Jornal Estado de Minas

Anel Rodoviário terá ao menos mais 18 meses de perigo

Adiamento da reforma do Anel de janeiro de 2012 para junho de 2013 causa indignação e expõe risco de novas tragédias. Trinta pessoas já morreram em acidentes na via este ano

Jefferson da Fonseca Coutinho

  Com 26,5km de extensão, Anel é palco de problemas diversos, desde rota de fuga de criminosos até acidentes graves - Foto: JUAREZ RODRIGUES/EM/D.A PRESS

 

Um susto próximo à Praça São VicenteO utilitário chapa branca, apressado, corta pela direitaSe não fosse a habilidade do nosso motorista, seria outra equipe do Estado de Minas a fazer a reportagemCena que se repete para aqueles que se aventuram no Anel Rodoviário, traço crítico que corta Belo Horizonte e região metropolitanaAo menos até 2013, os problemas vão continuar: acidentes que mutilam e matam; rota de fuga de ladrões de carro (segundo a Polícia Civil, eles se aproveitam da proximidade do bairro com a estrada), pichações nos imóveis ao longo da marginal; homens, mulheres e crianças em iminente risco de vida por atropelamento vão continuar a escrever o capítulo triste da história do Padre Eustáquio e dos bairros vizinhos marcados pela via de muitas mortes

E os números são assustadoresSó neste ano já foram 30 mortes e 831 feridos em 2.512 acidentes no AnelUm forte motivo para a indignação com o adiamento de janeiro de 2012 para junho de 2013 das obras da rodovia pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) Nilton Munhoz, de 71 anos, motorista há meio século, conhece bem as agruras da regiãoHá 30 anos de plantão na Praça São Vicente, o carreteiro vê o local como um dos pontos mais críticos da rodovia“Todo mundo aqui vê esse adiamento como um verdadeiro absurdo

Qualquer acidente ou carro enguiçado no Anel se reflete no bairroO trânsito fica travado em toda a vizinhança”, lamenta

Wildeson Damião do Espírito Santo, de 27, caminhoneiro, é outro a fazer coro com NiltonPara o profissional do volante, os problemas na via precisam ser encarados com mais seriedade pelo poder públicoNão é só o Padre Eustáquio o prejudicado com a protelação das obras, mas toda a cidade“São muitos os problemas: sinalização escondida, principalmente nas curvas; pintura que delimita a pista; buracos e as canaletas largas que jogam muitos carros para fora da estrada”, enumeraLauro Oliveira, de 51, comerciante, que ganha a vida no entorno da Praça São VicenteEle vê no trecho do Anel às margens do bairro da Região Noroeste o principal problema do Padre Eustáquio“É o que enfeia e traz insegurança ao lugarOs roubos, as pichações e a desvalorização das residências e do comércio têm muito a ver com o inferno que é esse Anel Rodoviário
Esse adiamento é uma vergonha”, revolta-se.

Jaqueline Costa Oliveira da Silva, de 32, atravessa a rodovia pelo alto, na passarelaFaz isso ao menos duas vezes por dia, na parte da manhã, quando leva e busca o filho Lucas, de 5, na escolinhaMoradora do Bairro Califórnia, também lamenta a demora da tão esperada reestruturação, que, segundo ela, traria mudanças bem significativas para todosJaqueline aponta o desrespeito dos motoqueiros, que usam e abusam das passarelas, como problema grave“A gente acaba tendo que disputar o nosso espaço, que já é pouco, com eles”, critica

Frustração e insegurança

  Borracheiro Lúcio viu uma família inteira morrer num acidente no anel - Foto: FOTOS JUAREZ RODRIGUES/EM/D.A PRESS Bastam cinco minutos de conversa com o borracheiro Lúcio Reis, de 60, para ter o resto do dia abalado com tragédias que marcaram o Bairro Padre EustáquioTodas, claro, tendo como cenário o Anel RodoviárioHá sete meses, por volta das 19h, depois de ouvir um estrondo muito grande, Lúcio correu para às margens da via A cena que encontrou fez com que ele nunca mais se aproximasse de acidente algum“Foi muito impressionante, muito triste e isso me marcou profundamente”, diz em tom embargadoPausa para suportar a lembrança Ao chegar ao carro arrebentado por caminhão truculento, viu mãe e três filhos presos sob as ferragensVida apenas num garoto de 6 anos“Ele ainda gritava, chorava muitoNão pude fazer nadaAos poucos, ele se calou”, conta, entristecidoTodos mortosSobrevivente, apenas o pai, que deixou o carro estacionado para buscar combustível“Ao voltar, não tinha mais a famíliaAcho que nunca vou esquecer isso”.

