Jornal Estado de Minas

Recuperação dos rios de Minas Gerais é um desafio

Adriano Magalhães, secretário de Meio Ambiente do estado, afirma que série de reportagens "pôs dedo na ferida" ao denunciar degradação e anuncia mobilização para atacar problemas

Flávia Ayer

  Adriano Magalhães Chaves, secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - Foto: JANICE DRUMOND/ASCOM SISEMA

Onde há poluição, haverá peixesOnde há esgoto, haverá famílias apreciando a água fresca de rios e córregosO que soa como profecia é o cenário prometido pelo governo do estadoEm entrevista ao Estado de Minas, o secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Adriano Magalhães Chaves, afirma que o desafio e a meta é permitir que mineiros possam nadar e pescar nos cursos d’água que cortam o estado, muitos deles hoje reduzidos a canais de esgoto ou até mesmo a caminhos secosO compromisso foi renovado com a série Rios de Minas, que desde domingo mostra as razões da asfixia das principais bacias do estado, em um trabalho que, nas palavras do próprio secretário, “pôs o dedo na ferida de um problema grave”“As reportagens nos mostraram situações que até mesmo nós desconhecíamos e serão consideradas em nossas ações como uma poderosíssima arma na defesa dos recursos hídricosA partir das matérias, criamos uma intensa mobilização para integrar essa preocupação em relação às bacias hidrográficas em todas as esferas do governo”, afirmaPara o segundo semestre, Magalhães já promete o lançamento de um sistema com informações completas sobre biodiversidade e recursos hídricos, que será usado como banco de dados único para o estado, baseando desde o licenciamento ambiental até a fiscalizaçãoCom 79 estações de tratamento de esgoto (ETEs) em construção, a Copasa também promete investir R$ 450 milhões em obras para a recuperação da bacia do Paraopeba e da Lagoa da Pampulha

 

Qual o maior desafio do governo em relação aos cursos d’água?

Nosso grande desafio é transformar todos os cursos d’água do estado em classe 2, o que, na prática, significaria poder pescar e nadar nos nossos riosPara alcançar essa meta, não basta construir estações de tratamento de esgoto (ETEs): é preciso impor uma regulamentação rígida do licenciamento ambiental na área do esgoto

Precisaríamos que nossas ETEs também fossem equipadas com o tratamento terciário dos efluentes (que permite a desinfecção da água, eliminando as bactérias).

Não falta um empenho mais efetivo nesse sentido?

Até 2015, investiremos R$ 500 milhões na despoluição do Rio das Velhas, que já recebeu  R$ 1,3 bilhãoEstamos levando o exemplo do Velhas para outras bacias e também investiremos R$ 430 milhões nas bacias dos rios Piracicaba, Mogi-Guaçu, Paraopeba e ParáAlém dos recursos, é importantíssimo o trabalho de mobilização e, no setor industrial, o tratamento dos efluentes do processo produtivo.

De que forma a fiscalização tem atuado para coibir irregularidades?

Apenas este ano houve 423 ações de fiscalização relacionadas aos recursos hídricosFlagramos situações de desmatamento de áreas de preservação permanente (APPs), mata ciliar e tudo que contribui para piora na qualidade da águaTemos feito operações especiais em locais mais críticos, como indústrias, mineradoras, áreas de parcelamento do solo, siderurgia e irrigação.

Ainda não há por parte do estado o reconhecimento preciso do patrimônio hidrológico de Minas, com identificação de todas as nascentes e córregos menoresQuando haverá esse mapeamento?

Vale lembrar que temos hoje 36 comitês de bacia hidrográfica, órgãos formados por usuários, sociedade civil e pelo poder públicoEsse trabalho de diagnóstico é feito durante o plano diretor de cada bacia hidrográfica, que, além de mostrar a visão integrada da área, aponta quais metas deverão ser atingidasAtualmente, temos 19 planos diretores concluídos e estamos elaborando mais 11

 

CORREDEIRAS

Fruto de quase 7 mil quilômetros de uma viagem que cruzou 42 municípios, a série Rios de Minas mostrou o que sufoca as águas das principais bacias do estadoConfira o dia a dia da expedição pelas páginas do EM

Sexta-feira
A disputa pela água é marca em uma bacia onde o recurso parece abundante, mas já não é suficiente para contemplar toda a demanda

As soluções adotadas para tentar administrar todos os interesses em jogo na Bacia do Paranaíba foram objeto da penúltima reportagem da série.

Quinta-feira
O sumiço de rios e córregos faz a seca correr pelo Vale do Rio JequitinhonhaGarimpos clandestinos, extração ilegal de areia e lançamento de esgoto ajudam a compor o cenário que ameaça o curso d’água, vital para a região conhecida pela aridez

Quarta-feira
Com represas e hidrelétricas, a bacia do Rio Grande é cenário de contrastes, reunindo o pior curso d’água de Minas e a maior quantidade de índices positivos de qualidade, em outros pontosPelo Rio Grande, Minas exporta poluição e esgoto para São Paulo.

Terça-feira
Governador Valadares e outros municípios do Vale do Rio Doce sentem sede às margens do manancialA contaminação por esgoto doméstico e industrial leva cidades a buscar alternativas de abastecimentoA proposta de instalação de pequenas hidrelétricas na bacia provoca conflitos.

Segunda-feira
A decadência do Rio São Francisco começa em seus principais afluentes, os rios das Velhas e ParaopebaA segunda reportagem da série revelou que, apesar de beber da água dos dois mananciais, a Grande BH “retribui” jogando nas bacias esgoto de 4,5 milhões de habitantes.

Domingo
A primeira reportagem da série Rios de Minas denunciou que a morte de afluentes do Velho Chico levou a vazão do rio a cair 35%, exibindo assoreamento que levou pescadores a abandonar varas e anzóis e abraçar a extração de areiaMostrou ainda que a contaminação por esgoto tornou-se um problema generalizado no estado

Confira galeria com imagens registradas durante a reportagem