Jornal Estado de Minas

Poluição já encolheu o espelho d'água da Lagoa da Pampulha em 20%

Mateus Parreiras
O lixo e o esgoto levados pelos oito córregos que deságuam na Pampulha são responsáveis pela redução de 20% do porte da lagoa nos últimos 20 anos, de acordo com o Atlas da Qualidade da Água do Reservatório da Pampulha
Dos 13,75 milhões de metros cúbicos totais, foram perdidos 2,75 milhões de metros cúbicos de água para o assoreamento e o depósito de lixoO volume é comparável ao de 1,4 mil piscinas olímpicas cheiasO reflexo disso são o aparecimento de ilhas de areia e redução das profundidades em vários pontos, principalmente entre os córregos Sarandi, Ressaca, Água Funda, AABB, Olhos D’Água e Braúnas.

Dos 247,67 hectares totais de área do espelho d’água, 53,5 (21,6%) estão completamente assoreados, de acordo com o levantamentoSegundo a Copasa, cerca de 8 mil ligações de esgoto possíveis com a rede coletora das ruas não foram feitas dentro da bacia da Pampulha, o que pode indicar que toda essa gente atira seus resíduos domésticos de forma irregular, contaminando os córregos que levam à Lagoa da Pampulha“Nesses lugares, as pessoas despejam os esgotos em córregos que formam a bacia da Pampulha e também na rede de escoamento pluvial, que invariavelmente chega aos ribeirões”, afirma o gestor da Meta 2014 da Copasa para despoluição da Lagoa da Pampulha, Valter Vilela Cunha.

Segundo ele, 90% dessas residências se encontram em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte“Alguns bairros da capital ainda lançam esgoto de forma prejudicial na região do Córrego Braúnas, na Vila Antena, nos bairros Glória e Jacareí, por exemploEm Contagem, o esgoto a céu aberto corre pelas ruas dos bairros Nacional, Bom Jesus, Chácara Cotias, Morada Nova, Vila Colorado”, enumera.

“Ninguém é obrigado a usar a rede da Copasa, mas essa situação de poluição extrema tem de ser freada ou a Pampulha não será despoluída até a Copa do Mundo de 2014Há projetos da Copasa e da prefeitura para isso, no valor de mais de R$ 200 milhões, mas o esgoto precisa parar de correr para a lagoa”, afirma o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho, da UFMG.
Em declarações anteriores, as promotorias de Justiça do Meio Ambiente, Patrimônio Histórico e Cultural, Habitação e Urbanismo do Ministério Público Estadual (MPE) chegaram a afirmar que multariam por crime ambiental as famílias que atiram seus esgotos em córregos que abastecem a Lagoa da PampulhaPorém, o que muitas dessas famílias reclamam é que a própria Copasa não lhes fornece opçãoOu seja, não há rede coletora nas ruas onde vivem para esgotar seus resíduos, ainda que quisessem.

É o caso das vizinhas Elda Gomes da Silva, de 31 anos, e Maria Mercedes de Aguilar, de 67
Moradoras do Bairro Braúnas, na Região da Pampulha, elas despejam seu esgoto em tubulações individuais que desembocam no Córrego Água FundaO curso d’água, de acordo com o Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios (LGAR), da UFMG, é o que tem as águas mais poluídas, ainda que seu pequeno volume seja responsável apenas por 7% da sujeira da lagoa.

As duas moram em uma estreita rua de terra cercada por mato alto, atrás do zoológicoQuando perguntadas sobre o nome da rua onde vivem, a resposta causa espanto“Isso daqui é uma avenidaNo papel tem até esgoto e asfaltoAvenida João Batista Drumond”, ironiza a dona de casa Elda GomesSem opções, ela não tem qualquer pudor em confirmar que despeja seu esgoto no ribeirão"Jogo tudo (esgoto) aí mesmo (Córrego Água Funda)Não tenho outro lugar para jogar, porque a rede da Copasa não existeSe tivesse rede, jogava nela
Aí, a água suja não voltava para meus banheiros e cozinha quando a chuva enche o ribeirão", reclama"A gente não gosta de jogar o esgoto no riacho (Córrego Água Funda)O mau cheiro acaba ficando para a gente mesmo", pondera a aposentada Maria Mercedes.

