1º dia - mochila nas costas e 333 km pela frente
Parti de Belo Horizonte na manhã do último dia 17, uma terça-feira, e retornei na tarde do dia 20, a sexta-feira seguinteO objetivo era chegar ao Triângulo MineiroNa volta, depois de Patos de Minas, se desse tempo, subiria pela BR-365 até Pirapora, no Norte, de onde desceria à capitalSempre de carona
Para apanhar sua primeira carona, Sal foi de metrô e ônibus até os limites da cidade onde moravaTambém eu procurei um “quase limite” da Região Metropolitana de BH: o carro da reportagem me deixou em Betim, no início da BR-262, no trevo em que ela se encontra com a BR-381No primeiro dia, o objetivo era dormir em Araxá, distante 333 quilômetrosÀs margens da 262, ergui timidamente o papel branco onde havia escrito “CARONA – NOVA SERRANA” em grandes letras pretasQueria dar uma volta na cidade, famosa pela produção de calçados.
Em apenas cinco minutos um carro encostouCorri e me debrucei na janela“Vou até Pará de Minas”, anunciou o motoristaO médico homeopata André Moreira, de 33 anos, mora em BHUm dia na semana, atende em hospital público de Pará de Minas
O homeopata me deixou no trevo de acesso a Pará de Minas às 9h13, 28 minutos depois de me apanharA maioria dos motoristas que passava por ali me via e desviava o olhar, como muitos agem ao avistar mendigosAlguns apontavam para a esquerda, avisando que pegariam retorno logo à frentePude ler os lábios de um caminhoneiro: “Não posso”.
Esperei 12 minutos até parar um Corsa preto“Entra aí, parceiro”, convidou o sujeitoUm pen drive ligado ao aparelho de som deslizava o rock de Led Zeppelin e AC/DCHudson Soares, de 30 anos, havia sido policial militar em Belo Horizonte por 10 anos, mas conseguiu ser transferido para Pará de MinasFicou mais perto de Bom Despacho, onde moram seus paisEra para lá que estava indo naquela terça-feira, seu primeiro dia de férias.
Hudson não costuma dar carona a desconhecidos, mas abriu uma exceção“É perigoso, mas vi sua cara, você de mochila nas costas, segurando essa plaquinhaIsso é típico de estudante”, ele me olhou fixamente, como se perscrutasse minhas intençõesDe vez em quando, é o policial quem pega carona“Tem caminhoneiro que me vê com a farda e pergunta aonde tô indoPra ele, que viaja sozinho, é bom, né?”.
Araxá Segui com Hudson até Bom DespachoEle me largou em um posto de combustível na 262, quase uma hora depois de me apanhar – dirigia sem pressaHavia muitos caminhões estacionadosPedi ajuda a um frentista“Vai pra Araxá?”, ele perguntou a um caminhoneiro que acabava de pagar pelo dieselO motorista concordou em me levar, só almoçaria antes.
Na cabine elevada daquele Scania G-380, sobre o painel, havia três bonés e um chapéu de palhaAnderson Mendes, de 24 anos, dirigia descalçoA fala misturava preguiça e timidez, mas os olhos verdes me encaravam com segurança“A gente tá direto no posto, conhece o pessoalDou carona quando é assim: o frentista fala comigoAté achei que você era conhecido dele.”
Na manhã anterior, carregado com trigo, Anderson havia saído de Astorga (PR), onde mora com os paisDeixou a carga em Santa Luzia, na Grande BH, e dormiu ali mesmo, naquele postoEle puxou a cortina às suas costas para me mostrar a “cama”, um espaço estreito e acolchoado, com um aparelho de TV no altoEm Araxá, ia pegar adubo, a ser descarregado em Sorriso (MT), de onde ia transportar soja“Sempre faço esse trajeto”, explicou ele, que é filho de caminhoneiro e exerce o ofício há três anosEntre uma viagem e outra, fica três ou quatro dias em casa.
Chegamos a Araxá às 15h35 e estacionamos em um posto na Avenida Ministro Olavo Drumond“Não sei se você vai conseguir carona a essa horaO trecho daqui pra Uberaba ou Uberlândia é perigosoVai chegar lá escurecendo”, alertou AndersonO rapaz da lanchonete me explicou como chegar ao Centro e fui emboraEstava frioSubi as ladeiras do subúrbio, passei pela Igreja Matriz de São Domingos e cheguei à Avenida Antônio CarlosVirei à direita e, em um museu, arrumei o mapa da cidade e telefones de hotéisLiguei para um monte delesFui para o mais barato.
