Jornal Estado de Minas

Roubo na hora de estacionar o carro assusta motoristas de BH

Casos frequentes de roubos de veículos ou casas no momento em que motorista para no portão assustam moradores de BH. Polícia admite que tática é usada por oportunistas e quadrilhas

Mateus Parreiras Sandra Kiefer

Fiat Palio arrombado na Rua Diamantina, Bairro Lagoinha em BH - Foto: Jorge Gontijo/EM/D.A Press

Quando o casal Pedro Ivo, de 65 anos, e Rose Mary de Souza, de 62 anos, parou seu carro em frente ao portão de casa, no Bairro São Luiz, Região da Pampulha, a visão do automóvel do filho estacionado na garagem foi tranquilizadora, pois significava que ele já tinha chegado do trabalho e estava seguroOs pais, no entanto, não contavam com outra ameaça que os rondavaRose Mary desceu do carro e entrou pelo portão da frente, enquanto Pedro Ivo abriu a garagem para guardar o carro“Meu marido demorou e a cachorra começou a latirResolvi voltar até a rampa para ver o que tinha acontecidoTomei o maior susto quando vi dois assaltantes com os rostos cobertos por moletons e armados com revólveres”, lembra.

O modo de invadir a casa, aproveitando a oportunidade dada pelo acesso do veículo, como ocorreu com o casal da Pampulha, tem se repetido em vários roubos e furtos em diferentes regiões da capitalPara a Polícia Civil os casos são computados como crimes violentos contra o patrimônio, dentro das estatísticas de outros assaltosSó no ano passado, essa modalidade atingiu um índice de 58,91 ocorrências por 100 mil habitantes na capital – mais de 1.300 casos –, segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds).

Especialistas apontam que a adoção desse método, que requer o uso de armas de fogo e ameaças pelos criminosos, se tornou mais comum pelas dificuldades que vêm tendo para invadir residências cada vez mais equipadas com sistemas de segurança e muros altos“Para proteger suas famílias, a classe média está criando cães de guarda, instalando câmeras, armando cercas elétricas e erguendo muralhasCom isso, as oportunidades se restringem à entrada dos carros”, avalia o especialista em segurança pública e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Robson Sávio Reis Souza“Esses mesmos muros impedem o convívio e a possibilidade de os vizinhos descobrirem o que está acontecendo”, completa.

A situação vivida por Pedro Ivo e Rose Mary não se limitou à perda de algumas jóias e eletrodomésticos que guardavam em casa
“É um pavor ter sua casa invadida por pessoas violentas e ficar sob a mira de um revólverEles pegavam as coisas e ficavam intimidando a gente: ‘Não olha para minha cara, não dona’ ”, recorda Rose Mary, que é físicaO marido dela, engenheiro, acha que esses crimes ocorrem mesmo com policiamento ostensivo“Não podemos competir com os ladrõesEles estão à espreita e nós não estamos atentos 24 horas por diaÉ numa distração dessas que nos dominamFalta às pessoas ter mais consciência e ajudar uns aos outros”, diz.

Medo no Belvedere

Um dos bairros que mais vêm sofrendo com esse tipo de assalto é o Belvedere, na Região Centro-SulA associação de moradores estima que ocorra por lá uma média de dois crimes por semana nas casas e garagens de edifícios residenciaisO último caso registrado foi na semana passada, quando uma família da Rua Emílio Jacques acabou sob a mira de revólveresSem querer se identificar, eles contaram que a dona da casa parou o carro em frente ao portão e ficou esperando a abertura completa para entrar

Dois homens armados saíram de um carro escuro que estava estacionado e a renderamA dupla fechou o portão e com os muros encobrindo a visão dos vizinhos recolheu dinheiro, aparelhos eletrônicos e joiasOs bandidos puseram tudo no carro da vítima, que foi usado para fugir“Têm ocorrido muitos assaltos aqui, de gente que é pega entrando ou saindo de casa com o carroPrincipalmente na hora do almoço dos vigilantes.”, relata o vigia de rua Walmir de Freitas, de 36 anos.

