Jornal Estado de Minas

Mineira conta como sobreviveu a incêndio do Gran Circo Norte-Americano

Há pessoas que vivem uma eternidade reclamando da monotonia. Quase nada de relevância lhes acontece, nem por bem nem por mal. Outras têm suas vidas transformadas, reviradas em segundos, em minutos, em horas. É o caso de Lenir Ferreira Queiroz Siqueira, mineira de General Carneiro, distrito de Sabará, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Aos 74 anos, ela é procurada mais uma vez para contar a história de um dia que começou feliz e terminou em tragédia, com o incêndio do Gran Circo Norte-Americano, há 50 anos, em Niterói (RJ). Lenir sobreviveu, mas o marido e os dois filhos, uma menina de 2 anos e um menino de 3, não escaparam. De acordo com dados oficiais, 503 pessoas morreram, a maioria crianças.



Lenir teve que reviver tudo por causa do lançamento, pela Companhia das Letras, do livro O espetáculo mais triste da Terra – o incêndio do Gran Circo Norte-Americano, obra do jornalista e escritor Mauro Ventura. Lenir não sobreviveu apenas ao incêndio ocorrido em 17 de dezembro de 1961. Sobreviveu ao trauma, à dor da perda, enfim, a todas as feridas abertas na alma e que quase consumiram a sua razão, e às marcas físicas deixadas pelo fogo, a maioria presente na sua memória e algumas eternamente gravadas no corpo. Sobreviveu porque descobriu que a vida não é só dela. Entendeu que seria demasiadamente egoísta se não continuasse dividindo-a com a família e os amigos, que tanto pediram e rogaram, aos objetos de sua fé, pela recuperação daquela mulher lançada a uma das maiores tragédias deste país.

Os pais de Lenir moravam em Belo Horizonte. Já tinham um filho, José Marcelo, quando foram passar uma temporada em General Carneiro, na casa de uma das avós da criança. Tempo suficiente para Lenir nascer. Depois, vieram William e Lais. O casal decidiu criá-los em Caeté, também na Grande BH. "Éramos felizes. Adoro Caeté. Quando vim para o Rio de Janeiro, viajei de trem, o Vera Cruz, que saía de BH. Por falar nisso, a estação de Caeté era linda. Hoje não é mais. Sempre que posso vou lá visitar meus sobrinhos e sobrinhas, filhos do meu falecido irmão William", conta Lenir. Foi lá que ela se casou com Wilson de Queiroz Siqueira. Ele com 26 anos e ela com 24.

Encontro

"O Wilson era meu primo em primeiro grau. Era perito-contador e morava em Niterói. Um dia foi visitar a nossa avó, em General Carneiro. Lá nos encontramos." O namoro terminou em casamento e o rapaz a levou no Vera Cruz para o Rio. "Eu não conhecia o mar. Ele me mostrou tudo. Quando chegamos em Niterói, não havia mais nada no escritório que ele tinha com o sócio, além de contas a pagar. Ficou desolado. Mas, como estávamos em lua de mel, a vida continuou.” A felicidade do casal se completou com o nascimento de Regina e, depois, de Roberto. Tudo ia bem até as trombetas do grande circo soarem em ruas e avenidas de Niterói.



"Wilson era louco com circo. Havia um, pequeno, na cidade. Ele se encantava, ria, se divertia. Uma dia, houve um desfile na cidade. Era o grande circo chegando." O palhaço à frente anunciava a chegada do espetáculo. Atrás deles, trapezistas, contorcionistas, amazonas, mágicos e os animais. Macacos, elefantes, a girafa…. "Ele chegou em casa numa alegria imensa. Dizia que iríamos ao circo. E comprou os ingressos.” Às 15h daquele domingo, 17 de dezembro de 1961, dois dias depois da estréia do gran circo, Wlison, com filha de 3 anos no colo, e Regina, com o menino de 2, já estavam sentados na primeira filha das arquibancadas de madeira, em meio a cerca de 3 mil espectadores, encantados com a abertura do espetáculo.

"Ele havia comprado os ingressos para a parte de baixo, perto do picadeiro. Eu estava lá, sentada, mais não me sentia bem. Às vezes, triste, apagada, como se pressentisse algo." Perto das 17h, quase no fim do espetáculo, o apresentador anunciou o número com o urso. O animal iria dançar e passar por dentro de círculo de metal. "Tudo era muito bonito, as roupas, as luzes, os artistas… De repente, todos olharam para cima, porque alguma coisa começara a pipocar e alguém gritou: “Fogo!” Todos começaram a correr, empurrando, atropelando, pisoteando. O fogo tomou conta do circo. Derrubava tudo sobre a gente. Eu tentava correr, sem desgrudar do meu filho, até cair." Lenir ficou inconsciente e acordou com voz de um bombeiro: "Quem estiver vivo levante as mãos".

Cirurgias

"Levantei a minha mão e eles me tiraram do meio daquele monte de gente. Na ambulância, insisti que precisava esperar pelo meu marido e os filhos. Mas diziam: ‘Eles já foram socorridos. Temos que ir logo. Fui levada para o Hospital Municipal Antônio Pedro, em Niterói." Lenir tinha queimaduras na cabeça, nas costas, nos braços, mãos e pernas. Lenir ficou nove meses no hospital. Passou por muitas cirurgias e conheceu o então jovem cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que engrossou o grupo de voluntários a serviço das vítimas da tragédia.