O hotel fica no final da Avenida Vereador João Sena, pouco antes da curva para a RodoviáriaEntrei por uma portinha, subi alguns degraus e não achei ninguémToquei uma campainha e nadaDesci uma escada à esquerda e cheguei à garagem-refeitório, onde me deram a chave do quarto 14Duas camas e uma cadeira branca de metal meio enferrujado, dessas de bar, dobrável e com uma marca de cerveja no encostoNão havia banheiro, ventilador, nem cortinasPaguei R$ 25 pela diária e descansei um pouco.
Andei por toda a Avenida Imbiara, principal ponto de diversão da cidadeNaquela noite de terça-feira, porém, havia pouca genteNo bar mais animado, que cobrava ingresso, vi belas garotas maquiadas e com botas, e supus que fosse mais uma balada sertanejaAli perto, havia um boteco estreito e comprido, com mesas e cadeiras de plásticoFui ao balcão no fundo, atrás do qual não havia ninguémA conversa se interrompeu na mesa ao lado e um dos homens ficou me encarando“É o quê?”, ele me perguntou, a voz mansa“Posso ver o cardápio?”, retruquei“Cardápio não tem”, respondeuE, sem se levantar, foi me dizendo o que havia para comerPedi uma cerveja e me sentei.
Começou a tocar Jota Quest e, na mesa diante da minha, um homem se empolgou: Hojeeee, só sua presença vai me deixar feliiiizSó hojeeeeePuxei conversaEle me disse que era conhecido como Carioca“Se você disser meu nome, ninguém vai saber quem é.” É carpinteiro de uma construtoraTem “50 anos nas costas” e morava em Volta Redonda (RJ) antes de ir para BH, onde ficou por quatro anos até se mudar para Araxá, há cinco meses.
Na capital mineira, Carioca morava com uma mulher, que passou a encontrar a cada 30 diasEm Araxá, sai com uma “pequena”“Minha namorada não sabe, mas ela não é boba, sabe que me divirto aqui.” E a mulher, também se diverte por lá? “Eu sei que ela não tem outro”, arriscaDepois se emenda: “Acredito que não temSe eu fosse ficar pensando nisso, nem saía de casa”Ele explica que, com a mulher de BH, o relacionamento é “jogo aberto”.
Carioca confirma que a Imbiara é o pedaço mais movimentado da cidade, mas o negócio esquenta mesmo entre quinta-feira e sábadoAs mulheres não têm frescura“Você tem que chegar com jeito, não pode atropelarNão sou boa pinta, mas sei conversar”, ensina“Outro dia, fiquei com uma por causa de um real”Ele estava por ali, assim, e viu duas amigas tentando comprar cervejaFaltava apenas R$ 1Ele ouviu e se ofereceu para pagarComeçaram a bater papo e pronto.
“Vou cair fora, que amanhã é dia de índio”, encerrou CariocaAntes da meia-noite, quase todos os bares estavam fechados ou recolhiam as mesasA Antonio Carlos estava desertaA rua do hotel, também, a não ser pelos retardatários de um boteco, uns caras em um ponto de mototáxi e um travesti com um vestidinho colado, em uma esquinaInvejei Sal Paradise e suas noites em Denver e São Francisco.
2º dia - horas de castigo antes do ‘eldorado’
Acabei dormindo mais do que deviaO melhor horário para pegar carona é de manhã cedo, quando os caminhoneiros começam a zarpar e muitos comerciantes e empregados de firmas viajam sozinhosNão consegui encontrar o posto onde desci em AraxáAndei por uma hora e meia, vergado pela pesada mochila, até encontrar o trevo de acesso a Uberaba e Uberlândia.
Como estava tarde – eram mais de 11h – e pretendia dormir em Uberlândia, decidi ir para lá diretoAnotei meu destino em um papel e fiquei de pé no início da BR-452Esperei por 25 minutos até parar um Corsa preto“Quer ir pra Perdizes?”, ofereceu o motorista“Lá é bom de pegar carona?”, perguntei“É, simNo trevo”, garantiuAlguns quilômetros a menos, penseiNão desconfiava que aquela seria a carona mais furada de toda a viagem.
