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Estado de Minas

Superagro deixa público mais perto da roça

Exposição agropecuária no Parque da Gameleira, programa obrigatório para quem sente falta da vida no campo e para quem nunca viu um boi ou um cavalo de perto


postado em 11/06/2012 07:05 / atualizado em 11/06/2012 07:13

O julgamento dos animais para escolha dos campeões de cada raça e categoria, a beleza do gado bovino: tudo é novidade para quem nasceu e mora em Belo Horizonte e tem pouco contato com as atividades rurais(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
O julgamento dos animais para escolha dos campeões de cada raça e categoria, a beleza do gado bovino: tudo é novidade para quem nasceu e mora em Belo Horizonte e tem pouco contato com as atividades rurais (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Na roça onde nasceu e cresceu Anelita Viana, as reses eram magrinhas, coitadas. Não tinham esse tamanhão todo dos animais da tradicional Exposição Estadual Agropecuária, cuja 52ª edição foi encerrada ontem no Parque da Gameleira, Região Oeste da capital. Mesmo assim, a dona de casa, de 84 anos, e muitos outros belo-horizontinos aproveitaram o evento para sentir um pouco do gosto da vida no campo. Alguns visitantes nunca tinham visto um boi em carne e osso.

Nos 35 pavilhões da feira, foram expostos cerca de 2 mil bovinos, equinos, caprinos, ovinos e búfalos. Os criadores apresentaram o que consideraram os melhores exemplares de seus rebanhos. Alguns animais pesavam mais de uma tonelada. Nos leilões, que ocorreram em todas as noites do evento, iniciado no dia 3 deste mês, houve animais arrematados pelo preço de uma Ferrari. A vaca Demi Moore, da raça guzerá, continua inteira, mas metade dela foi vendida por R$ 145 mil. Já o cavalo Nirvana de São Judas, da raça campolina, foi transferido de dono pela “bagatela” de R$ 161 mil.

Anelita não tinha ideia do valor dos animais que viu na exposição, mas que eram enormes, ah, isso eram. A dona de casa é natural de Santa Cruz do Escalvado — ou “do’scarvado”, no dizer dela —, na Zona da Mata. O município tem 4,9 mil habitantes, de acordo com o Censo 2010 do IBGE. A menina Anelita começou a trabalhar com 10 anos, capinando, colhendo, apanhando, arrancando… “Tudo que é serviço de roça. Até (cigarro de) fumo eu sei fazer”, garante. Ela se mudou para BH aos 40 anos. Na capital, viu, espantada, “qualquer pinguinho de chuva fazer uma inundação, e moça se vestir de cobrar e dizer que é distração”, como cantou Luiz Gonzaga.

Hoje mãe de seis filhos, Anelita acostumou-se com a cidade grande, mas sente falta das alegrias simples da roça. “Era uma vida maravilhosa. Nós ‘trabalhava’ o dia todo, mas, chegava sábado e domingo, nós ‘dançava’ a noite inteira”, lembra, sorrindo. Na feira, reparou que, em alguns pavilhões, os tratadores estavam tirando leite das vacas, envasando em garrafas plásticas de refrigerante e vendendo dois litros por R$ 3. Anelita levou quatro litros para casa. “O leite de caixinha não presta, não. É muito ralo, tem muito remédio”, critica.

A dona de casa Maria Pereira, de 70, acompanhava a vizinha Anelita. Também comprou quatro litros de leite. “Em BH, você não vê quase nada de roça. Só vê na televisão. Vida de capital é uma loucura. Você cria os filhos numa preocupação danada”, comentou Maria, que tem cinco filhos. Como a amiga, ela dividia a terra com pés de fruta, bois, vacas, cavalos, galinhas, porcos. Natural de São Pedro dos Ferros, na Zona da Mata, ela mora na capital há quatro décadas.

Na feira, sempre que se ordenhava uma vaca — com as mãos ou usando máquinas — juntava gente em volta. “Nossa, olha como ela tá inchada!”, impressionou-se uma mulher, olhando as tetas de uma fêmea leiteira. O tratador riu da exclamação e explicou: “Na fazenda, ela dá 80 litros por dia. Aqui, dá 70, 75. Tem muita gente passando, ela fica estressada”. Vendo a vaca ser ordenhada, uma garotinha sentiu dó: “Tadinha, deve doer”. Sentado no banquinho, com o balde à sua frente, o tratador riu novamente.

