Jornal Estado de Minas

Ataque da motosserra deixa Savassi menos verde

Árvore de 30 anos e 20 metros de altura começa a ser retirada do quarteirão fechado da Antônio de Albuquerque com Praça Diogo de Vasconcelos. Moradores ficaram revoltados

Funcionários da PBH começaram ontem a cortar os galhos. Trabalho de derrubada não terminou e deve continuar ao longo da semana até que toda a raiz seja retirada - Foto: Fotos: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press


 

O corredor verde que mantém Belo Horizonte mais bonita e com clima agradável está ameaçadoDepois do início do corte de quase 500 árvores ao longo da Avenida Cristiano Machado, Região Nordeste, para implantação do sistema de transporte rápido BRT, o barulho da motosserra não para na Savassi, na Região Centro-Sul, que passa por obras de revitalizaçãoNessa quinta-feira, a “vítima” foi uma planta do tipo sete-cascas de 30 anos e com mais de 20 metros de alturaUma multidão de pessoas revoltadas se reuniu ao redor e considerou o ato um “assassinato ambiental”A árvore fica no quarteirão fechado da Rua Antônio de Albuquerque com Praça Diogo de Vasconcelos e não foi retirada totalmente nessa quinta-feira, o que deve acontecer nos próximos dias.

A árvore – que tem o nome derivado do aspecto do seu tronco, de cascas soltas – teria sido plantada sobre uma antiga pavimentação da via, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e suas raízes não tiveram como se aprofundar, correndo risco de tombar com um vento forte Mas, para muitos, a retirada da árvore é mais uma manobra da prefeitura para melhorar a estética do lugar.

Moradores e trabalhadores da Savassi foram pegos de surpresa pela manhã, com um cartaz avisando que parte da rua seria fechada para o corte da árvoreA vendedora Elizabete Teixeira da Silva, de 55 anos, foi trabalhar triste sabendo que depois de seis anos não teria mais a sombra da árvore para descansar em seu horário de almoço“É um lugar gostoso, bom para relaxarÀs vezes eu chegava antes do horário e esperava o tempo passar aqui, debaixo dela Não só eu, mas muita gente que marcava encontros na sombra vai sentir falta”, lamentou.

A bióloga Isabel Nunes, de 47, tentou impedir o corte no grito discutindo com um encarregado do serviço, mas seu esforço foi em vão“É muito fácil matar uma árvore

Não há um laudo preciso da prefeitura dizendo que oferece risco, mas apenas uma suspeita de que ela não está bem enraizada”, disse Isabel, aos prantos, cobrando das pessoas em sua volta uma reação mais enérgica“Eu queria que o povo reagisse, mas todo mundo fica apático, achando que não podemos fazer nada”, disse a biólogaQuando ela chegou, um dos galhos que dividia o peso da copa já havia sido cortado e não teria mais sustentação

Os funcionários da prefeitura chegaram pouco depois das 8 horas e isolaram a regiãoOs galhos cortados foram retirados por meio de um guincho e uma retroescavadeira“Ela vivia cheia de almas-de-gato, bem-te-vis, sabiás e outros passarinhosHoje, estão todos em silêncioPararam de cantar como se pressentissem o pior”, observou o porteiro de um prédio ao lado, que se identifica por Skilo, de 47 anos.

Justificativa

O gerente de autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Sérgio André de Souza Oliveira, disse que a sete-cascas foi plantada no passado em cima de uma área de asfalto“Há risco de queda, uma vez que a área debaixo dela está impermeabilizadaÉ como se ela estivesse num vaso de planta, no caso, a jardineira feita em sua volta, e esse vaso pode virar com raiz e tudo se houver um vento mais forte”, comparou Sérgio André
A árvore se manteve em pé, segundo ele, pois os prédios em sua volta funcionaram como uma barreira para o vento“Esses mesmos prédios podem canalizar o vento para ela e derrubá-la”, acrescentou.

Sérgio André conta que houve uma escavação próxima à árvore para substituição da rede de água e de esgoto da Copasa, quando o problema foi detectado “Foi um mal que veio para o bemEla poderia cair e fazer vítimas”, afirmou o engenheiro, ressaltando que tomaram a decisão com base em sondagens feitas no entorno da planta e em testemunhos de moradores antigos da Savassi, de que ela foi realmente plantada sobre uma antiga pista de rolamento


Outras plantas saíram do caminho

Planta estaria em cima de antiga pavimentação da via, conforme a prefeitura - Foto: Fotos: Paulo Filgueiras/EM/D.A PressComerciantes e moradores denunciam que, além da sete-cascas, várias outras árvores foram cortadas com as obras na Savassi, como 12 palmeiras imperiaisO gerente da secretaria de Meio Ambiente Sérgio André de Souza Oliveira discorda“Houve supressões pontuais de árvores que estavam doentes e eram insignificantes para o paisagismo”, disse OliveiraMas, ele confirmou que um angico foi retirado na Rua Paraíba com Cristóvão Colombo para favorecer o desvio de trânsito“Para nossa surpresa, o angico estava com o mesmo problema da sete-cascasFoi plantado em cima da pavimentaçãoNão precisamos nem cortá-loBastou o impacto do cabo de aço que foi amarrado que o angico rodopiou e caiu”, disse

Na Rua Tomé de Souza com Avenida Getúlio Vargas, também na Savassi, dois ipês-rosados foram cortados também para favorecer a mudança no trânsito “Eram árvores jovens, de cinco ou seis metros de altura”, disse.


Abre-alas para o BRT

Saboneteira, pau-formiga, ipê-rosa, ipê-rosado e jatobáAo todo, 499 árvores começaram a ser cortadas no mês passado no canteiro central da Avenida Cristiano Machado para implantação do BRTAs supressões vão desde a Estação São Gabriel do metrô até o túnel da Lagoinha, no Centro da cidadeNa primeira fase das remoções, pelo menos 30 árvores ficaram no meio do caminho, pois só poderiam ser derrubadas durante o fim de semana, quando o trânsito é menos complicado

A Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) informou que está elaborando um projeto paisagístico com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente para ser implantado na Cristiano Machado em substituição às árvores suprimidasAs intervenções na avenida começaram em agosto e a previsão é de que sejam concluídas no primeiro semestre de 2013


Análise da notícia

Poder público deveria preservar

Cristiana Andrade

É marcha à ré a postura da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) em suprimir árvores em nome do progressoEm tempos de chuvas torrenciais que arrasam as cidades tamanha a impermeabilidade do solo, falta de sombra para dar o refresco natural para tanto asfalto e a enxurrada de automóveis soltando poluição é de lamentar que tenhamos que conviver com tanta incivilidade do poder públicoEle deveria ser o primeiro a querer conservar um dos seus bens mais preciosos, o meio ambiente, pois só assim é possível haver equilíbrio do clima, das chuvas, dos ventos Há pouco mais de um mês, árvores começaram a ser derrubadas para o BRT passar na Avenida Cristiano MachadoQuando da construção do Expominas, a cena foi a mesma: vários espécimes ao longo da Amazonas foram para o chãoE o cidadão nunca ouviu falar sobre onde foram plantadas árvores do mesmo porte ou se conseguiram transplantá-las em outro localPorque a PBH se limita a informar que vai plantar uma centena ou milhar de mudasSó não diz onde, quando, quais espéciesE com isso, BH vai perdendo parte do que um dia lhe rendeu o nome de Cidade Jardim Lamentável