O carro transportava uma famíliaO motorista era Alexandre Eurípedes da Silva, caminhoneiro, 32 anosA seu lado, a esposa, Éldia Rodrigues Ferreira, de 34, que trabalha na roçaApertei-me no banco traseiro, ao lado da empregada doméstica Sandra Maria da Silva, de 50 anos, mãe de AlexandreNa ponta de lá, estava Vera Lúcia, de 9, filha de Éldia e enteada de AlexandreOs quatro haviam ido a Araxá para resolver algo em uma agência do Itaú“Em Perdizes, só tem Banco do Brasil e Bradesco”, explicou SandraAproveitaram para se divertir em um balneário.
O Corsa roncava, cansadoO parabrisa exibia longas cicatrizesNão havia retrovisor internoDe vez em quando, o motorista mexia na cruz de um rosário dependurado no quebra-solParamos em um postoAlexandre pegou uma mangueira e um esfregão, que molhava em um barril com uma mistura de água e sabãoFoi a lavagem mais rápida de um carro que já viAo longo da estrada, vastas planícies cultivadas com cana e milho, bois e vacas pastando“Deus vai fazer você chegar logo ao seu destino”, despediu-se SandraFui deixado no trevo de Perdizes às 12h30.
Lá encontrei dois caroneiros, Miguel Lopes, de 29 anos, e a sobrinha Marley de Souza, de 24Havia dois anos, moravam e trabalhavam em uma fazenda de AraxáDividiam o lote e a casa com cinco parentes“Viemos pagar contas e comprar”, Marley mostrou sacolas com fraldas, frango e outros produtosSempre que precisam ir a Perdizes, pegam caronas na ida e na volta“É que o ônibus sai de Araxá muito cedo, antes das 6h, e outro sai daqui para Araxá só às 17h”, explicou a moça.
Paciência Pouco depois das 6h daquela quarta-feira, saíram da fazenda, foram até a rodovia e pegaram carona em um caminhão-tanque abastecido com leiteOutra carona os levou da sede de Perdizes até aquele trevo“Antes nós era besta e atravessava a pista (diante do trevo) pra pegar lá do outro lado, ninguém parava”, gargalha MarleyMiguel apenas sorri, envergonhado“Ele fala que mulher é que tem que pedir, que o motorista fica com dóMas não adianta”, brinca Marley.
Sempre que passa um carro, Miguel levanta o dedão, tímidoNormalmente, repete o gesto por mais ou menos uma hora, mas conta que já ficou três horas esperandoPara ajudá-los, anotei “CARONA – ARAXÁ” em um papel e lhes disse que, assim, seria mais fácilMarley segurou a plaquinha por menos de cinco minutos até um carro de passeio apanhá-losAcenaram para mim e sumiram.
Não tive a mesma sorteSegurei minha placa grafada com “CARONA - UBERLÂNDIA” das 12h50 às 13h53Quando não me ignoravam, os motoristas apontavam para a direita ou para a esquerdaDecidi dar meia volta e tentar uma carona para dentro de Perdizes pela BR-462Às 14h15, um vendedor de panelas me deixou na RodoviáriaTorceu a cara quando lhe falei de meu fracasso“Que coisa! Em trevo de cidade pequena costuma ser fácil o pessoal parar”, comentou.
Não havia ninguém no balcão da empresa de ônibus que faz o trecho até UberlândiaDisseram que a moça voltaria logo e o ônibus, o último para lá, sairia às 15hNão tinha comido nada e me decepcionei ao ver as opções na mais assustadora lanchonete que já enfrenteiUns poucos salgados pareciam estar ali havia diasO atendente ofereceu-se para preparar novos e, assim, um enroladinho semicru de presunto e queijo foi minha primeira refeição.
O ônibus – R$ 31,45 a menos no bolso – saiu às 15h30 e entrou em todas as cidades que margeiam a 452 Desembarquei às 18h, cansado e animado com as luzes e largas avenidas da rica UberlândiaTomei um ônibus para o terminal central, caminhei um pouco e me hospedei em um gracioso hotel na Avenida Coronel Antonio AlvesPaguei R$ 50 por um quarto minúsculo com banheiro.
“Em Uberlândia, tem dinheiro rolando na rua”, disse um conhecido meu, que mora lá e foi meu guia aquela noite, em seu MerivaEle me entregou um exemplar de uma revista de agronegócio da qual é sócioContou que, há pouco tempo, abriu uma agência de comunicaçãoUm dos novos clientes, lisonjeou-se, é um dos maiores criadores de gado da regiãoO rapaz parecia ansioso por entrar na high society local“Eu tinha preconceito com o agronegócioSó ouvia rockHoje danço sertanejo, se precisar”, sorriu ele, que usava botas de couro e camisa xadrez.