Conforme a previsão de Ricardo Jeha, presidente da Associação dos Moradores do Belvedere, os números tendem a subir nos dois últimos meses do ano, com a proximidade das festas do Natal e réveillon“As quadrilhas se aproveitam do intervalo de tempo em que o carro está entrando na garagem de casaNesse momento, abordam o morador e arrombam o carro ou a residência”, diz Ricardo.

Segundo o chefe do Departamento de Investigações e Crimes contra o Patrimônio da Polícia Civil, Islande Batista, esse tipo de crime é praticado por oportunistas, “viciados que veem um portão abrindo e procura dinheiro, joias, eletrodomésticos e eletrônicos que possam vender para comprar drogas”Mas há também as quadrilhas especializadas que agem sob encomenda ou que vendem TVs de plasma, computadores, notebooks roubados e outros artigos a receptadores profissionais“Sem esse mercado, não haveria arrombamentos”, disse.


Como ocorrem os roubos


1- Os ladrões armados percorrem as ruas e escolhem as residências que julgam ser mais fáceis de se aproximar ou que aparentam ter mais artigos de valor

2- Quando os veículos entram ou saem pelo portão da garagem, os assaltantes se aproximam apontando suas armas e rendem os motoristas

3- Com os moradores dominados, os bandidos entram na casa e recolhem o máximo de dinheiro e artigos que podem vender, como jóias, eletrodomésticos e eletrônicos

4- O carro das vítimas geralmente é usado para a fuga, mas abandonado em seguida

Orientações para evitar os crimes


- Verifique se há pessoas estranhas e carros desconhecidos próximos à sua residência
- Se desconfiar de alguém, chame a PM para que os suspeitos sejam averiguados
- Mantenha uma ligação forte com seus vizinhos para que possam perceber quando algo estiver errado
- Denuncie arrombamentos mesmo que nada ou pouco seja levadoAs informações ajudam o planejamento policial
- Não estacione o carro em locais mal iluminados e ruas desertadas
- Verifique se todas as portas estão trancadas e não deixe vidros entreabertos
- Não dê carona a estranhos e não abra a janela para vendedores de rua
- Nos semáforos, pare sempre com a primeira marcha engatada
- Os pneus em bom estado e o tanque cheio são medidas de segurança
- Se alguém pedir ajuda, não pareTelefone e solicite socorro para o local

 


Fontes: Polícias Civil e Militar  



Arrombamentos são rotina

O estacionamento lotado do conjunto de prédios no Bairro São José, na Região da Pampulha, onde mora um amigo da geógrafa Fernanda Mesquita Veiga, 27 anos, obrigou a jovem a deixar seu carro estacionado do lado de fora, na terça-feira da semana passadaO Uno 2009 ficou em frente a uma portaria lateral, junto a outros carrosPorém, um detalhe fez com que ela fosse “escolhida” pelos ladrões que passaram pelo local“Deixei minha bolsa debaixo do bancoFiquei apenas duas horas foraFoi o tempo que precisaram para levar o carro e a bolsa com meus cartões de crédito e todos os documentos”, pondera.

Fernanda infringiu a regra básica que deve ser seguida pelos motoristas“Nunca deixe qualquer objeto à vista dentro do carro e crie o hábito de conferir se esqueceu algo no banco de trás antes de descer.”, alerta Bruno Godoy, supervisor da Talin, rede de quatro lojas especializadas em reparos de vidros de automóveis, como para-brisasSomente o estabelecimento da Avenida Prudente de Morais, recebe em média, por dia, 10 carros arrombados.

Este ano, a capital mineira registrou salto de 16,7% no número de furtos e roubos de carros este anoDe janeiro a maio, foram 3.150 ocorrências registradas, ante 2.698 no mesmo período do ano passado, segundo dados da Federação Nacional de Seguros Gerais (Fenseg)Depois de sair da casa do namorado, no Bairro Lagoinha, Região Noroeste de Belo Horizonte, uma publicitária de 30 anos levou dois sustos na manhã de ontemO primeiro foi quando viu que a porta do passageiro de seu Palio estava entortada para fora, um sinal claro de que o veículo havia sido arrombado durante a noiteMas o grande susto que ela levou foi quando percebeu que o ladrão ainda estava lá dentro“Quando vimos que o arrombador ainda estava lá dentro, chamamos a polícia”, conta a mulher, que pediu para não ser identificada