Um susto próximo à Praça São VicenteO utilitário chapa branca, apressado, corta pela direitaSe não fosse a habilidade do nosso motorista, seria outra equipe do Estado de Minas a fazer a reportagemCena que se repete para aqueles que se aventuram no Anel Rodoviário, traço crítico que corta Belo Horizonte e região metropolitanaAo menos até 2013, os problemas vão continuar: acidentes que mutilam e matam; rota de fuga de ladrões de carro (segundo a Polícia Civil, eles se aproveitam da proximidade do bairro com a estrada), pichações nos imóveis ao longo da marginal; homens, mulheres e crianças em iminente risco de vida por atropelamento vão continuar a escrever o capítulo triste da história do Padre Eustáquio e dos bairros vizinhos marcados pela via de muitas mortes
E os números são assustadoresSó neste ano já foram 30 mortes e 831 feridos em 2.512 acidentes no AnelUm forte motivo para a indignação com o adiamento de janeiro de 2012 para junho de 2013 das obras da rodovia pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) Nilton Munhoz, de 71 anos, motorista há meio século, conhece bem as agruras da regiãoHá 30 anos de plantão na Praça São Vicente, o carreteiro vê o local como um dos pontos mais críticos da rodovia“Todo mundo aqui vê esse adiamento como um verdadeiro absurdo
Wildeson Damião do Espírito Santo, de 27, caminhoneiro, é outro a fazer coro com NiltonPara o profissional do volante, os problemas na via precisam ser encarados com mais seriedade pelo poder públicoNão é só o Padre Eustáquio o prejudicado com a protelação das obras, mas toda a cidade“São muitos os problemas: sinalização escondida, principalmente nas curvas; pintura que delimita a pista; buracos e as canaletas largas que jogam muitos carros para fora da estrada”, enumeraLauro Oliveira, de 51, comerciante, que ganha a vida no entorno da Praça São VicenteEle vê no trecho do Anel às margens do bairro da Região Noroeste o principal problema do Padre Eustáquio“É o que enfeia e traz insegurança ao lugarOs roubos, as pichações e a desvalorização das residências e do comércio têm muito a ver com o inferno que é esse Anel Rodoviário
Jaqueline Costa Oliveira da Silva, de 32, atravessa a rodovia pelo alto, na passarelaFaz isso ao menos duas vezes por dia, na parte da manhã, quando leva e busca o filho Lucas, de 5, na escolinhaMoradora do Bairro Califórnia, também lamenta a demora da tão esperada reestruturação, que, segundo ela, traria mudanças bem significativas para todosJaqueline aponta o desrespeito dos motoqueiros, que usam e abusam das passarelas, como problema grave“A gente acaba tendo que disputar o nosso espaço, que já é pouco, com eles”, critica
Frustração e insegurança
Lúcio é outro que não consegue entender tanta demora para que o Anel Rodoviário seja reestruturado“Isso é um absurdoNão é possível que o anel, com tantos casos graves de acidentes, não seja prioridade”, consideraNa Borracharia Baú, o motorista que pede para não ser identificado entra na conversa e diz não estar insatisfeito com o adiamento das obrasPara ele, todo o anel é uma tragédia anunciada“Pense bem: você tem quatro pistas e de repente isso cai para duasQuem conhece o trecho vem com cuidado, mas e os carreteiros que não conhecem? Quando descobrem, já não podem fazer mais nada e vão para cima dos carros pequenosAí, é um desastre atrás do outro”, opinaPara o homem de 42 anos, que ganha a vida no batidão do volante, o anel é assunto de vida ou morte.
Insegurança
Próximo à passarela, a Rua Cornélio Machado, no Bairro Dom CabralRuela de cerca de 50 metros, cheia de criançasAline Franciele, de 19, não gosta de morar aliTeme pela segurança dos filhos e dos irmãosÉ mãe da pequena Maria Eduarda, no colo, e irmã de Bárbara Regina, de 17Juntas, trocam olhares assustados“É ruim demais morar aquiÉ acidente todo dia, mais ainda no fim de semanaA gente não tem segurança nenhuma”, reclama.
Thiago Fonseca de Lima, de 23, morador do vizinho Dom Bosco, ajudante de produção, não tem carteira de motoristaDe carona, faz uso diário do anel e não esconde trauma com os acidentes que já testemunhouEm um deles, há três anos, viu uma mulher de 35 anos, pedestre, ter a cabeça separada do corpo ao tentar cruzar a pista Também conta ter perdido o amigo Alan, de 13, morto por atropelamento “Aqui, tudo é muito chocante”, diz
Bairro vira rota de fuga de criminosos
Dez entre 10 moradores reclamam do trânsito no Bairro Padre EustáquioA principal queixa são os congestionamentos das ruas estreitas que dão um nó na regiãoHá ainda a questão da violência, com elevados índices de roubos de carros, residências, comércio e transeuntes, segundo a Polícia CivilPara a maior parte dos entrevistados, a localização do bairro com saídas para o anel e para a Via Expressa facilita a fuga dos criminososFuncionária de loja próxima à Praça São Vicente, Maria Inês, de 41, pede mais segurança e faz duras críticas ao “corredor” de motoristas que abusam do volume do som nos fins de semana
A vendedora, que mora no vizinho Carlos Prates, aponta a ação dos pichadores como outro problema a ser combatidoLogo abaixo, na Avenida Ivaí, paredes emporcalhadas justificam a reclamação Ponto de passagem para dezenas de bairros movimentados da periferia, o Padre Eustáquio também sofre com o barulho“Não há como dormir com tanto movimentoSei de cada moto, de cada fusquinha que sobe a Rua Padre Eustáquio de madrugada”, diz o aposentado Milton Gomes
Ex-funcionário público, avô dos pequenos Maicon e Daiane, Milton também chama a atenção para o acesso às avenidas Ivaí e Abílio Machado, de tráfego intenso, que dão acesso a “bairros cheios de jovens que gostam de muita barulheira”, diz “Olhe lá”, aponta para carro velho de cano de descarga serrado que corta a Avenida Itaú sentido Praça São Vicente“Tem também as chuvasque quando chegam aqui é uma sujeira só, além do risco que corre esse pessoal que mora perto do anel”, conclui.