Jornal Estado de Minas

Drogas e violência marcam rotina das meninas de rua

Trajetória de meninas que perambulam pela cidade tem em comum a troca da violência ou atritos domésticos pelo perigo de uma vida marcada pelo tráfico e pelas ameaças sexuais

Arnaldo Viana


G., de 17 anos, precisou esfaquear um homem para escapar de um estupro
E., de 14, já perambulou pela cidade vendendo cocaína e maconha, induzida por uma amiga um ano mais velha e ligada a traficantesAs duas têm experiência suficiente para dizer que o que há nas ruas é droga e violênciaElas e outras meninas acolhidas em centros de passagem de Belo Horizonte passam pelo processo de reaproximação e readaptação às famíliasUmas saíram de casa para fugir da violência doméstica ou para “descobrir o mundo”Outras caíram nas ruas porque não têm onde ou com quem morar.

É caso de G.Ela diz que não conheceu a mãe e que morava com o pai em um bairro da Região Norte de BH“Ele era traficante e me dava de tudoEu tinha uma vida de patricinhaSó que ele foi preso tem um anoFiquei só
Ninguém apareceu para me ampararEntão, fui para a rua.” No começo, Gperambulou por outros bairros da mesma região, até ser atacada por dois homens“Eu tinha uma faca e acertei um delesConsegui me soltar a corri.”

Por precaução, ela resolveu se mudar“Passei a andar pelo CentroFoi piorComecei a usar tíner e maconhaNão me prostituí, mas precisei furtar para comprar droga e comida.” Gresolveu procurar ajuda
Na rua, ficou sabendo da existência dos conselhos tutelares e procurou o da Região Centro-Sul, que a encaminhou à Pastoral do Menor“Meu pai continua preso e não conheço outros parentesNem sei se existemO pior é que daqui a pouco faço 18 anos e não sei o que vou fazer.”

O desejo de Gé mudar do centro de passagem, de permanência provisória, para um abrigo, que impõe mais restrições, mas oferece melhor preparação para a jovem sobreviver, porque logo que completar 18 anos perderá o amparo do poder público“Já completei o ensino fundamental e preciso fazer o médioQuero, depois, um emprego digno e me formar em qualquer coisa”, planejaO problema é que faltam vagas nos abrigos municipais para todas.

FACÃO Emostra na cabeça a cicatriz com cinco ou seis pontos“Foi o meu pai, com um facão”, contaEla diz que largou a escola e saiu de casa, na Região Leste de BH, há dois anos, quando tinha 12, para fugir da violência doméstica“Ele é pedreiro e bebe muito Minha mãe não trabalhaDe tanto apanhar, fui para a ruaLogo passei a vender drogas com uma amiga, de 15 anosEra na casa dela que eu dormia Com o dinheiro do tráfico, comprava droga para consumir.” Nessa rotina, a adolescente se tornou uma escrava dos traficantes até ser abordada e resgatada pelo serviço da prefeitura.

 “Eu estava ameaçada”, relataNo fim da semana retrasada, Esaiu da centro de passagem e foi à casa dos pais, um barracão em um aglomerado“Ele tentou matar minha irmã de 13 anos e depois me atacou com o facãoFugi e trouxe minha irmãNão sei nem por que ele fez isso.” A mãe, nesse caso, fica impassível para não desagradar o companheiro“A pior coisa da rua é a drogaQuero voltar a estudarMeu sonho é ser atiradora de elite na polícia”, revela E., um caso de difícil reaproximação com a família

L., de 14, não chegou a conhecer “os encantos” que procurava depois de fugir de casa, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, para “dar uma volta no mundo”Foi abordada ainda no primeiro dia na capital, quando perambulava pela Avenida Nossa Senhora do CarmoA Pastoral está em contato com a família para reintegrá-la

Já F., de 17, nem com isso pode contarÉ filha de moradores de ruaFoi criada nos abrigos Não tem notícia da mãe e o pai, viu poucas vezes, assim mesmo embriagadoDeixou a escola na 5ª série do ensino fundamental porque não se entendia com a professora“Não sei o que vai ser de mim quando completar 18 anosTenho tias, mas elas não me querem e eu também não queroVou fazer o quê?”