Nos primeiros dias, semanas e até meses ela ficou sem saber que o marido e os filhos estavam mortos. "Eu perguntava por eles e respondiam que estavam no Rio, neste ou naquele hospital. Mas nada batia. Um dia recebi a visita de uma tia e ela dizia: 'Lenir, você vai ter que ser muito forte, muito forte mesmo, porque vai passar por um período triste, difícil'. Eu respondi à minha tia que já sabia de tudo. Ela disse: 'Graças a Deus que você já sabe, porque ninguém queria te contar’. Ela caiu direitinho e minha ficha também. Tinha acabado de fazer um enxerto. O enxerto caiu. Não sentia vontade de viver. Não pensava em suicídio, mas queria morrer." A mãe de Lenir deixou tudo para trás em Caeté e foi para Niterói ficar ao lado da filha.

Memória - Na versão oficial, vingança provocou 503 mortes

Numa época em que televisão era privilégio de poucos, o circo e o cinema eram a diversão das famílias, especialmente nos fins de semana. A arte circense, então, apresentava-se sedutora. As crianças enlouqueciam. Foi com esse prestígio e com a fama de ser o maior da América Latina que o Gran Circo Norte-Americano entrou em Niterói no início de dezembro de 1961, com seus 60 artistas e cerca de 150 animais. Naquele tempo, todos desfilavam pelas ruas. Os palhaços à frente. Meninos, moradores da cidade, se incorporavam ao cortejo e ganhavam entrada grátis para ajudar os palhaços. Quando ele gritava "hoje tem marmelada, hoje tem goiabada, e palhaço, o que é?" Os garotos tinham que responder, em coro, "é ladrão de mulher". O circo iria estrear uma nova lona, feita de material inflamável. Para montar a imensa estrutura, na Praça do Expedicionário, Centro de Niterói, o dono do circo, Danilo Stevanovich, contratou 50 trabalhadores da cidade, entre eles Adílson Marcelino Alves, o Dequinha, um desequlibrado, com ficha na polícia por furto. Trabalhou dois e foi demitido. Inconformado, segundo as investigações, ficou rondando o circo desde a noite de estréia, com lotação esgotada, em 15 de dezembro. No dia 17, Dequinha chamou José dos Santos, o Pardal, e Walter Rosa dos Santos, o Bigode, para ajudá-lo a se vingar de Danilo. Com gasolina, ainda de acordo com o inquérito, incendiaram o circo, com 3 mil espectadores. Oficialmente, 503 pessoas morreram, queimadas e pisoteadas, 70% delas crianças. Dequinha foi condenado a 16 anos de prisão e a mais seis anos de internação em manicômio judiciário, como medida de segurança. Em 1973, depois de fugir da prisão, foi assassinado. Bigode recebeu 16 anos de cadeia e mais um ano em colônia agrícola. Pardal foi condenado a 14 anos de prisão e mais dois em colônia agrícola.

Força para recomeçar

A chegada da mãe foi fundamental para Lenir se reeguer e descobrir que a vida não era só dela. "Quando a vi, cabelos branquinhos, ao lado da cama, com o rosto banhado de lágrimas, decidi que iria viver. Minha mãe amava tanto os netos, os filhos… Não poderia deixá-la." Quando saiu o hospital, Lenir foi para a Associação Fluminense de Reabilitação. "Lá encontrei várias crianças com todos os tipos de necessidades especiais, principalmente a síndrome de Down. Crianças que não conseguiam nem sequer botar um biscoito na boca. Eu me envolvi com elas e fui reforçando o desejo de viver." Lenir havia perdido dois dedos da mão direita e, mesmo sem eles, começou a se exercitar na máquina de escrever do escritório da associação, pois havia trabalhado em Caeté como datilógrafa. Depois da alta ganhou o emprego no escritório e lá trabalhou durante 37 anos e se aposentou.



"Agradeço muito também os moradores de Niterói pela solidariedade. Foi difícil reconstruir a vida, mas consegui com o que ganhava com o meu trabalho. Tive apoio e uma assistência médica maravilhosa." Lenir só não ganhou indenização e só anos depois soube que havia sido criado um fundo para ajuda às vítimas da tragédia. Ela não se casou novamente. Mora com a irmã, Laís, em Niterói. As duas cuidam de José Marcelo, que já sofreu cinco derrames. Ele tem uma filha casada, com dois filhos. Lenir trata os sobrinhos como netos. "A família é tudo. Adoro minha família. Já fui várias vezes a Caeté ver meus outros sobrinhos e sobrinhas. Adoro aquela cidade. Adoro Gerneral Carneiro, Belo Horizonte. Adoro Minas Gerais, minha terra.

Lenir passou outro susto com fogo. "Minha irmã saiu e trancou o apartamento comigo dentro. Não sei porque. Houve um incêndio no apartamento de cima. O fogo caiu no toldo da janela do meu quarto e depois na minha cama e no guarda-roupa. Queimou tudo, menos uma Bíblia. Só chamuscou a capa grossa. Mais uma vez, o pessoal foi solidário. Ganhei tanta roupa que ainda tenho algumas. É a fé. E a mensagem que deixo é que ninguém vai antes da hora. Estamos neste mundo para viver o presente. Pelo passado não adianta chorar mais. Para vivermos o amanhã precisamos estar bem hoje. Então, nosso momento é agora. Procuro viver bem o máximo possivel, com muita fé em deus. Tenho uma família maravilhosa que me ama. Então, não me falta nada."