Perambulamos um poucoDisse que queria me apresentar a melhor parte da cidade Começamos a rodar pelo Bairro Morada da ColinaAs mansões pareciam fortalezas, resguardadas por muros de mais de três metros de altura e cercas eletrificadasAlgumas tinham câmeras e guaritas“Eu sempre quis saber quem mora aí”, apontou uma construção que deixava ver colunas à gregaNo Bairro Jardim Caraíba, não havia muros, apenas quintais gramados ao estilo norte-americano“Os carrões dormem do lado de fora e ninguém mexe”, constatou.
Depois, voltamos ao Centro, com vida noturna mais movimentadaEntramos em um bar-boateOs jovens se agrupavam em torno de mesinhasSó se vendia cerveja importada, mas o pessoal preferia beber energético com Red Label ou AbsolutUma banda começou a tocar pagode e sertanejo“Você também não gosta, né?”, me perguntou um rapaz, referindo-se à música“Faz como eu: finja”, brincouSorri de volta e, pouco tempo depois, corri para o hotel.
3º dia - caminhoneiro também anda de carona
Na manhã seguinte, fui de ônibus à estação de Santa Luzia e tomei um mototáxi até a saída para Patos de Minas, na BR-365Lá, um rapaz já erguia um papel com o destino “PATOS”Gustavo (que me pediu para omitir o sobrenome) seria minha companhia em três caronas e 287 quilômetros.
Gustavo mora no Bairro Aparecida com a mãe, a namorada dele e o filho de sete mesesHá cinco, o rapaz de 18 anos aceitou o convite do pai caminhoneiro para acompanhá-lo em suas viagens ao Norte do paísO pai dirige durante o dia e Gustavo, à noiteO jovem, que não tem carteira de habilitação específica para caminhões, pega o volante por volta das 20h e roda até as 6h“Nesse horário, principalmente de madrugada, a fiscalização é fracaTrabalho na ilegalidade”, admite.
O caminhão quase não para“Não dá pra perder tempoA gente tem 40 horas pra ir de São Gotardo a Belém (PA), por exemplo”, ressalta ele, mencionando um percurso de 2.500 quilômetrosAntes de dividir a tarefa com o rapaz, seu pai precisava usar estimulante“Você só consegue ir sozinho com cocaína ou ‘rebite’”, conta.
Encontro Depois de buscar verdura em São Gotardo ou Cristalina (GO), o pai do rapaz segue para Recife (PE), Fortaleza (CE) ou Belém (PA)Gustavo tem que dar um jeito de encontrá-lo no meio do caminhoPara isso, sempre vai de carona“Não gasto dinheiro com ônibusGanho pouco e tenho um menino”, justificaQuando o caminhão é carregado em São Gotardo, como nesta vez, o rapaz vai a Patos de Minas e desce para Rio Paranaíba, onde fica em um posto na BR-354, à espera do caminhão.
Naquela quinta-feira, o combinado era Gustavo estar no posto até as 18h Geralmente, começa a pegar carona cedo, por volta das 6h30Nesse dia, porém, chegou atrasado, umas 9h45“Agora, os carros passam tudo cheio, família viajandoÉpoca de férias, né? Caminhoneiro é difícil, mais desconfiado, às vezes o caminhão é rastreado”, explica“Quanto menor a cidade, mais fácil pegar caronaO cara acha que você é da regiãoEm BH, deve ser difícilTem muita criminalidade, o povo fica com medo.”
Ele me mostrou o papel com a inscrição “PATOS”“Você põe ‘estudante’ numa plaquinha dessa e pega (carona) facinho”, contouPara testar sua tese, escrevi “PATOS – ESTUDANTE” em um papel e desenhei uma carinha sorridente – assim, ele garantiu, ficava mais comoventeComeçamos a usar a nova placa às 10h43Nos revezávamos à beira da pista, o sol assando nossas cabeçasEm seus minutos de folga, Gustavo fumava um cigarro atrás do outro.