Muitas famílias foram à exposição. Logo na entrada, as crianças se divertiam com os tratores. “É de verdade? Para que serve?”, indagou Rafaela Ferreira, de 5 anos, sentada no banco de um dos veículos, fingindo dirigir. Ela e o irmão Isaque, de 17 meses, nasceram em Betim, onde vivem com os pais, Mardoqueu Ferreira, de 40, e Rosilei Aparecida Queiroz, 38. “Só não moro numa fazenda porque não dá. Por mim, eles (os filhos) seriam criados no mato, como eu fui. Quanto mais contato com a natureza, com os bichos, melhor”, diz a dona de casa Rosilei.

Rafaela e Isaque só tinham visto bois e vacas pela televisão, assim como Fernando Augusto Braga, de 6 anos. Na feira, o passeio montado em um pônei custava R$ 5. Quando viu os animais amarrados em uma grade, um garoto achou que fossem zebras. Já Fernando pensou que fossem filhotes de cavalo. Depois, nos pavilhões, ficou com medo de chegar perto dos bovinos. “É bom ele sair um pouco dos livros e da televisão e ver ao vivo os bichos. Ele fica muito em apartamento, no computador, jogando videogame”, disse a mãe de Fernando, a dona de casa Janilda Augusto Amorim, de 37 anos.

JULGAMENTO

Moradores de Contagem, na Região Metropolitana de BH, Fernando, Janilda e o pai, o representante de vendas Adalberto Braga, de 40, encostaram-se na grade da pista de grama para ver o julgamento dos animais. Os jurados observavam os cavalos marchando e, pelo microfone, falavam jargões como “padrão racial”, “diagrama de andamento” e “arqueamento de costelas”. “Estamos tentando entender, viu?”, admitiu Adalberto. “A gente não entende, mas é bonito ver o cuidado com os animais, o capricho. Não têm um machucadinho”, observou Janilda.

No julgamento, equinos e bovinos disputam para serem os melhores de suas raças. No início, os animais andam em círculo e o jurado fica no meio, observando. Depois, pode pedir para os exemplares serem postos lado a lado, o que facilita a comparação. No caso dos cavalos e éguas, a avaliação tem duas etapas: em uma, os tratadores andam a pé ao lado dos animais, e na seguinte, montam sobre eles. “Um dos pontos avaliados é a qualidade do andamento. O cavaleiro tem que se sentir confortável e o cavalo deve atender os comandos de curvas, de aumento e diminuição de velocidade”, explica o jurado Paulo Ribeiro, de 54 anos, engenheiro civil.

Em um pavilhão, um garoto apontou um boi: “Pai, ó o chifrão desse aqui!”. Em outro passeavam os namorados Paulo Roberto Gonçalves, nutricionista, de 47 anos, e Sandra dos Santos, enfermeira, da mesma idade. Os dois nasceram e moram na capital. “A gente sente falta desse contato com a natureza. Em BH há muita poluição. Se a gente ganhar um dinheirinho, monta uma fazenda”, brincou Paulo. “Ali em cima tem um boi de 1.022 quilos, muito grande”, comentou Sandra. Depois, ela acariciou o pescoço de um bezerro, que levantou a cabeça, dengoso. A mulher se derreteu: “Isso é muito gostoso. Fico com vontade de levar comigo, mas vou botar onde? Na área de serviço?”

TECNOLOGIA E CACHAÇADA

A 52ª Exposição Estadual Agropecuária fez parte da programação da 8ª edição da feira agropecuária Superagro Minas. No Parque da Gameleira, além dos pavilhões onde ficaram os animais, havia estandes de fabricantes de equipamentos para o campo, insumos e tecnologias. No centro de convenções Expominas, outros destaques da programação foram a 20ª Expocachaça, que incluía a venda de cerveja artesanal, e a 3ª edição da Expovet Minas, que atraiu interessados em negócios, serviços e produtos veterinários. Até ontem, não havia sido divulgado o total de visitantes, mas a expectativa dos organizadoras era receber 70 mil pessoas, mesmo público de 2011.

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