Jornal Estado de Minas

Baixo nível na Lagoa da Pampulha expõe degradação causada por esgoto e lixo

Antes de começar a caminhada do fim de semana, na manhã de sábado, o casal Giovani Bastos, de 29 anos, e Fabiana Teixeira, de 26, já sentiu o mau cheiro no ar. Um odor ardido de esgoto e lixo invadiu o ambiente no café da manhã. Eles descobriram a fonte ao sair de casa, no Bairro Bandeirantes, em direção à Lagoa da Pampulha. Para evitar estragos com a chuva, a prefeitura abriu as comportas da represa na sexta-feira, baixando o nível em 30 centímetros. Foi o suficiente para expor uma amostra grotesca do lixo sob as águas poluídas e cobertas por algas: peixes mortos, garrafas PET, recipientes de cosméticos, vasilhas de lubrificantes, latas de sprays e detergentes exalavam odor fétido parecido com o de um chiqueiro. “Que cheiro terrível. Se quem mora já não gosta, imagine o visitante”, reclamou o gerente de postos Giovani.



Conforme o EM antecipou ontem com exclusividade, o inédito Atlas da Qualidade da Água do Reservatório da Pampulha, do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios (LGAR) da UFMG, que será publicado em janeiro, aponta a situação crítica da lagoa, que recebe lixo e esgoto de oito córregos. Os afluentes, infestados de ligações de esgotos, descarte de lixo e entulho, despejam 54,88 toneladas de dejetos anualmente no reservatório. São 150 quilos por dia, fora o lixo. Só para se ter uma ideia, de acordo com especialistas, uma gota de poluição torna 1.000 litros d’água contaminados.

O atlas aponta políticas prioritárias para que a lagoa, que compõe o conjunto arquitetônico idealizado por Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer, seja despoluído até as copas das Confederações (2013) e do Mundo (2014). O monitoramento dos córregos que deságuam na lagoa deve ser intensificado, os esgotos precisam de tratamento biológico, a drenagem urbana carece de melhorias para assoreamento e enchentes. Paralelamente a isso, toda a fauna e flora da bacia hidrográfica precisaria ser recomposta e as espécies exóticas removidas, enquanto a verticalização da orla deve ser combatida e a educação ambiental disseminada em escolas e programas especiais.

Enquanto projetos de despoluição da prefeitura e da Copasa não se tornam realidade, medidas paliativas, como o esvaziamento da lagoa, contenção de aguapés e remoção de lixo flutuante, continuam sendo adotadas, como ocorre desde a década de 1990. Políticas sem impacto significativo, segundo especialistas, e que obrigam visitantes a conviver com odores repugnantes e degradação ambiental. “A despoluição definitiva da Lagoa da Pampulha só ocorrerá com investimentos fortes. É preciso captar os esgotos e tratar a água e o ecossistema que sofreu por todos esses anos de contaminação”, afirma o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho, coordenador do LGAR.



Investimentos Com outros planos, a Copasa e a PBH afirmam ter suas próprias iniciativas para acabar com a poluição e restaurar a beleza e a pureza das águas do reservatório. De acordo com o gestor da Meta 2014 da Copasa para despoluição da Lagoa da Pampulha, Valter Vilela Cunha, R$ 102 milhões financiados pela Caixa Econômica Federal serão investidos para encontrar e dar tratamento adequado a 8 mil pontos de esgotos de dezenas de bairros de Belo Horizonte e de Contagem. Eles poluem diretamente os ribeirões que deságuam na lagoa.

“Vamos implantar, até 2013, 45 quilômetros de rede coletora, 21 quilômetros de interceptores e 13 quilômetros de urbanização em fundos de vales. Levaremos à Estação de Tratamento de Esgoto do Onça 100% do esgoto coletado pela Copasa. Hoje, são 62%”, planeja Cunha.

A PBH informou que vai licitar no ano que vem um projeto para despoluir as águas e drenar cerca de 750 mil metros cúbicos de detritos que assorearam a lagoa. O custo é estimado em mais de R$ 100 milhões, mas a administração municipal não revela quais métodos serão empregados, se dragas potentes ou o uso de agentes químicos.



Com 23 anos de trabalhos na Lagoa da Pampulha, o biólogo Ricardo Coelho conta que um dos processos estudados pela prefeitura é a purificação da água por gás ozônio. “É uma técnica inovadora, mas que ainda foi pouco testada. Foi desenvolvida na Universidade de Miami (EUA), e um grupo brasileiro detém seus direitos de uso aqui”, afirma Coelho. “Nosso objetivo é tornar a água limpa o suficiente para realizar transporte aquático sobre ela até a Copa de 2014”, espera Cunha.

Pescaria arriscada na água contaminada

Sentados na beira do gramado, sob a sombra de uma árvore frondosa, dois pescadores atiram sua linha na Lagoa da Pampulha à procura de lazer e de um belo pescado para o fim de semana. Personagens fáceis na orla, eles não se intimidam com a camada grossa de algas mortas e onde mergulham suas iscas ou com as placas que alertam sobre o perigo de pescar. “Sempre peguei peixes aqui. Dizem que a lagoa está poluída, mas nunca vi ninguém morrer de comer os peixes”, diz o pedreiro João Batista da Silva, de 63 anos, que foi para a pescaria com um amigo.

O que os dois não sabem é que a fauna e a flora da lagoa estão contaminados por metais pesados, como chumbo, cádmio e zinco. São elementos tóxicos que se desprendem de eletrodomésticos atirados nos afluentes da lagoa e vão parar no principal cartão-postal da capital. De acordo com o Atlas da Qualidade da Água do Reservatório da Pampulha, do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios (LGAR) da UFMG, amostras da musculatura e do fígado de peixes da Pampulha atestaram índices graves de contaminação. O chumbo, por exemplo, metal que acumula nos ossos humanos com o tempo, chegou a 7 mg/g, quando a legislação nacional, de 1977, não recomenda consumo acima de 0,8 mg/g. Quem consome a carne desses animais acaba exposto a quase nove vezes o recomendado.



O problema que mais causa repulsa nos frequentadores da lagoa é a grossa camada de algas mortas que retém lixo e exala odor desagradável. De acordo com o atlas, a clorofila medida no lago aponta para concentrações de até 2,85 gramas de algas para cada litro d’água. Com a morte dos organismos aquáticos, formam-se camadas malcheirosas de mais de cinco centímetros. “Quando morrem e se decompõem, as cianobactérias desprendem gás sulfídrico, que é tóxico e responsável pelo mau cheiro que incomoda os visitantes”, atesta o coordenador do LGAR, o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho.

A poluição acelera o ciclo de degradação. “Esses organismos são fertilizados pela poluição que chega dos córregos que abastecem a Pampulha. Encobrem a lagoa, impedem a entrada de luz e a produção de oxigênio”, afirma Coelho. As maiores concentrações ficam entre os bairros Bandeirantes, Braúnas, Garças e Copacabana, que concentram às suas margens atrações turísticas como o Parque Ecológico, o Zoológico, o clube AABB, exatamente onde a prefeitura instalou uma rede para conter lixo e aguapés.

“A gente vem no fim de semana que tem folga para exercitar e encontra esse mau cheiro e lixo para todo lado. A Pampulha está abandonada. Deve receber só uma maquiagem para a Copa de 2014 e depois voltar ao normal”, critica a jornalista Larissa Ferreira, de 27 anos, que se exercita na orla.