Jornal Estado de Minas

Veja como agem os flanelinhas que comandam esquemas ilegais em Belo Horizonte

Flanelinhas licenciados pela PBH não respeitam as normas do credenciamento, invadem espaço de outros e comandam esquemas ilegais que chegam a render R$ 6 mil por mês

Mateus Parreiras
"Nesse momento aí tem os meninos já trabalhando para mim. Eles ganham um pouco, eu ganho um pouco." - Toninho, lavador de carros que domina dois quarteirões da Rua Timbiras, onde contrata flanelinhas sem registro. - Foto: Leandro Couri/EM/D.A Press


Como um rei em seu trono, Toninho passa o dia estirado na espreguiçadeira que montou à sombra de uma árvore, entre duas vagas na Rua TimbirasÀ vontade no escritório erguido na via pública, ele só assiste às Olimpíadas numa TV apoiada em baldesEnquanto isso, oito flanelinhas limpam e tomam conta para ele de 60 veículos em dois quarteirões do Bairro Funcionários, Região Centro-Sul de Belo Horizonte“Eles ganham um pouco, eu ganho um poucoGosto de dar uma ajuda para todo mundo”, dizO lucro chega a R$ 6 mil por mês, sendo que R$ 4 mil vão parar no bolso dele sem qualquer esforçoO cadastro que ele fez na PBH garantiu exclusividade sobre um dos quarteirões e ele o terceirizou, numa manobra ilegal para não precisar pegar mais num pano ou baldeCasos como o do “imperador” da Rua Timbiras se multiplicam pela cidade, como mostra o Estado de Minas, que cadastrou um repórter como lavador na prefeitura e relata como funciona o esquema irregularEm vez de coibir abusos, organizar lavadores e guardadores de carros, o registro municipal foi distorcido e o espaço público privatizado.

Em quatro dias de atuação como lavador de carros, a reportagem foi pressionada pelos “reis” que dominam os quarteirões mais lucrativos da capitalCada pessoa que se cadastra recebe exclusividade para trabalhar no quarteirão escolhido e não pode atuar em outroCom um simples registro a PBH concedeu à reportagem a exploração da Rua Rio Grande do Norte, entre a Rua dos Aimorés e a Avenida Afonso Pena
Para outra pessoa lavar e vigiar carros ali , seriam necessários autorização da reportagem e o cadastramento desse candidato na prefeituraContudo, diariamente flanelinhas de outros quarteirões invadiam o território demarcado para a reportagem.

Funcionários de órgãos públicos têm vagas garantidas pelas manobras dos flanelinhasPagam esse favorecimento com dinheiro e lavando seus carros fielmente com essas pessoasAlém de reduzir a oferta igualitária de estacionamentos públicos, os fregueses influentes são coniventes com o loteamento irregularUm servidor do Tribunal de Justiça da Polícia Militar chegou a mandar um policial da guarda do edifício pressionar a reportagem para que entrasse num acordo com a flanelinha de outro quarteirãoAssim, os clientes que trabalham no tribunal continuariam a usar as vagas e lavar os carros na Rua Rio Grande do Norte, com a pessoa registrada em outro local.

Coniventes, os motoristas aproveitam para se beneficiar das atitudes irregulares dos flanelinhasNo entanto, a sensação de que o favorecimento aos clientes traz segurança é falsaNa Rua Tabaiares, na Floresta, Região Leste de BH, onde há apenas um lavador registrado, trabalham seis pessoas limpando veículos e manobrando carros em vagas, garagens e filas duplasNa quarta-feira a Polícia Militar e a BHTrans multaram pelo menos cinco automóveis deixados em fila dupla, sem que os flanelinhas pudessem fazer nadaNa Rua Timbiras, a reportagem viu um dos “meninos” de Toninho retirar de dentro de um dos veículos que lavava um creme facial que encontrou entre os bancos e queria vender para o chefe por R$ 4.

Sem controle

A prefeitura admite não ter como impedir que um lavador de carros se apodere de vários quarteirões, terceirize seu trabalho e viva da exploração ilegal da via pública
“Os fiscais enfrentam dificuldades na abordagemÉ comum aqueles que atuam irregularmente evadirem ao avistarem os fiscais ou mesmo se negarem a apresentar documentação, tornando impossível lavrar o documento fiscal”, justificou por nota a Secretaria de Administração Regional BarreiroA região administrada pela secretaria padece de problema comum às regionais Norte, Oeste e Venda Nova, onde nenhum lavador ou guardador de carros se cadastrou mas a atividade irregular prolifera pelas ruas.

A região mais cobiçada da cidade é a Centro-Sul, que tem 1.080 lavadores e guardadores de veículos cadastrados na PBHA prefeitura, no entanto, não sabe dizer quantas vias eles ocupam atualmenteA reportagem localizou o loteamento dos principais espaços públicos da região, em pelo menos 14 áreasNesses locais foram encontrados 105 pessoas limpando e vigiando veículos.

O professor de direito da Fumec Rodrigo Pereira Ribeiro de Oliveira, indicado pela Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB-MG) para analisar o assunto, considera que as ilegalidades comprovadas pela reportagem mostram a falência do modelo criado pela PBH para tentar regulamentar o trabalho dos guardadores de carros“Na prática, a legalização de guardadores e lavadores foi algo para disciplinar uma situação que existia, mas que deveria, gradativamente, ser extintaCom as coisas fora com controle, com denúncias e sem fiscalização intensa, não vejo como esse modelo possa continuar funcionando”, diz o jurista.