Jornal Estado de Minas

Explosão de bimotor despertou vizinhos e hóspedes de pousada

Acidente mobilizou policiais, bombeiros e militares da Aeronáutica

Valquiria Lopes Paula Sarapu Pedro Rocha Franco Celina Aquino Ana Clara Brant
Juiz de Fora – A manhã começou com um estrondo seguido de minutos de pânico e perplexidade para moradores da Rua Doutor Décio Guanabarino, no Bairro Aeroporto, em Juiz de Fora, via próxima ao local da queda do bimotor da empresa Vilma Alimentos, na cidade da Zona da Mata
A explosão da aeronave tirou muita gente da cama, nas primeiras horas do dia de ontemPor causa do choque com a rede elétrica, os moradores também ficaram sem luz e telefone grande parte do dia“Foi um susto enormeNa hora, eu estava no escritório e me abracei com um funcionário da pousada, porque o barulho foi muito forte e eu não sabia o que estava acontecendoEstou tremendo até agora”, contou a dona da Pousada Aconchego de Minas, Ana Marta Martori, horas depois da tragédiaA casa estava com 58 hóspedes e teve um quiosque à beira da piscina destruído pelo avião na quedaPor sorte, ninguém se feriu.

Apesar da proximidade do aeroporto, a empresária conta que nunca havia imaginado que uma tragédia dessas pudesse ocorrer“Em 1990, antes de montar a pousada, um acidente aéreo ocorreu na região, mas depois disso nada mais aconteceu”, lembrouO aposentado Heloísio Honório, de 70, também relatou susto que ele e a mulher levaram logo pela manhã“Foi um barulho assustador
Uma explosão violentaAs paredes de casa tremeram, mas a neblina lá fora era tão forte que não conseguíamos ver o fogo e a fumaça”, contouEle e família moram em frente ao local do acidente.

A localização dos corpos das vítimas e o exame dos destroços da aeronave levaram toda a manhãO terreno da granja onde o avião caiu, no Bairro Aeroporto, era de difícil acesso, próximo a um lugar de mata fechada, segundo o capitão do 27º Batalhão da Polícia Militar Rubens ValérioHavia destroços desde o terreno da pousada até o imóvel vizinhoEntre os pertences pessoais das vítimas, foram recolhidos sapatos, carteiras, dinheiro e celulares, além de documentos de voo que devem ser usados para a perícia“Não sobrou nada da aeronaveDois corpos foram retirados debaixo do motor”, afirmou o militarDe acordo com o delegado Cláudio Dornelas, da Polícia Federal, houve um princípio de incêndio na mata, que foi controladoA área foi isolada
Policiais federais, militares, civis e 20 bombeiros participaram do resgate dos corposMesmo com o cerco das autoridades, o local atraiu muitos curiosos.

HOMENAGEM Por meio de nota, a empresa Vilma Alimentos lamentou o falecimento de seu presidente, Domingos Costa, do filho dele, Gabriel Costa, do executivo Cézar Roberto de Pinho Tavares e dos funcionários que viajavam a trabalho para Juiz de Fora, além do piloto e copiloto da aeronaveA Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também prestou condolências pelo falecimento do empresário e se solidarizou com a família“Empresário de visão, marcou sua trajetória pela capacidade empreendedora que trouxe grandes benefícios à economia de Minas Gerais”, disse o presidente da entidade, Olavo Machado Junior.

O governador Antonio Anastasia, também por meio de nota, lamentou o acidente e transmitiu sua solidariedade às famílias das vítimasDestacou ainda a trajetória de sucesso de Domingos Costa, que transformou o grupo que dirigia em um dos mais importantes do paísNota de pesar partiu também do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, que se solidarizou com a dor dos parentes e amigos.

Familiares das vítimas e funcionários da empresa estiveram no Instituto Médico Legal de Juiz de Fora para ajudar na identificação dos corposNo fim da tarde de ontem, seis dos oito corpos haviam sido identificadosHoras depois, foram reconhecidas a gerente de Recursos Humanos, Adriana da Conceição Rocha Ezequiel Vilela, de 47 anos, e a gerente de Controladoria, Lídia Colares de Souza Lima, de 31, que estava grávida de dois mesesA previsão era que por volta das 22h todos seriam liberados para o traslado para Belo Horizonte.

Para hoje, está prevista a cremação dos corpos do presidente da empresa, Domingos Costa, e do filho dele, Gabriel Barreira CostaA cerimônia será no Cemitério Parque Renascer, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo HorizonteAté o início da noite de ontem, o local e horário para enterro ou cremação dos corpos das outras vítimas não haviam sido ainda divulgados pelas famílias.

Sucesso em família
Domingos Costa era presidente da Vilma Alimentos e conselheiro do Cruzeiro - Foto: Jair Amaral/EM/D.A Press
Ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a situação econômica europeia era caóticaDiante desse cenário, o italiano Domingos Costa e sua mulher Giuseppina decidiram migrar para o Brasil, onde o irmão dele, José, já viviaDois anos depois da chegada à capital mineira, em um imóvel alugado no Bairro Barro Preto, a família montava sua primeira fábrica de massasNos tradicionais moldes italianos, a produção era toda artesanal e a distribuição do macarrão para os armazéns, feita em carroçasNascia ali a Massas Vilma – nome que só seria registrado em 1937.

Anos depois, um dos seis filhos de Domingos, Paschoal, assumiu a frente dos negócios, dando início a uma fase ainda mais promissora da empresa, com a construção do moinho de trigo para solucionar o problema de abastecimento do produtoPor ser o segundo da capital, o moinho das Massas Vilma ganhou em competitividade frente aos concorrentes.

Em 1979, Paschoal e a esposa Alba se mudaram para Montes Claros, no Norte do estado, para acompanhar de perto a expansão da companhia, deixando o filho Domingos Costa Neto, recém-formado em administração de empresas, no comando do moinhoNo período, o custo da fabricação da farinha foi reduzido e criou-se o terceiro turno de produção, pagando horas extras ao funcionários, o que melhorou a produtividadeO poder administrativo fez com que Domingos passasse a cuidar dos investimentos da empresa, enquanto o pai tratava de questões ligadas à produção.

A partir dos ano 1990, quando a companhia adotou a nomenclatura Vilma Alimentos, a aposta foi na diversificação dos produtos, com a venda de refrescos em pó, gelatinas, salgados, pizzas e, claro, macarrão, o que lhe garantiu posição entre as primeiras do setorSegundo o planejamento da empresa, dados os aportes previstos para os próximos anos, o faturamento anual da Vilma deve atingir a marca de R$ 1 bilhão.

Domingos Costa Neto, de 58 anos, era o único filho homem de Paschoal e Alba, pais de mais três mulheresO herdeiro da marca mineira de sucesso assumiu o comando dos negócios quando o patriarca morreu, em 1997Pai de quatro filhos, Domingos estava no segundo casamentoPessoas próximas da família revelam que, além do espírito empreendedor, o empresário era doce e alegre