Jornal Estado de Minas

Cresce suspeita de emboscada na morte de brasileiros no Peru

Familiares de brasileiros dizem que celular foi usado um dia após as mortes para chamar um suspeito do crime e engenheiros peruanos

Sandra Kiefer

Engenheiro mineiro desembarcou em Lima e seguiu para Jaén, cidade no Norte do país onde faria estudos de viabilidade para construção de uma hidrelétrica - Foto: Paulo Henrique Lobato/ESP EM/D.A Press

Ganha força a hipótese de que o engenheiro mineiro e o geólogo paulista achados mortos no Norte do Peru em julho do ano passado, quando faziam estudos para instalação de uma hidrelétrica, foram vítimas de emboscadaFamiliares de Mário Guedes, de 57 anos, tiveram acesso a contas do telefone celular corporativo do geólogo e constataram oito ligações feitas em 28 de julho, um dia depois de que Guedes e o engenheiro Mário Bittencourt, de 61, foram encontrados perto de um trilha em área de selva próxima à cidade de JaénEntre as ligações feitas no aparelho, segundo familiares, figuraria o número de Jesús Sánchez, dono da cabana na beira da estrada por onde os brasileiros passaram, e que, segundo investigações preliminares, teria oferecido água ao grupo no início da caminhadaSánchez e Juan Zorrilla Bravo, líder comunitário que já participou de manifestações contra hidrelétricas na região, são investigados por assassinato pelo Ministério Público peruanoSegundo consta no inquérito, Zorrilla teria indicado caminhos errados a peruanos que faziam buscas na região.

Há registro ainda, segundo familiares, de chamadas para os números de telefone dos pesquisadores peruanos José Antonio Suazo Bellaci, de 38 anos, e Fausto Edurino Liñan Turriate, de 55, que acompanharam os brasileiros na caminhada na área da florestaOs dois trabalham na SZ, empresa peruana contratada pela companhia brasileira Leme Engenharia para dar suporte a Guedes e Bittencourt naquele paísPara familiares dos brasileiros, os telefonemas feitos com o celular corporativo depois da morte dos brasileiros reforça a suspeita sobre os peruanos

“Desde o primeiro momento, digo que eles caíram em uma emboscada”, protesta Fátima Bittencourt, viúva de Mário BittencourtEla denuncia que os celulares dos brasileiros haviam sumido misteriosamente no início das investigações, bem como a roupa que eles usavam e suas máquinas fotográficas, que inclusive teve uma das fotos apagadasPor intervenção dos parentes, que estiveram em reunião no Peru apoiados pela Leme Engenharia, empresa mineira onde os dois trabalhavam, a discriminação dos telefonemas discados a partir do aparelho de Guedes passou a ser anexada como prova no inquérito policial

Passados mais de seis meses de investigações, até hoje não há avanços nos trabalhos conduzidos pela Fiscalía de Cumba, misto de promotoria e delegacia de polícia, encarregada de investigar o caso no Peru

Insatisfeitos com o andamento das investigações, os familiares têm feito investigações paralelas para apurar o suposto assassinato por envenenamentoDesde que os brasileiros foram encontrados mortos, em 27 de julho, a Fiscalía ainda não prendeu os suspeitos, não quebrou sigilos fiscais e telefônicos nem concluiu o laudo do médico legista indicando a causa da morteA data de encerramento do inquérito estava prevista para o dia 12 de janeiro e já foi prorrogada por três vezes a pedido da família, que pediu mais tempo para apurar as circunstâncias do crime

Sem resultado

Segundo a diplomata Marise Nogueira, chefe do setor consular da Embaixada do Brasil no Peru, até que se esgote o prazo máximo da fase preliminar de inquérito, previsto para 18 de fevereiro, o delegado responsável pela investigação terá de se pronunciar pelo arquivamento provisório ou definitivo do processoOutra opção é abrir processo penal contra os suspeitos que ele tenha encontrado de homicídio, já que houve morte em condições não esclarecidas“Se ele se pronunciar pelo arquivamento , cabe recurso de parte da família, mas em nossa última conversa ele dizia que não havia indícios suficientes para provar que houve homicídioEle ainda tem um mês pela frente, mas o laudo foi inconclusivo”compara

A Leme Engenharia, por meio de assessoria de imprensa, informa que contratou um advogado no Peru para acompanhar o caso e um perito daquele país para colher amostras extras que foram enviadas ao Brasil para análise suplementarAcrescentou que pediu exames particulares nas roupas, máquinas fotográficas e celulares usados pelos profissionais durante a missão e forneceu os resultados ao Ministério Público peruano, de modo que fossem anexados ao processo de investigação.

