Jornal Estado de Minas

Afronta em dose dupla

Vagas de motos estão nas mãos de flanelinhas ilegais

Frota de motos em disparada e conivência da fiscalização criam outra categoria de exploradores do espaço público. Eles dominam quarteirões e infringem a lei também ao parar motocicletas em filas sucessivas, criando labirintos que tornam impossível dispensar seus serviços

Valquiria Lopes

Flagrante de omissão: reboque da BHTrans remove carro na Rua Tamoios sem se incomodar com motos paradas de forma que desrespeita o Código de Trânsito - Foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press

A multiplicação da frota de motos pelas ruas de Belo Horizonte, onde mais de 180 mil desses veículos trafegam diariamente, somada à dificuldade de controlar a ação de guardadores ilegais de veículos, criou uma nova ocupação na cidade: os flanelinhas de motocicletasAtuando livremente em quarteirões do hipercentro, os irregulares se misturam aos trabalhadores que têm a licença de lavadores e guardadores de veículos expedida pelo município e pelo Ministério do TrabalhoE se apropriam do espaço público sem permissão nenhuma “Donos” dos pontos, arrastam as motos de um lugar para outro e, sem fiscalização, até criaram um “jeitinho” de lucrar maisEm várias quadras, algumas a poucos metros da sede da Prefeiturade BH, as motos são estacionadas em filas duplasNesse caso, tanto os guardadores irregulares quanto os ilegais admitem: sabem que estão infringindo a lei“Fazemos isso porque faltam vagas no Centro e essa é uma forma de ganhar um pouco mais”, diz um deles

A atuação dos flanelinhas de moto foi conferida pela reportagem do Estado de Minas em quatro pontos da região central: em dois trechos da Rua Goitacazes, na Rua Tamoios e na Avenida AmazonasEm três deles, o estacionamento ocorria de forma irregular, em fila duplaAlém de infração, a prática configura uma forma de os donos da rua obrigarem os motociclistas a aceitar seus serviçosCom os veículos parados em filas paralelas, uns fecham a saída de outros

Sem os guardadores para “ajudar” a sair das vagas e da dificuldade que eles mesmos criam, é impossível usar o espaço.

Em um dos pontos, na Rua Goitacazes, a flanela nas mãos de José Rodrigues de Brito, de 44 anos, dá a indicação da atividade que exerce no quarteirão entre as ruas Rio de Janeiro e Espírito Santo“Trabalhava de faxineiro em um prédio aqui perto e depois que saí de lá vi que não tinha ninguém tomando conta das motos aquiComecei a guardar as motos e as pessoas foram gostando, porque sabem que podem deixar e sair tranquilas”, argumentaQuanto à autorização, ele admite que não tem carteira de lavador e guardador de veículos, mas alega que precisa do trabalho e que já deu entrada no processo, com o qual pretende garantir um ganho que diz ser de cerca de R$ 80 por dia, com gorjetas e serviço de lavagem de moto.

O guardador diz que, quando passou a atuar no local, o sistema de fila dupla já estava implantado“As pessoas sabem que não podeDe vez em quando a polícia multa, mas é muito raro Reboque mesmo nunca teve”, disseDe acordo com BHTrans, o sistema de fila dupla para motocicletas é proibidoPelo Código de Trânsito Brasileiro, o estacionamento das motos deve ser feito em posição perpendicular ao meio-fio e junto a ele, salvo quando houver sinalização que determine outra condição

Apesar da informação, na tarde de ontem um reboque a serviço da mesma BHTrans removia um carro estacionado irregularmente no quarteirão fechado da Rua Tamoios, entre Rua Curitiba e Avenida Paraná, sem se incomodar com as filas duplas de motos logo em frente, do outro lado da via
Os guardadores chegaram a ficar alvoroçados com a presença da “fiscalização”, mas logo descobriram que não seriam incomodados.

Esquecidos

Diante do desempenho da fiscalização, em pleno coração da cidade, na Avenida Amazonas, próximo à Praça Sete, guardadores de carro também se aventuram a trabalhar sem autorização no bolsoCaso de Alexandre Rosa dos Santos, de 31, que disse ter esquecido a carteira no bolso de uma roupa que foi para a máquina de lavar“Isso foi há quatro diasAgora vou esperar vencer o prazo de renovação, que é em dezembro, para tirar outraFaltam poucos meses e o fiscal já me conhece e sabe que eu tenho a carteiraAí não tem problema”, alegaEle conta que hoje é mais difícil trabalhar sem o documento, mas dos 10 anos de atuação na Avenida Amazonas, três passou na irregularidade

O colega de quarteirão, Júlio César Torres, de 28, também passa o dia no vai e vem de motos na AmazonasDiz já ter se acostumado com a confusão do trânsito e o movimento das cerca de 1,8 mil motocicletas que param diariamente no trecho onde trabalha há seis anosA autorização para a atividade, no entanto, diz estar guardada em casa“Esqueci de trazer Mas tenho a carteira, porque hoje não tem mais como trabalhar sem ela aqui no Centro”, alega.

Promessa

O gerente de Licenciamento e Fiscalização da Regional Centro-Sul, William Nogueira, admite obstáculos no trabalho de fiscalização dos flanelinhas, principalmente pela falta de padronização e identificação daqueles que são regularizados“Temos dificuldade, porque eles se misturam aos que têm a autorização para trabalharVamos melhorar isso em breve, com a distribuição de coletes para os 1.080 lavadores e guardadores de carros credenciados na Centro-Sul”, disse, sem adiantar o prazo para a entrega dos uniformes

A Polícia Militar informou ontem que tem conhecimento das infrações praticadas por motociclistas e flanelinhas que promovem o estacionamento em fila dupla na região centralSegundo a PM, a orientação aos militares é de multar e acionar a BHTrans para que os veículos sejam rebocados.