 A psicóloga Aparecida Gonçalves, do Centro de Passagem Vila Eunice, na Região Norte de BH, tem sob sua responsabilidade nove meninas que não são enquadradas como infratoras e lamenta a falta de políticas públicas para o aproveitamento dessas jovens depois dos 18 anos“Mas continuaremos fazendo nosso trabalho educativo, de tentar torná-las cidadãs, com direitos e deveresPena que as maiores de 15 anos e 8 meses não possam mais ser incluídas no bolsa-emprego, que é o trabalho protegido, com inserção na escola”, afirma.

Dia a dia do abandono

Ontem


Belo Horizonte assiste a mais de uma infração cometida por crianças e adolescente a cada horaA média diária de 27 ocorrências, mostrada pelo Estado de Minas na primeira matéria da série Crianças sem rumo, está relacionada na maior parte dos casos ao envolvimento com drogas, que entre 2005 e 2010 cresceu 441% na capitalUma característica que dificulta o resgate dos meninos e meninas que têm contato com o mundo da rua.

Amanhã

O EM mostra que o drama dos adolescentes sem referências familiares e entregues à droga não é exclusividade da capital, mas se espalhou por todo o estado e virou desafio para prefeituras do interior.

Palavra de especialista

Quem não quer Justiça?
Bernardo Monteiro de Castro
Psicólogo clínico, pós-doutorado pela University of Cincinnati (EUA)

Talvez a maior repercussão dos casos de violência infantojuvenil ocorra quando se trata de um crime assustador ou quando o autor vive em um ambiente de pobreza financeira e baixa qualidade de educação e saúdeA união dessas duas características é um enorme estrondo, conforme vivemos recentemente em Belo Horizonte, por causa dos crimes no Bairro Glória

Deve-se reconhecer a dor das pessoas envolvidas, de quem perdeu alguém de valor, de quem presenciou a violência diretamente, de quem soube por notícias e ainda assim se abala ao ver uma narrativa social sem fim e sem começo, por isso aparentemente infinitaMuitos expressam imediatas exigências de justiçaQuem não quer justiça? Muitos.

A tradicional frase “aos amigos tudo; aos inimigos a lei” foi e tem sido associada a um Brasil injusto e pernicioso, controlado por uma oligarquia sempiterna e promíscua que, paradoxalmente, vive nas sombras e frestas, como vermes, e, ao mesmo tempo, reluz sob os holofotes dos meios de comunicação quando precisa exibir seu poder para demarcá-loCom o crescimento da autoestima do povo brasileiro, passou-se a perceber que esse manejo da justiça ocorre nos EUA, Itália, França e aonde quer que se váA lógica é sempre cínica: escandaliza-se a injustiça dos outros para que se possa praticar a sua própria perversidadeQuem não quer justiça? Muitos.

Para as pessoas razoavelmente normais, é impossível não se indignar, até revoltar-se, frente a atos de violência que ainda são morbidamente explorados e delongadosMas poucos procuram combater a violência preventivamenteQual é o cuidado que se tem com a qualidade do ensino e do exercício da cidadania desde os primeiros anos de vida de uma população que serve apenas para viabilizar que a oligarquia se beneficie do manejo da lei? Já vimos tantos casos de jovens das classes A e B que traficam drogas sintéticas, queimam pessoas vivas, estupram..e ficam impunesMédico estuprador, banqueiro fraudulento fogem do Brasil após habeas corpus do Supremo e tão agilmente fogem também do noticiárioPara isso não se organiza um “Cansei”Quem não quer justiça? Muitos.

Por lei, a criança e o adolescente requerem atenção prioritária do Estado, e a Justiça tem o dever de fazer com que isso se cumpraPara todosDesde antes do nascimentoQuem não quer justiça? Muitos.