Uns 20 minutos depois, uma mulher desceu de uma moto e caminhou em nossa direçãoGustavo avisou: “Agora, você vai ver o que é pegar carona rapidinhoCaminhoneiro dá carona a mulher pra comer ela, mas com essa aí tem que ter muita força de vontade.” A mulher parecia ter uns 40 anos, um tanto acima do peso, o cabelo descolorido“Vou mais pra frente, pra não atrapalhar vocês”, disse ela ao passar, um meio sorrisoParou, aprumou o dedão e, em menos de dez minutos, um caminhão a apanhou“Se eu tivesse uma..no meio das pernas, já teria ido”, riu Gustavo.
Outro rapaz chegou à rodovia, mochila nas costas e uma mala amarela na mãoPegou carona em 20 minutosNão era nosso dia de sorteÀs 12h50, quase três horas após eu atracar ali, um cara se condoeu de nósDirigia um Hyundai IX35, carro de luxo, do tipo que não costuma acomodar caroneirosO motorista anunciou que ia até Patrocínio e embarcamos.
José Geraldo Queiroz, de 50 anos, é corretor de segurosHavia deixado a filha no aeroporto de Uberlândia e voltava para a cidade onde mora“Sei o que é isso, já peguei muita carona”, falou quando entramosCom 20 e poucos anos, estudante de administração em Goiânia (GO), ia de carona visitar a família em Patrocínio“Preferia guardar a grana pra tomar uma, fazer festaÀs vezes, estava duro mesmo”, recordou“Já fiquei seis horas esperando.”
Alívio estranho Atravessamos densas plantações de eucalipto, paredões às margens da estrada“Vocês devem estar com fome”, Geraldo comentou, oferecendo uma maçãPerguntou o que fazíamos da vidaGustavo disse que era caminhoneiro e, como se falasse algo banal, explicou como ele e o pai fazem xixi sem precisar estacionar: levam uma garrafa plástica de dois litros cortada ao meio, põem o veículo no piloto automático e se aliviam“Sempre na subida, que o caminhão vai mais devagar e o xixi não espirra na carroceria quando a gente joga pela janela”, ensinou.
Passava das duas da tarde quando fomos deixados em um posto, ao lado do trevo de acesso a PatrocínioUma mulher chegou à BR e, em uma descida, onde ninguém frearia para marmanjos como nós, um caminhão encostou em menos de cinco minutosNo trevo, como passavam lentamente, alguns motoristas gritavam aonde iam: Piracicaba, Guimarânia..Outros apontavam para a esquerda, como se fossem tomar o retorno, e seguiam em direção a Patos“Que putão, sô! Vai tomar no lugar que não toma sol”, xingou Gustavo.
Um caminhão Mercedes-Benz nos apanhou às 15hGeraldo Martins, de 64 anos, voltava à fazenda onde trabalha, em Patos de Mias, depois de descarregar café em Patrocínio“O patrão não gosta que eu dê (carona), mas..É mais quando tem cara de estuda
nte”, explicou o motorista, que usava chapéu de palha, um casaco cheio de buracos e uma calça azul desbotada e puídaO caminhão não tinha cinto de segurançaPelo telefone, Gustavo soube que poderia chegar a Rio Paranaíba até as 19h, uma hora a mais que o prazo anterior, e ficou aliviado.
Chegamos a Patos às 15h50Minha ideia era dormir na cidade, mas Gustavo me convenceu a seguir viagem até um posto na BR-354“Lá tem hotel, você pode passar a noiteMuito caminhoneiro dorme lá, bebe, conta históriaSeria uma experiência interessante”, justificouDescemos o trevo e pegamos carona com Aderaldo Lima, de 40 anosEle é sócio de uma concessionária em Patos e ia entregar a Captiva em que viajava ao comprador, em Carmo do Paranaíba.
“Peguei muita carona quando cursava agronomia em Bambuí”, contou Aderaldo, de Salvador (BA)“Só dou carona em MinasEm São Paulo ou Goiás, nãoTem bandido demais.” No trevo de acesso a Carmo, Gustavo pegou carona 10 minutos antes de mimLevado por um vendedor de frutas ao posto pretendido, descobri que não havia hotelÀ noite, o carro de uma firma me carregou de volta a Patos.
No primeiro hotel que encontrei, ao lado da rodoviária, paguei R$ 22 por um quarto com cheiro esquisitoNo primeiro andar, o banheiro reservado aos hóspedes do sexo masculino tinha manchas arroxeadas na pia e no pisoMas eu não tinha fôlego para procurar outro pousoDesabei na cama.
