Jornal Estado de Minas

MOBILIZAÇÃO NACIONAL

Mulheres protestam por melhores condições nos partos em Belo Horizonte

Mulheres pintam caras e barrigas e fazem protesto na Praça da Liberdade pelo nascimento humanizado dos filhos. Elas querem mais assistência e cuidados na hora de dar à luz

Thaís Pacheco

Quando estava prestes a dar à luz a primeira filha, em 2007, Pollyana Ferreira acreditava que a primogênita nasceria de parto natural

Na última semana da gravidez, o médico avisou que a criança teria de nascer de uma cesárea“Ele alegou que minha filha poderia entrar em sofrimento fetal se a gente esperasse mais, então fiz a cesariana”, lembra PollyanaApós sete meses, começou a se questionar se era mesmo necessário“Senti um incômodo por algumas questões que não sabiaMinha filha nasceu e não veio para o meu colo, não tivemos contato pele a pele, como recomendado pela Organização Mundial de SaúdeNão fui a primeira pessoa que viu e ela passou por aspiração, que é muito incômodo para o bebê, para só depois vir ao meu colo”, lembra a mãe.

Essa é uma das histórias que levaram pouco mais de 100 mulheres e homens a marchar, ontem de manhã, pela humanização do parto, na Praça da LiberdadeA Marcha pela Humanização do Parto ocorreu também em várias capitais, como São Luís, Recife, São Paulo, Florianópolis e PalmasO objetivo é reivindicar melhores condições na assistência ao parto e nascimento para todas as mulheres e bebês.

Um dos participantes foi o obstetra Hemmerson Magioni, de BH, que atua como humanista“Hoje, o Brasil é um dos países campeões mundiais em cesarianaTento caminhar por uma linha de mais respeito e informação para a mulher e o casal
Um cuidado durante toda a gravidez para elevar as taxas de parto normal, com menos intervençõesÉ o que a medicina comprova ser o melhor caminho para o nascimento”, diz Hemmerson, que é fundador do Núcleo Bem Nascer, que oferece à grávida apoio de obstetras, nutricionistas, psicólogos e vários outros profissionais para acompanhar o pré-natal e dar apoio com as informações necessárias“O verdadeiro sentido de parto humanizado é aquele centrado na mulher, no desejo e vivência delaEla pode querer parto em casa, sem anestesia, como fez a Gisele Bündchen; na maternidade, tomando anestesia; ou por meio de cesariana porque foi necessárioO que não pode acontecer é padronização”, afirma Hemmerson.

Conceito
O médico gostou do que viu na marcha, mas acha válido fazer um aviso“Foi muito lindo e bacana assistir a tudo o que aconteceu com mães, mulheres grávidas e outras nãoE não adianta esperar o médicoA sociedade tem de se mobilizar, assim como as mulheres se mobilizaram no entendimento do aleitamento materno nos anos 80A informação da mulher transforma conceitos”, diz Hemmerson.

Kalu Brum, jornalista, fotógrafa e doula, foi uma das mulheres que ajudou a organizar o eventoAo fim da marcha, que deu a volta na Praça da Liberdade com cartazes, barrigas pintadas e palavras de ordem, realizou uma performance com outras duas pessoas
Elas surgiram amarradas e amordaçadas“Simbolizando que a mulher não tem direito de falar para escolher, muitas ficam amarradas durante a cesárea ou têm as pernas amarradas no parto normal”, afirma Kalu.

Durante a performance, elas convocavam as mulheres a responder “não quero não”Entre elas, a episiotomia, que Kalu luta contra“É um corte no períneo, realizado em 90% dos partos normaisÉ considerado uma mutilação vaginal e proibido em vários paísesNo Brasil é normal”, contesta Kalu.

Marcha realizada, informação divulgada, agora elas continuam na luta“Chamamos a atenção de quem passou e distribuímos folhetosA expectativa é que as mulheres passem a prestar atenção nesse processo, que é tão importante para a vida”, conclui Pollyana FerreiraAnalista de sistemas, ela também é doula e integrante do grupo Ishtar, que se define grupo de apoio à gestante e ao parto ativo – pelo respeito ao tempo de gestar, parir e amamentar.