Um texto em tramitação na Câmara de Belo Horizonte divide a comunidade de um dos bairros mais tradicionais da capital, ameaça sua característica ainda predominantemente residencial e expõe uma preocupação curiosa para uma região que abriga uma grande unidade da Polícia Militar: a segurançaSe depender do Projeto de Lei 1.907/11, do vereador Leonardo Mattos (PV), o Prado, na Região Oeste, pode se transformar em um grande polo da modaPronta para seguir para plenário, a proposta já provoca racha entre associações de moradores e desperta discussões sobre os impactos no trânsito e na qualidade de vida do lugar, que abriga nada menos que 220 confecções e pode receber muito mais empresas, já que a intenção do autor da ideia é facilitar a concessão de alvarás
Para isso, o projeto altera regras de parcelamento, ocupação e uso do solo e cria a Área de Diretrizes Especiais (ADE) Polo da ModaAté entre comerciantes que aprovam a proposta, existe a preocupação com providências consideradas mais importantes, como reforçar o policiamento na regiãoMesmo com a presença da Academia da Polícia Militar, da Cavalaria e do Centro de Recrutamento e Seleção da corporação, eles denunciam que assaltos são praticados a qualquer hora do diaO bairro também ostenta um dos maiores índices de furto e roubo de carros da capital.
A bancária Ieda Duque, de 35 anos, considera que o bairro perdeu o clima de tranquilidade desde que foram abertas brechas para o comércio “Tradicionalmente, sempre foi um bairro residencial, mas foram surgindo muitos bares, lojas e confecções, o que aumentou o número de pessoas estranhas e de ladrões circulando pelas ruasO volume de carros também aumentouEra um bairro de pessoas idosasAgora, estão destruindo casas antigas para construir prédios
Para o bancário aposentado Antônio Gobbo, de 76, que mora há 42 anos na Rua Cuiabá, o bairro não tem infraestrutura para comércio“Não comporta tanta circulação de carros ou de pessoasAs ruas são estreitas e faltam praças”, disse Gobbo “Para piorar, transformaram algumas ruas do bairro em corredores com mão única”, reclama o aposentado“Antigamente, o Prado era uma cidade do interior dentro de Belo Horizonte”, disse.
Negócios
Nas ruas Cura D’Ars e Pompeia funcionam várias confecções, a maioria com as portas trancadas para se defender de assaltosOs clientes precisam chamar pelo interfone para ter acesso é liberadoA maioria dos estabelecimentos tem segurança físicaValéria Lara é gerente de uma confecção que está no bairro há 25 anos e diz ser favorável à criação de um polo comercial forte e competitivo, mas também reclama da insegurança“O bairro já é um polo da moda, mas é preciso agregar valores e ser mais divulgado”, disse
O prédio onde mora o comerciante Antônio Sérgio Silva, de 57, está cercado de confecções de alto nível
O tenente-coronel Luiz José Francisco Filho, comandante do 22º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo bairro, diz que os índices de criminalidade na região estão em queda e que a comunidade conta inclusive com o reforço do projeto Academia do Cidadão, que aproxima a polícia da populaçãoO capitão Cleverson Natal de Oliveira, chefe da Sala de Imprensa da PM, disse também estranhar as reclamações de lojistasEle lembrou que, além do policiamento de rotina, as unidades policiais do Prado levam a um aumento natural do tráfego de militares pela áreaNatal destacou a importância de os comerciantes levarem suas queixas à corporação.
Comissão
O vereador Leonardo Mattos reconhece que seu projeto é polêmicoMas argumenta que o Prado está perdendo exatamente porque há muitos pontos de comércio sem alvará “Essas pessoas e seus empregados trabalham ilegalmente e é indispensável a intervenção do poder públicoAlguns estabelecimentos ali instalados estão em desacordo com a Lei de Uso e Ocupação do Solo, como os instalados em ruas com menos de 10 metros ou os que têm acima de 300 metros quadrados de área”, disseEm audiência pública em dezembro, o parlamentar garantiu que depois da criação da ADE, seria composta comissão reunindo confeccionistas, sindicatos do setor, representantes da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Prefeitura de Belo Horizonte, vereadores e comunidade para acompanhar a preservação do bem-estar da população
Ponto crítico
criar um polo de moda beneficia o Prado?
Ricardo Cheid, presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Prado e Calafate (Amaprac)
SIM
“Sou a favor do projeto de lei, porque na prática o bairro já está virando polo da modaSe está naturalmente adquirindo essa característica, temos mais é que incentivarÉ preciso considerar que, como essas confecções são instaladas em casas antigas, é uma forma de preservar o patrimônio arquitetônico do bairro e barrar a verticalizaçãoAcho que a proposta não vai interferir na qualidade de vida dos moradores.”
Guilherme Neves, presidente da Associação S.O.SBairros, que representa o Prado, Calafate, Gutierrez e Barroca
NÁO
“Sou totalmente contrário a esse projeto de lei, porque bairro de moradia é bairro de moradiaEstão tentando implantar o polo da moda e expulsar os moradores do PradoA qualidade de vida do bairro já está ruim e vai piorarNão podemos deixar que o comércio tome conta de tudoVamos fazer o que for preciso, nos termos legais – mobilização, denúncia ao Ministério Público – para impedir a aprovação desse projeto de lei.”
Das carroças ao avião
O Bairro Prado teve papel importante na criação de Belo HorizontePela Rua Platina passavam carroças transportando material para a construção da nova capital mineiraEm 1909, foi inaugurado no bairro o primeiro hipódromo da cidade, o Prado Mineiro, pelo então prefeito Prado Lopes, de onde surgiu o nome do bairroMais tarde, o hipódromo deu lugar a um campo de futebol para disputas do Campeonato Mineiro, e também sediou o primeiro voo oficial de avião da cidade, em uma época na qual o aparelho era visto apenas pelas telas do cinemaHoje, as ruas Platina, Turquesa, Turfa e Avenida Francisco Sá abrigam o maior centro comercial do bairroNo lugar do antigo hipódromo foi construída a Academia Militar de Minas GeraisHoje, as casas antigas estão dando lugar a prédios e são poucos os imóveis que preservam quintais com jardins.