Eles chegam ao entorno da Praça ABC, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, ao entardecer, para desespero de comerciantes, funcionários e receosos clientesRoupas sujas, olhos semimortos pelo efeito do tíner e da cola de sapateiro, vozes arrastadas, incapazes de completar uma fraseSão entre 10 e 15 meninos e meninas de 10 a 17 anosPor trás deles dois homens de 22Desespero, por causa da insuportável ousadia do grupoMenores de rua sem limites, sem noção de respeito e sem medo de reprimendas ou de cara feia.
Na pequena lanchonete, a balconista e caixa Ejá não arregala os olhos como da primeira vezEles entram e se há alguém comendo pedem o salgado ou o sanduíche e o sucoSe não ganham, simplesmente tomam“É assim mesmo, principalmente se for mulher, criança ou adolescente”, conta a funcionária, com certa resignaçãoÀs vezes, entram e ocupam mesas e cadeiras, com as roupas imundas e o odor desagradável de muitos dias sem água e sabão no corpo
Geraldo Magela, o único que concorda em se identificar, mas resguardando o estabelecimento, fala em nome de um bar e restaurante“Se há a cracolândia, eles fundaram aqui a lololândia (o termo vem de loló, uma bola feita de cola de sapateiro e tíner levada constantemente ao nariz)Chegam, entram e nada podemos fazerTomam até copo de cerveja das mãos dos clientesAlguns parecem não ter ainda 10 anosNão podemos sequer encostar a mão neles.”
Magela abre as caixas de força da Cemig no chão da praça nas quais eles escondem roupas, papelão para servir de cama e latas para guardar o bolo entorpecente“Onde está poder público? A Polícia Militar vem, leva os menores para o Conselho Tutelar e um hora depois estão de volta.” Ele conta que o grupo cercou um casal que descia a Avenida Afonso Pena com uma pizza embalada“Só depois de muito trabalho o rapaz e a moça conseguiram se desvencilhar deles e escapar pela Rua Piauí.”
Na drogaria, nem os seguranças impedem a entrada dos menores e o furto de mercadorias, principalmente das prateleiras de perfumaria“Eles levam provavelmente para vender ou para trocar por tíner, e não podemos fazer nada”, conta a gerente G
Brigas
Em uma loja de departamentos, uma das seções mais visadas é a de brinquedosE as visitas são quase diárias“Como são pequenos, entram sem a gente ver”, diz a gerente V“Alguém precisa cuidar dessas crianças.” Em uma loja de roupas, na Avenida Getúlio Vargas, eles entraram brigando“Um grupo de cinco corria atrás de um garoto, que tentou se refugiar aqui dentroUm dos perseguidores atirou uma pedra, tirada do calçamento e quase quebrou uma vitrine que custa mais de R$ 2 mil”, conta um dos balconistas.
Nenhum deles fala com ódio, mas com indignaçãoNão entendem o porquê de esses meninos estarem na ruas“Às vezes, tenho a impressão de que até a PM cansou de tanto levar a mesma criança várias vezes ao Conselho Tutelar”, diz MagelaEnquanto ele fala, do outro lado da Avenida Afonso o grupo assedia pedestres e motoristasSurfam perigosamente nos ônibus ou se agarram à lataria do veículo para descer e subir a viaNo meio da semana, só por diversão, levaram quase todo o estoque de guarda-chuvas e sombrinhas de uma pequena loja.
São os capitães do asfalto, numa analogia ao romance Capitães da areia, de Jorge Amado, sobre um bando de menores de rua em Itapagipe (BA) na primeira metade do século 20, com uma diferença de estilos no modo de agir dos personagensNa obra do escritor baiano, filmada e em cartaz na cidade, o grupo liderado por Pedro Bala é mais violento e age como máfia, com certa organização, e a polícia podia agir com rigorJá os do entorno da Praça ABC, protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, agem desordenadamente, mesmo na companhia de um adultoUm não, dois rapazes de 22 anos.
Análise da notícia
Crianças invisíveis
Paulo Nogueira
Pobre do país que não cuida de suas crianças, ou seja, do seu próprio futuroO problema crônico de menores abandonados na ruas parece sem fimÉ uma guerra diária nas ruas, às vezes silenciosa, às vezes escancarada, refinada por um coquetel fatal: incompetência do poder público, desagregação familiar, indiferença da sociedade, drogas, violência e morteA população não os vê no dia a dia das ruasEles só se tornam visíveis quando viram ameaça, e aí se tornam monstrosO problema vem do berço das casas desses meninos e deste país de 500 anos de exclusão socialA solução, ao que parece, também é de longo prazo e depende essencialmente de uma palavra: educação