Jornal Estado de Minas

Cidades do interior sofrem com mau comportamento de motoristas

Na esteira do crescimento da frota, cidades do interior passam a conviver com a falta de educação dos condutores e a inexistência da fiscalização

Guilherme Paranaiba
Em Governador Valadares, mais da metade dos carros usa os estacionamentos rotativos sem pagar pelo serviço - Foto: Paulo Filgueiras/EM/DAPress
Estacionamento em local proibido, desrespeito à sinalização, trânsito parado, motoristas inabilitados, condutores embriagados e fiscalização inoperanteEstes problemas, antes só detectados nas grandes cidades por conta do tamanho da frota, não estão mais restritos às metrópolesO caos se espalha pelo interior, em cidades de médio porte, resultado perverso de três fatores: aumento vertiginoso do número de veículos, fiscalização ineficiente e falta de educação dos motoristasO Estado de Minas percorreu cinco cidades de Minas, Governador Valadares, Montes Claros, Divinópolis, Nova Serrana e Sete Lagoas, e constatou que nesses locais a obediência às leis de trânsito está se tornando uma raridade.

A expansão da frota no interior chama a atençãoSe nos 34 municípios da Região Metropolitana de BH o índice de crescimento foi de 125% nos últimos 10 anos, a situação nas demais regiões do estado é praticamente idêntica, com aumento de quase 124% no período, passando de 2,4 milhões de veículos em 2001 para 5,3 milhões em 2011, de acordo com os dados mais recentes do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), referentes a dezembro do ano passado.
Com tamanho volume de carros e motos nas ruas, sem o consequente aumento da capacidade de fiscalização e punição dos infratores, o terreno para o desrespeito à legislação e a ameaça à vida de pedestres, passageiros e motoristas, torna-se fértilEm Governador Valadares, no Leste do estado, onde o EM passou uma manhã, as infrações de trânsito são um fato corriqueiro, sem a autuação dos responsáveis.

Nas ruas do município, onde circulam 98.820 carros, motos, caminhões, ônibus e outros veículos, motoristas e motociclistas estacionam em qualquer lugar, avançam o sinal e põem em risco as vidas de ciclistas e pedestresEnquanto caminhava pela Rua Marechal Deodoro, a auxiliar de limpeza Acivone Rosa, 46 anos, se viu impedida de continuar seu trajeto graças a um caminhão bloqueando todo o passeio“Em uma situação dessas tenho que ir para a rua, onde o risco de ser atropelada é grandeO maior problema é que não existe fiscalização aqui na cidade”, diz ela.

Várias ruas do Centro de Valadares têm estacionamento rotativo, em que é obrigatório o uso do talãoNo quarteirão formado pelas ruas Bárbara Heliodora, Peçanha, Israel Pinheiro e Belo Horizonte, mais da metade dos carros estacionados não usava o talãoDurante as cerca de quatro horas que a reportagem percorreu as vias da região nenhuma autoridade de trânsito foi vista no local
Outro problema recorrente é a presença das motos, que são 37,4% da frota, nos estacionamento destinados aos carrosEm vários pontos há estacionamentos somente para motocicletas, mas todos ficam lotadosResta aos motoqueiros parar em meio aos carros, desordenando essas áreas sem pagar o rotativo.

Segundo a 8ª Companhia de Meio Ambiente e Trânsito da Polícia Militar, cerca de 200 acidentes em média ocorrem por mês na área urbana de Valadares e 70% têm o envolvimento de motoqueirosA fiscalização de trânsito é feita em conjunto com a prefeitura e seis policiais militares percorrem diariamente as ruas do Centro a pé“Realmente o efetivo é baixo para o tamanho da demanda, mas a curto prazo não vamos conseguir mudar essa situaçãoSó com o aumento do efetivo, aliado à educação dos motoristas, teremos condições de diminuir os abusos”, diz o tenente Audner Ferreira Bento.
Segundo a prefeitura, 18 agentes trabalham no trânsito em Valadares, sendo que metade atua no CentroO número vai aumentar, ainda segundo a prefeitura, por conta de um concurso público de 2010De acordo com o diretor de Transporte e Trânsito de Valadares, Marco Rios, ano passado foram 24.983 multas aplicadas, principalmente por falta de talão do rotativo, uso de celular e avanço de semáforo“Cerca de 50% da frota que circula em Governador Valadares, nos dias úteis, é proveniente de cidades vizinhas e muitos motoristas ainda insistem em não usar o talão por acharem que a exigência não se aplica aos seus veículos”, diz o diretorSobre o aumento da frota, a prefeitura garante estar trabalhando em projetos para melhor a circulação na cidade.

Mototaxistas

Com 152.910 veículos rodando nas ruas, entre os quais 66.127 carros de passeio e 64.173 motocicletas, Montes Claros, no Norte de Minas, enfrenta os mesmos problemas de trânsito que Governador Valadares, mas com um agravante: a atuação de cerca de 10 mil mototaxistas, segundo dados da Empresa Municipal de Planejamento, Gestão e Educação no Trânsito de Montes Claros (MC Trans)
A atividade não é regulamentada pelo município e, agindo na informalidade, os mototaxistas não cumprem a legislação de trânsitoEmbarcam e desembargam passageiros em qualquer lugar, não respeitam o limite de velocidade e a sinalização e contribuem para o aumento do número de acidentesTambém há pessoas inabilitadas prestando esse tipo de serviço, o que só agrava os riscos para quem circula pela cidade.

A MC Trans informa que vai regulamentar o serviço de mototaxi neste ano e que está sendo elaborado um anteprojeto, a ser encaminhado à Câmara de Vereadores do MunicípioA empresa diz que ainda não pode informar o número de mototaxistas que a cidade deverá ter quando o serviço vier a ser regulamentado, pois vai depender do projeto a ser aprovado pelos vereadoresAssegura que a regulamentação estabelecerá normas rígidas de segurança, como o uso de colete de identificação com o número da placa da moto e apresentação do atestado da inexistência de antecedentes criminais, além da carteira de habilitação.


Palavra de especialista

Osias Baptista Neto
Consultor em engenharia de transportes e trânsito

Faltam investimentos em trânsito

A expansão da frota no interior é uma tendência natural porque a facilidade de renda não é uma coisa típica apenas dos grandes centros e se espalha pelo estadoOs carros atuam como os gasesOnde há espaço livre, eles preenchemO grande problema é que essa facilidade de adquirir um veículo não combina com investimentos no trânsito nas cidades do interiorCom raríssimas exceções, as prefeituras do interior nunca se preocuparam com o tráfego urbanoQuando param para analisar os problemas, já não há mais o que fazerO mais correto é tomar medidas hoje pensando no futuro, principalmente adequando o uso do solo ao transporteNenhum lugar do mundo consegue aumentar o espaço disponível aos carros na mesma proporção em que a frota cresceA densidade de ocupação das vias é cada vez maiorEntão, é necessário operar o trânsito de uma maneira eficiente e que saiba administrar a diferença entre o volume e a capacidadePorém, para que isso ocorra, a fiscalização não deve permitir nenhum desrespeito,
o que não acontece principalmente no interior.