Precisava chegar a BH naquela sexta-feiraAcordei cedo e me mandei para o trevo de PatosSem plaquinha, só com o polegar apontando o caminho, dois homens já pediam carona à beira da
BR-354 Um deles era Nilson dos Santos, de 40 anos — os sulcos profundos no rosto sugeriam mais idadeVestia roupa social, sapatos pretos bem engraxadosPegava carona porque o ônibus para Carmo do Paranaíba saía tardeVoltava para a fazenda onde cria gado leiteiro“Tenho 100 cabeças lá”, informou.
Quando um automóvel se aproximava, Nilson tirava a mão do bolso e levantava o dedão, discretamentePor sua vez, a mão de Sandra Maria Borges vibrava no ar com insistênciaA empregada doméstica de 44 anos surgiu na rodovia com a sobrinha, a auxiliar de serviços gerais Eliene Cristina Borges, de 26Há 10 dias, as duas haviam ido visitar familiares em Pires do Rio (GO)De lá, pegaram três ônibus até PatosE agora, como fazem sempre, esperavam carona de volta a Carmo do Paranaíba, onde moramAs duas carregavam um monte de malas e sacolas.
Nilson e eu nos apertamos na cabine do Mercedes que encostou às 8h50, 20 minutos depois de eu erguer minha plaquinha Clovis Silvestre tem 50 anos e é caminhoneiro há mais de 30No caminhão “boiadeiro”, com um gaiolão para transportar animais, saiu de um haras em Uberlândia carregando uma vaca e um bezerro, que deixou em Brazlândia (DF)Voltava vazio para CarmoOs cintos de segurança não tinham encaixe“Esse cinto, você senta em cima dele”, disse Clovis, ensinando o disfarce.
O caminhoneiro contou que já tomou muito “rebite” Quem transporta “carga de horário”, com prazo de entrega curto, “só dá conta tomando rebite ou usando droga, cocaína”, justificouPensei em Gustavo e tentei imaginar onde ele e o pai estariam àquela hora“Tem motorista que só anda à base de droga, o cara se viciaCom rebite, a gente fica tão ligado que pega o volante assim, ó: firmeNão dormeEu tinha que tomar umas cervejas pra cortar o efeito e dormir”, relatou Como o estimulante tirava a fome, a bebida maltratava o estômago vazio “No outro dia, eu passava mal, vomitava.”
Em Carmo, 45 minutos depois de eu chegar, uma D-20 parou na saída do trevoEnquanto um homem descia, fiquei apontando minha plaquinha para o motorista, que me ignorou por alguns instantes Parecia indecisoBaixou o vidro da janela e, sorrindo, perguntou: “Fuma não, né?” Quando entrei, reforçou: “Não ‘guento’ mau cheiro de cigarro”Sinval José Honório, de 64 anos, disse que entregaria queijo canastra a comerciantes da Grande BH.
O homem que desceu da D-20 era um conhecido de Sinval que havia pedido carona até o trevo“Como parei, fiquei constrangido a lhe dar alguma satisfaçãoSe não precisasse parar, é provável que passasse direto Hoje em dia não tá fácil arriscar”, explicou o motoristaDe qualquer forma, avaliou que eu não tinha cara de gente mal intencionada“Bandido não fica em trevo perto de cidade, onde passa muita gente, muito carro, polícia”, ressaltou.
As planícies ocupadas com cana e café se sucederamA paisagem mudou quando começamos a descer a Serra da Canastra“Você vota em que partido? PT, PSDB, DEM…?”, perguntou Sinval “A vida toda eu votei no PFL, o DEMNão é do seu tempo, mas pra mim só existem dois partidos: UDN e PSDSempre fui da UDNNa época da ditadura, não tinha tanto desvio de dinheiro.” Às 13h29, me deixou em Betim, em um ponto de ônibus na BR-381Despediu-se: “Até! Foi um prazerão”.
O carro do jornal me apanhou pouco depoisEm quatro dias, percorri mais de mil quilômetros, conheci quase 30 pessoas de diferentes origens, idades e formaçõesNo começo, era difícil levantar o dedão ou a plaquinha, e torcer para o motorista me considerar inofensivoAndar de favor em automóveis de desconhecidos me deixava meio constrangido Hoje, se alguém me disser que costuma dar carona, direi como Sal Paradise: “Eu faria o mesmo, se tivesse carro”No trajeto de Betim a BH, não avistei ninguém pedindo caronaGustavo deve ter razão: o povo fica com medo.