Lúcio é outro que não consegue entender tanta demora para que o Anel Rodoviário seja reestruturado“Isso é um absurdoNão é possível que o anel, com tantos casos graves de acidentes, não seja prioridade”, consideraNa Borracharia Baú, o motorista que pede para não ser identificado entra na conversa e diz não estar insatisfeito com o adiamento das obrasPara ele, todo o anel é uma tragédia anunciada“Pense bem: você tem quatro pistas e de repente isso cai para duasQuem conhece o trecho vem com cuidado, mas e os carreteiros que não conhecem? Quando descobrem, já não podem fazer mais nada e vão para cima dos carros pequenosAí, é um desastre atrás do outro”, opinaPara o homem de 42 anos, que ganha a vida no batidão do volante, o anel é assunto de vida ou morte.


Insegurança

 

Aline mora perto do anel e teme pela segurança dos filhos."É acidente todo dia, mais ainda no fim de semana", diz - Foto: FOTOS JUAREZ RODRIGUES/EM/D.A PRESS Do alto da passarela, vê-se fluxo nervoso da vida sobre rodasVeículos de todos os tamanhos, eixos e rodas fazem tremer o concretoLá embaixo, o cachorro morto junto à mureta que divide as mãos é mancha comum no asfalto surradoDe longe, do outro lado das sobras do corpo do animal, uma criança de barriga de fora brinca com galho seco na marginalMexe com a ponta do graveto qualquer coisa que não dá para ver a distância.

Próximo à passarela, a Rua Cornélio Machado, no Bairro Dom CabralRuela de cerca de 50 metros, cheia de criançasAline Franciele, de 19, não gosta de morar aliTeme pela segurança dos filhos e dos irmãosÉ mãe da pequena Maria Eduarda, no colo, e irmã de Bárbara Regina, de 17Juntas, trocam olhares assustados“É ruim demais morar aquiÉ acidente todo dia, mais ainda no fim de semanaA gente não tem segurança nenhuma”, reclama.

Thiago Fonseca de Lima, de 23, morador do vizinho Dom Bosco, ajudante de produção, não tem carteira de motoristaDe carona, faz uso diário do anel e não esconde trauma com os acidentes que já testemunhouEm um deles, há três anos, viu uma mulher de 35 anos, pedestre, ter a cabeça separada do corpo ao tentar cruzar a pista Também conta ter perdido o amigo Alan, de 13, morto por atropelamento “Aqui, tudo é muito chocante”, diz

 

 Bairro vira rota de fuga de criminosos

Dez entre 10 moradores reclamam do trânsito no Bairro Padre EustáquioA principal queixa são os congestionamentos das ruas estreitas que dão um nó na regiãoHá ainda a questão da violência, com elevados índices de roubos de carros, residências, comércio e transeuntes, segundo a Polícia CivilPara a maior parte dos entrevistados, a localização do bairro com saídas para o anel e para a Via Expressa facilita a fuga dos criminososFuncionária de loja próxima à Praça São Vicente, Maria Inês, de 41, pede mais segurança e faz duras críticas ao “corredor” de motoristas que abusam do volume do som nos fins de semana

A vendedora, que mora no vizinho Carlos Prates, aponta a ação dos pichadores como outro problema a ser combatidoLogo abaixo, na Avenida Ivaí, paredes emporcalhadas justificam a reclamação Ponto de passagem para dezenas de bairros movimentados da periferia, o Padre Eustáquio também sofre com o barulho“Não há como dormir com tanto movimentoSei de cada moto, de cada fusquinha que sobe a Rua Padre Eustáquio de madrugada”, diz o aposentado Milton Gomes

Ex-funcionário público, avô dos pequenos Maicon e Daiane, Milton também chama a atenção para o acesso às avenidas Ivaí e Abílio Machado, de tráfego intenso, que dão acesso a “bairros cheios de jovens que gostam de muita barulheira”, diz “Olhe lá”, aponta para carro velho de cano de descarga serrado que corta a Avenida Itaú sentido Praça São Vicente“Tem também as chuvasque quando chegam aqui é uma sujeira só, além do risco que corre esse pessoal que mora perto do anel”, conclui.