Jornal Estado de Minas

Menores vivem turbinados pelo cheiro de cola nas ruas de BH

Arnaldo Viana

Noite considerada gelada para os padrões de temperatura de BH

Cerca de 15 grausEncontramos dois dos menores como os olhos quase fechados pelo efeito do tínerEles tentam, pela segunda vez, arrombar a porta de madeira, presa com corrente e cadeado, do imóvel que abrigava a casa noturna Pau & Pedra, na Getúlio VargasNa primeira, entraram para dormir e satisfazer outras necessidadesA PM os retirou de lá e alguém reforçou a tranca.

Não é possível conversar com os dois, com idade entre 12 e 14 anosEles não conseguemO cérebro está tomado pelo tínerÉ quando aparecem Luís, ou Nego, e Guilherme, ou Guigui ou Preto, ambos de 22 anos“Precisamos entrarNossos colchões e cobertores estão aí dentro
Sem eles, como vamos dormir com este frio?”, pergunta Luís, 1,90m, corpo de atleta, dentes perfeitos e, aparentemente, com saúdeAo lado dele o Guigui, com menos de 1,70m, forte, também sadio e com os dentes bonsNada que os impeça de trabalhar, se não fosse a vida marginal.

Chega um carro da PMUm policial desce com um casseteteLuís e Guigui se afastamSão maiores e não querem correr risco de passar a noite na cadeiaEles também cheiram tíner, mas não parecem sob efeito de drogas“Não somos chefes delesEles nos seguem, mas não mandamosFazem o que querem
Só não deixamos que fumem crack, essa droga do capeta”, afirmam.

Luís está há 11 anos nas ruas, desde a morte do paiA mãe se casou com outro homem e mudou-se para São Paulo“Viver com padrasto, de jeito nenhum.” Já teve chance de deixar a sarjetaAinda adolescente foi convidado para jogar basquete no Mackenzie“Fui com o técnico PioFiquei um ano, até o dia em que descobriram que cheiro tínerMas se tiver outra oportunidade consigo pararEle tem um filho de 3 anos criado pelos avó, pois ele não vive com a mãe da criançaDe vez em quando, sai com o menino pelas ruas.

Guigui, há oito anos na rua, ainda não é pai, mas tem mulher, também moradora das calçadas“O maior problema na rua é o frio”, diz“E a polícia também”, completa Luís“A gente almoça, às vezes, no Restaurante PopularÀ noite, umas ‘tias’ distribuem sopa e até remédio.” Em nenhum momento admitem voz de comando sobre os menores“A gente ficava lá perto do Restaurante Popular (na Avenida do Contorno, região da Lagoinha)Mudamos para a praça e eles nos seguiram.”
Na Praça ABC, eles dormiam sob a marquise da extinta padariaUm comerciante jogou creolina no lugar para afastá-losPor isso procuraram abrigo no galpão do antigo Pau & PedraBanho, só nas fontes públicas“Dinheiro a gente pedeNunca matei nem roubei”, diz Guigui.

“Meu sonho é ter uma casinha, nem que seja pequenaUma senhora que mora aqui na região disse que ia tentar nesse negócio aí de Minha casa, Minha Vida (programa do governo federal), para eu pagar R$ 109 por mês”, diz LuísEle estudou até a quinta série e acredita que pode ganhar a vida no basquete ou como motoristaGuigui também pensa numa casa para morar com a mulher: “Se tiver oportunidade posso trabalhar de porteiro e sei lavar carroJá fiz isso.”

Enquanto a vida não muda, se é que vai mudar para eles, Luís e Guigui voltam para a Praça ABCOcupam agora o passeio do outro lado da padaria, no cruzamento com a Rua Cláudio Manoel, longe do cheiro da creolinaEspalhados, meninos e meninas, desligados da realidade pelo tíner, continuam deixando de cabelo em pé comerciantes, clientes e pedestres.