Jornal Estado de Minas

Pousada de Brumadinho onde casal morreu é parcialmente interditada pelo MP

Promotoria orientou a suspensão parcial, de modo cautelar, dos chalés da pousada e denunciou à Justiça o dono da pousada e um bombeiro hidráulico por homicídio culposo

Daniel Silveira

Pousada foi palco de tragédia para as famílias de dois jovens estudantes, que escolheram o local para comemorar aniversário de namoro - Foto: Tulio Santos/EM/D.A.Press

 

A Pousada Estalagem do Mirante, na Serra da Moeda, em Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi parcialmente interditada nesta sexta-feira pelo Ministério Público de Minas Gerais em conjunto com o Procon Estadual e a Polícia MilitarDos 16 chalés, oito foram interditados por utilizarem sistema de aquecimento a gás que estaria instalado de maneira irregularA medida foi tomada após a polícia concluir o inquérito sobre a morte do casal Gustavo Lage Caldeira Ribeiro e Alessandra Paolinelli Barros e constatar que eles foram intoxicadosAlém de suspender o serviço de hospedagem, o MPMG denunciou à Justiça o dono da pousada, Luciano França Drumond, e o bombeiros hidráulico que fez a instalação do sistema, Rodrigo Morais, por homicídio culposo (quando não há intenção de matar.

De acordo com o MPMG, o promotor de Justiça de Brumadinho William Garcia Pinto Coelho afirmou que além de apurar a responsabilidade criminal pela morte do casal, o órgão precisa agir para evitar que novas mortes ocorram no local, já que o defeito identificado no sistema de aquecimento coloca em risco a saúde e a segurança dos hóspedes

A suspensão parcial do serviço de hospedagem foi orientada pela Promotoria de Justiça de Brumadinho de forma cautelarSegundo a promotora de Justiça Maria Alice Alvim Costa Teixeira, os oito chalés só poderão voltar a receber hóspedes quando for apresentado pelos representantes da pousadadocumento técnico que comprove a segurança efetiva das instalações, com o devido aval do Corpo de Bombeiros.

O advogado Fernando Júnior, que representa o dono da Estalagem do Mirante, disse que ainda não foi notificado sobre a suspensão, mas adiantou que vai recorrer da medida que, segundo ele, não é cabível.

- Foto: Reprodução/Arquivo PessoalGustavo Lage Caldeira, de 23 anos, e Alessandra Paolinelli, de 22, morreram em março do ano passado, quando se hospedaram em um dos chalés da pousada para comemorar um ano de namoroNo inquérito policial de aproximadamente 700 páginas, a delegada responsável pelas investigações, Elenice Ferreira, conclui que o casal morreu asfixiado pelo monóxido de carbono que vazou do aquecedor a gás da banheira de hidromassagemO escape irregular do gás ocorreu devido a mudanças feitas no sistema de aquecimento por um bombeiro hidráulico autônomo, sem contratação de um profissional especializado ou elaboração de projeto técnico, de acordo com o laudo da Polícia Civil

Entenda o caso

14 de março de 2011
O casal de namorados Gustavo e Alessandra faz reserva na Estalagem do Mirante, em Brumadinho, onde vai comemorar o primeiro ano de namoroEles não informam a ninguém da família para onde vão viajar.

15 de março
Os namorados chegam à pousada no começo da tarde e se hospedam no Chalé LibélulaÀ noite, vão ao restaurante da pousada, onde jantam e tomam vinho

Retornam ao chalé e não são mais vistos pelos funcionários da Estalagem do Mirante.

16 de março
Gustavo e Alessandra não aparecem no restaurante para tomar café da manhã nem deixam a pousada às 12h, horário em que venceu o pacote de hospedagemUma empregada vai até o chalé, bate à porta, não é atendida e vai emboraMais tarde, essa mulher diria à polícia que ouviu barulho da banheira de hidromassagem em funcionamento.

17 de março
Alertada por amigos do casal que sabiam onde os namorados haviam se hospedado e estavam preocupados com a falta de notícias, a polícia liga para a pousadaEmpregados vão até o chalé, desligam a hidromassagem, ainda funcionando, abrem a porta e encontram os jovens mortos sobre a cama.

As primeiras investigações da polícia apontam para asfixia por monóxido de carbonoComo a lareira estava acesa, as principais suspeitas são de que o gás resultante da queima da lenha tenha intoxicado Gustavo e Alessandra.

27 de fevereiro
Quase um ano depois das mortes, a Polícia Civil divulga resultado do inquérito e confirma que namorados foram asfixiados pelo monóxido de carbono que vazou do sistema de aquecimento a gás da hidromassagem.

A polícia conclui ainda que obras irregulares no habitáculo do aquecedor, feitas pelo dono da pousada e por um bombeiro hidráulico autônomo, sem orientação de um engenheiro ou arquiteto, teriam permitido o acúmulo do monóxido produzido pelo aquecedorO gás vazou para o chalé e intoxicou os jovens quando eles estavam dormindo.

Luciano França Drumond, dono da pousada, e o bombeiro hidráulico Rodrigo Morais são indiciados pela polícia por homicídio culposo.