Jornal Estado de Minas

Tradicional procissão de Sabará já dura 200 anos

Centenas de fiéis se levantam antes de o sol nascer, na madrugada da sexta-feira da Paixão, para relembrar o caminho de Jesus

Celina Aquino
Fiéis acordaram de madrugada para seguira procissão de Nossa Senhora das Dores - Foto: Beto Magalhães/EM DA Press
Os sinos da Igreja de São Francisco anunciam o início da tradicional procissão de Sabará, na Região Metropolitana de BHHá mais de 200 anos, centenas de fiéis se levantam antes de o sol nascer, na madrugada da sexta-feira da Paixão, para relembrar o caminho de Jesus desde a prisão até o calvário“Este é o verdadeiro sentido da penitência: acender as velas e pagar os pecados subindo as ladeiras”, orgulhou-se o padre Rogério Messias dos Santos, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, que há três anos comanda o cortejo, ontem formado por 700 pessoas, de acordo com estimativas da Polícia Militar.

Reunidos no Largo São Francisco, às 4h, os moradores receberam a imagem de Nossa Senhora das Dores, que deu a força necessária para a caminhada de quatro quilômetros por ruas íngremesO som das matracas abria o caminho e despertava as pessoas, que aos poucos surgiam nas janelas para ver a passagem do cortejoFoi nessa hora que o estudante Gustavo Henrique de Souza, de 12 anos, assumiu pela primeira vez a função de matraqueiro“O braço cansa porque a matraca é bem pesada, mas para manter a tradição vale o sacrifício.”

Alguns fiéis caminhavam com a vela acesa, outros preferiam se apegar ao terço para reforçar a oração e os mais dispostos faziam questão de carregar a santa no ombro“Enquanto Deus me der saúde, vou estar aqui”, falou Marta Maria Viterbo Cabral, de 76, que há 20 anos reivindica o direito de levar Nossa Senhora das Dores até a Capela do Senhor Bom JesusPara ela, carregar o peso da imagem não é nada cansativo, mesmo depois de caminhar mais de uma hora de casa para o local da concentração e subir parte das ladeiras“Só peço para ela proteger a minha família.”

Durante a caminhada, a procissão percorreu 14 estações dolorosas, que marcam a Via SacraA cada parada, os fiéis lembravam um pouco do sofrimento de Jesus e entoavam juntos as orações iniciadas pelo padre Rogério“Apesar de todas as dificuldades, é bonito ver a religiosidade do brasileiro”, destacou a advogada Cláudia Teixeira de Oliveira, de 47, moradora de Belo Horizonte, que acompanhou pela primeira vez a procissão de Sabará.

No Morro da Cruz, os fiéis puderam admirar a cidade do ponto mais alto da cidade e venerar a imagem de Nossa Senhora das Dores, exposta na capela
Enquanto isso, um grupo de atores amadores encenou a Paixão de CristoA técnica em radiologia Rosilene Oliveira, de 32, interpretou Maria, irmã de Lázaro, que sempre acompanhou Jesus“Sinto como se tivesse vivendo aquele momentoÉ emocionante lembrar como Jesus sofreu para que nós estivéssemos aqui”, destacouJá sem o manto azul, ela desceu as ladeiras com a procissão e voltou para a Igreja de São Francisco, onde faria a guarda da santa.

Serra da Piedade


Romeiros e peregrinos precisaram de palavras de incentivo para andar quase seis quilômetros da Serra da Piedade no calor da manhã de ontemCom boné para se proteger do sol e garrafa de água na mão para se hidratar, a professora Heloísa Rodrigues, de 49, assumiu o compromisso de percorrer todo o trajeto em jejum, que duraria até o fim do dia“A sexta-feira para mim é dia santo.” Normalmente, ela faz a penitência caminhando pelas ruas de Caeté, mas dessa vez resolveu subir a serra“Só tenho a agradecer pela saúde e união da família.”

O pró-reitor do santuário, padre Carlos Antônio da Silva, ficou feliz de ver o empenho dos fiéis na longa caminhada“O povo sobe a montanha sagrada e vai deixando para trás dores, angústias e renovam a fé no Cristo ressuscitadoÉ um sinal gratificante do poder da fé, que nos dá coragem para enfrentar a vida, marcada por tanta decepção, violência e cansaço.” O pedreiro Luciney Eriberto da Silva, de 29, acompanhou a Via -Sacra carregando uma cruz e levando para o topo um pedido especial
“Minha mãe vai fazer uma cirurgia de catarata e vim rezar para que dê tudo certo.”