Entenda o caso

23 de julho: O engenheiro mineiro Mário Augusto Soares Bittencourt, de 61 anos, e o geólogo paulista Mário Gramani Guedes, de 57 anos, desembarcaram em Lima e seguiram de avião para Chiclayo, no Norte do país, e de lá, de carro, para Jaén, a 600 quilômetrosEles foram fazer estudos de viabilidade para construção de uma usina hidrelétrica na região da floresta amazônica peruana.

25 de julho:
O trabalho de campo começou cedo
A dupla brasileira, um engenheiro e um geólogo peruanos caminharam por uma estrada por cerca de duas horas e meiaSegundo o depoimento dos peruanos, Bittencourt sentiu dor no joelho e se sentou à beira da estrada
Guedes e os colegas seguiram por um trecho e quando voltaram, meia hora depois, o engenheiro mineiro já não estava mais lá Guedes, então, decidiu esperar no local pelos peruanos, que tentaram acesso por outra trilha para chegar ao Rio Marañon
Os peruanos contaram à polícia que retornaram uma hora depois e Guedes também não estava no localEles pensaram que os dois brasileiros haviam retornado para o carro, onde o motorista os aguardava.
De acordo com o inquérito peruano, os funcionários da SZ Engenharia só perceberam o desaparecimento quando um outro colega, responsável pela logística, levou água aos pesquisadores e comentou que não havia cruzado com os brasileiros na estrada

27 de julho:
Os dois corpos foram encontrados pela polícia peruana às 8h, a 100 metros da estrada principal, em área de cerradoA distância entre os dois era de 200 metrosNada foi roubado e não havia marcas de violência, segundo a polícia.
Segundo o engenheiro e o geólogo peruanos, dois camponeses são investigados pela morte de Bittencourt e GuedesUm deles, Juan Zorrilla Bravo, é líder comunitário e participou de manifestações contra usinas hidrelétricasEle teria atrapalhado as equipes de busca, conforme depoimento dos peruanosO outro, Jésus Sanchéz, teria oferecido água aos brasileiros no início da caminhada
A pedido das famílias, amostras foram trazidas para serem analisadas no BrasilNa semana passada, autoridades peruanas fizeram reconstituição, com a participação de ZorrillaOs acusados negam envolvimento nas mortes.

31 de agosto:
O Instituto Médico Legal (IML) de Brasília divulgou que as análises histopatológicas e do exame toxicológico, que não detectaram nenhum tipo de veneno para os padrões e dosagens pesquisadosOs testes foram feitos com pelo menos 10 tipos de veneno mais frequentes em casos de assassinato.

1º de setembro:
O Instituto Médico-Legal (IML) de Belo Horizonte confirmou que o engenheiro mineiro não morreu de causas naturaisExames minuciosos  não são conclusivos para análises toxicológicasPeritos analisara 816 substâncias e não encontraram elementos comuns em envenenamentos, como medicamentos, estricnina, cianureto ou arsênico
Venenos de ervas, répteis e anfíbios também não foram detectados porque se desintegram com o corpoNenhuma mordida de cobra foi identificada
Segundo o IML, duas hipóteses não puderam ser descartadas: a de envenenamento por substâncias orgânicas e de sufocamento.

16 de setembro:
Os testes laboratoriais feitos em Lima tiveram resultado inconclusivo Os exames de sangue tiveram resultados negativos para as substâncias investigadas, assim como das amostras de tecidos estudados porque as células já estavam em decomposiçãoUm advogado contratado pela Leme Engenharia enviou as roupas das vítimas para perícia particular, que apontou sangue e vômito, indícios de envenenamento.

4 de dezembro:
Inquérito deveria ser concluído nesta data, mas ´e prorrogado para 12 de janeiro

12 de janeiro:
Conclusão do inquérito é prorrogado mais uma vez, para 18 de fevereiro.