jogo e conta que mesmo dispondo de tantos “funcionários” precisa marcar presença“Tenho de vir aqui, porque se não vier trabalhar eles (os flanelinhas que terceirizou) não vão trabalharSe não tiver um carro para eles lavarem, não vamos ganhar”, afirma.
Nos dias seguintes, Toninho contou um pouco mais da sua história e de como controla os quarteirões da Rua Timbiras“Tem oito anos que estou aquiPus água, pus luz, tudo direitinhoTenho 60 carros aquiAntes o povo não deixava a chave
No último dia, um dos lavadores chega para o patrão e mostra um pequeno pote de creme facial que roubou de um dos veículos da clientelaO flanelinha oferece para o chefe, que pega o creme e o analisaO rapaz pede para abater o produto de sua dívida com Toninho, revelando que os veículos que ficam nas mãos dos lavadores não estão tão seguros quanto se imagina.
“Desconta aí R$ 3, R$ 4 do último negócio lá (carro lavado)”, pede o flanelinha ao chefeO patrão responde evasivamente, enquanto tenta estimar o valor do item“Tô meio caidão também”, diz Toninho, ganhando tempo e catimbando a negociação“Você não dá moral para mimE eu dô a moral para você”, insiste o rapaz“Que dar moral para você! Tô querendo ver se dou esse negócio para minha esposa, mas nem sei se vale alguma coisa mesmo, ué”, justifica, em meio a uma negociação que só seria decidida à noite“Olha aquiÉ negócio de passar em pele, sôDou para minha mulher ou vendo por R$ 5, que fico na mesma”, diz Toninho à reportagem.