COPASA De acordo com a Copasa, o programa Caça-esgotos, de levantamento e supressão de lançamentos clandestinos de resíduos, em conjunto com outras ações, conseguiu reduzir em 50% a poluição dos córregos Ressaca e Sarandi Hoje, 62% do esgoto local é canalizado para a rede coletoraA empresa, contudo, não informou se não há rede de esgoto nas ruas onde vivem as pessoas que alegam ser esse o motivo do despejo de seus dejetos nos córregos e ruasA Prefeitura de Belo Horizonte informou que limpa os canais do Ressaca e do Sarandi uma vez por ano.

Nenhum promotor se dispôs a falar sobre a despoluição da Lagoa da Pampulha e da situação das pessoas que poluem os córregos para não pagar a taxa de esgoto – que gira em torno de R$ 6 – ou porque não dispõem de rede coletoraO resultado é a poluição se acumulando pela lagoa, principalmente nos pontos históricos como a Casa do Baile, o Museu de Arte e a igrejinha de São Francisco de AssisPontos que moradores da cidade e visitantes costumam querer guardar recordações, mas voltam com péssimas impressões “É uma vergonha o estado em que deixaram a Pampulha chegarNão adianta nada ter os prédios bonitos e monumentos se estão no meio da poluição”, afirma o técnico em informática Alvair de Oliveira Júnior, de 28 anos Diariamente, ele caminha pela orla com a mulher, a turismóloga Wilney Almeida Carmo, de 38.


MEMÓRIA

De símbolo a vergonha

Um dos símbolos da capital mineira, a Lagoa da Pampulha foi construída com o represamento de córregos da região, em 1938, na administração do prefeito Otacílio Negrão de LimaMas foi no governo de Juscelino Kubistchek (1940 a 1945) que o lago recebeu tratamento urbanístico encomendado ao arquiteto Oscar NiemeyerO projetista carioca criou o Cassino, a Casa do Baile e a Igreja de São Francisco de Assis, que recebeu ainda jardins de Burle Marx, pintura de Cândido Portinari, azulejos de Paulo Werneck e esculturas de Ceschiatti, Zamoiski e José PedrosaEm 1954, a represa rompeu na altura do aeroporto da Pampulha, inundando várias partes da estruturaA reconstrução terminou com a inauguração do presidente Getúlio VargasEntre os anos 1950 e 1960, a região começou a sofrer uma intensa especulação imobiliária, pois a elite da cidade queria morar nos arredores do cartão-postalO entorno da lagoa sempre foi usado para recreaçãoMuitos aproveitam suas pistas com mais de 18 quilômetros para caminhar, correr e pedalarAo longo dos anos, mais atrações se somaram à orlaO cassino se tornou o Museu de Arte da PampulhaForam erguidos também o Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, o ginásio do Mineirinho, o Jardim Botânico, o Jardim Zoológico e o Parque EcológicoA degradação se acelerou na década de 1970, com a proliferação de caramujos transmissores da esquistossomose, a proliferação de mosquitos, plantas aquáticas e cianobactériasEm 1998, foram cinco operações de limpeza na Lagoa da Pampulha, com mais de 200 toneladas de lixo retiradasOitenta homens da equipe multitarefa da SLU e de várias regionais participaram do trabalho de limpezaEm 2004, cerca de 2.000 toneladas de lixo foram retiradas da lagoaAtualmente, as medidas da prefeitura são meramente mitigadoras, com dragagens parciais, e a retirada de lixo e de aguapés da superfície do lago

ANÁLISE DA NOTÍCIA

O que dizer aos turistas em 2014?

Paulo Nogueira
Vergonha! Esse será o nosso sentimento em relação aos turistas que chegarem a BH para a Copa de 2014Com certeza, vão querer conhecer o principal cartão-postal de BH, onde está o conjunto arquitetônico planejado por JK e Oscar Niemeyer e conhecido em todo o mundoE é lá que está o Mineirão, onde haverá jogos do MundialO que diremos aos turistas diante da lagoa fétida? Há investimentos em  em hotéis e no sistema viário, mas a Lagoa da Pampulha continuará literalmente podre até 2014? Por que não é despoluída? Por falta de dinheiro, de vontade política ou de competência? Será porque esgoto não dá voto?

Repórter registrou os problemasVeja: