Certa vez, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) se referiu à Caetés como “a rua mais camarada de todas: sempre disposta a fazer uma diferença, para você virar freguês”O filho mais ilustre de Itabira quis destacar a importância do corredor projetado pela equipe do engenheiro Aarão Reis, chefe das obras da construção de Belo Horizonte, para desempenhar o papel de uma das principais vias comerciais da capital, inaugurada em 1897De lá para cá, muita coisa mudou na Rua dos Caetés, como o surgimento de prédios e a ampliação da largura dos passeios, mas o trato carinhoso dos lojistas com os consumidores, este sim continua sendo uma das receitas dos bons lucros dos varejistas de lá.
“A Rua dos Caetés reúne, hoje, cerca de 700 estabelecimentos comerciaisEla contribui para os 18% que o Hipercentro representa no volume total de vendas do varejo da capital”, destacou Bruno Falci, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH)Segundo a entidade, cerca de 27 mil pedestres passam diariamente pela CaetésO trajeto da via é outra característica favorável ao seu desenvolvimento econômico: o corredor liga a Praça Rio Branco, defronte à rodoviária, à Rui Barbosa, na estação ferroviária.
A fama de rua comercial começou com imigrantes sírios, libaneses e árabesHoje, os pontos de vendas montados pelos estrangeiros são administrados por seus descendentes, como ocorre na Casa Michel, que pertenceu a um libanês e foi comprada em 1950 pelo comerciante Milton Abras, da mesma ascendênciaAtualmente, o empreendimento, que vende roupas masculinas e femininas, é conduzido por Rodrigo Abras, filho do ex-proprietário.
“O comércio nesta rua é bastante movimentadoTemos clientes antigos que vêm aqui porque sempre foram bem tratados”, resume o atual proprietário, que emprega nove pessoasUma delas é seu Aderly João, de 58 anos, que trabalha lá há quatro décadas“Fiz muitas amizades neste período
O escritor de Itabira tinha carinho especial pela rua em que Aderly trabalhaTanto que destacou em uma de suas crônicas que a Caetés era a via “dos bigodes e gritos joviais, de pequeninos arranhacéus e de grandes laranjas amadurecendo em caixotes”A palavra bigodes é uma homenagem aos estrangeiros que ajudaram na fama do corredorJá comerciantes negociando caixotes de laranjas no local está cada vez mais raro de verAtualmente, apenas seu Nivaldo Bernardes, de 63, desempenha a atividade“Sou eu e DeusA clientela é boaO problema é o preço do aluguel: pago R$ 3 mil mensais por este espaço de 12 metros quadrados”, reclama o homem, natural de Vargem Alegre.
Vizinho à sua loja, o comércio Mundo dos Esportes, aberto há quatro anos, é referência na viaEspecializado em artigos esportivos, o empreendimento foi fundado por Décio Fernandes, de 69
Tradição
Um dos pontos de comércio mais tradicionais de Minas funciona na esquina da Caetés com a São PauloA Casa Salles, especializada em armas e artigos para pescaria, foi inaugurada em 1881, antes da fundação de Belo Horizonte (1897)“Meu bisavô João Salles abriu as portas em Ouro Preto, que era a capital de MinasQuando foi construída a nova capital, ele decidiu transferir, em 1894, a loja para Belo Horizonte”, conta dona Consuelo Salles, de 56 anos.
Enquanto atende alguns clientes, ela conta que o imóvel que abriga a Casa Salles foi usado como dormitório pelos pintores que deram o retoque final à Igreja São José, no Centro da capitalAtentos às palavras de dona Consuelo, alguns consumidores, mesmo depois de pagarem a conta e pegarem a mercadoria, ficam um pouco mais na loja para ouvir a história da Casa Salles.
Ficam sabendo, por exemplo, que os enormes balcões de madeira vieram de Ouro Preto“Antes de fundar o próprio comércio, meu bisavô era empregado de um comerciante em Ouro PretoQuando seu patrão morreu, ele revelou um segredo à família deleEra um segredo valioso que só meu avô e seu ex-patrão sabiam”, disse Consuelo despertando a curiosidade em parte da clientelaE qual era o segredo? “O patrão de meu bisavô escondia três garrafas com ouro em póMeu bisavô contou aos familiares do patrão que, em gratidão, lhe deram uma carta de créditoFoi assim que ele conseguiu fundar a Casa Salles.”
Linha do tempo
– 1900: Rua dos Caetés se destaca como a principal via econômica da capitalUm dos motivos foi seu traçado “privilegiado”, que liga a Praça Rio Branco (Praça da Estação) à Rui Barbosa (Praça da Rodoviária)
– Década de 1920: Foi num imóvel na Caetés, de propriedade de Agostinho Ranieri, que representantes da colônia italiana se reuniram para fundar a Sociedade Esportiva Palestra Itália, atual Cruzeiro Esporte Clube
– Década de 1930: O trânsito de bondes é intenso no corredor, cujo pavimento era de pedras
– Fim da década de 1990: A Caetés e adjacências são tombadas como patrimônio históricoO corredor é considerado um museu a céu aberto
– Agosto de 2004: Rua passa por sua maior reforma, com obras na pavimentação, calçadas, iluminação etcO investimento foi de R$ 1,9 milhão