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Estado de Minas

Pontos marcantes de Belo Horizonte sofrem com a falta de conservação

Endereços se desfazem aos poucos, sem a percepção dos moradores


postado em 09/10/2011 07:45 / atualizado em 09/10/2011 09:04

Longe das obras que estrelam os mais belos comerciais da tv, há uma cidade invisível, pedinte de socorro. O sólido que se desmancha no ar está na Praça da Rodoviária, no Mercado Novo, na Estação Ferroviária e no Parque Municipal, com seu teatro público agonizante, tratado aos remendos. Para desvendar quatro pontos críticos de Belo Horizonte, que estão em degradação, o Estado de Minas foi às ruas com o apoio do arquiteto e urbanista Sérgio Myssior para ver de perto o concreto público e privado que se desfaz. O diretor de meio ambiente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que já mapeou França e Inglaterra, entende que a qualidade da vida urbana passa pela preservação e reinvenção dos espaços de convivência. Convoca o cidadão, “os olhos da rua”, para usar mais e melhor a cidade em que vive.

Praça Rio Branco

A má impressão que fica

(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)
(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)


O comprido banco em curva é abrigo para desocupados e desfavorecidos. O homem dorme sono profundo sob cobertor azul flanelado. O cheiro é forte. De fora, apenas os pés e o braço direito imundos. No outro extremo do grande arco, dois amigos igualmente sujos compartilham garrafa PET de guaraná. Mordem algo que não se vê dentro do saco de papel pardo. O rapaz de chinelas e camisa 11 do Flamengo passa carregando bancada de carteiras baratas. Segue sentido Rua dos Caetés. Sob barraca de alumínio, Irislei Barbosa, de 48, veio do Mato Grosso para vender suas garrafadas de ervas medicinais. O barulho do tráfego se confunde com a voz rouca do ambulante que não desgruda do microfone. O chão da praça está molhado, com pequenas poças d’água. “É para os mendigos não ficarem deitados no chão”, arrisca o transeunte. A Praça Rio Branco é um marco no início da Avenida Afonso Pena. Mais conhecida como Praça da Rodoviária, recebeu a escultura Liberdade em equilíbrio, da artista plástica Mary Vieira, em 1982. Para o cantor sertanejo Vander Valverde, de 35, um espaço que “queima o filme da cidade”. Vindo de Goiás, Vander, morador do Bairro Bonfim, tem na praça caminho de casa. “Aqui, de equilíbrio não tem nada. Este monumento, infelizmente, é um aglomerado da marginalidade. A obra é bonita, mas perdeu o sentido com tanta sujeira e mau uso. Tornou-se refúgio e ponto de encontro da marginalidade. É um perigo passar aqui à noite”, lamenta. Débora Mesquita, bancária, acaba de desembarcar do Rio de Janeiro. Nascida em Divinópolis, passou 10 anos no Rio e está pensando em morar em BH. Gosta da cidade, mas lamenta a praça descuidada e esquecida. Já chega ensopando os tamancos e aumenta o cuidado com os passos. “Uma pena. O poder público podia explorar melhor este ponto.”

Praça da Estação

Os dois lados da Aarão Reis

(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)
(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)


Marcos Antônio, de 20 anos, e Paula da Penha, de 17, têm carinho pela Praça da Estação. Percebem com tristeza dois lados tão distintos do ponto histórico da Avenida dos Andradas. Uma parte, o Museu de Artes e Ofícios, é bonita, elogiada até. Já a outra, a estação ferroviária, “é de fazer dó”. “O espaço público para a gente viver tem que ser limpo, bem cuidado. Isso daqui é muito sujo e malcuidado”, comenta Paula. Marcos diz que se fosse prefeito por um dia não iria vacilar com a cultura em BH e ia fazer da Praça da Estação uma grande festa para a cidade. “Esta parte de cá é importante. Não pode ficar largada do jeito que está.” O espaço entre a estação ferroviária e o Edifício Central, com quatro andares, na Rua Aarão Reis, abriga ponto de várias linhas de ônibus e agoniza com bancos quebrados e muito mau cheiro. No prédio da estação, com vidros quebrados, janelas empenadas, paredes descascadas, o mato chega a brotar nas trincas e rachaduras próximas ao teto. Patrícia Helena Diamantino, dentista de Ipatinga, mora em Belo Horizonte e faz uso regular do trem BH–Vitória. “Ao menos uma vez por mês passo aqui. Falta mais segurança e o prédio está precisando de restauração. Está muito descuidado”, diz. Vizinho do patrimônio em pedaços, o espaço debaixo do Viaduto Santa Tereza chama a atenção com mensagem de paz: “Desarme a violência em você”. É a comunidade viva em busca de diálogo com a cidade em retrato positivo de uso, ocupação e permanência. Em contraponto, a arte divide espaço com as drogas e pichações. O grafite e posto da PM pichados entristecem o ambiente. Que o diga José Neto, de 49, fã dos grafiteiros, aborrecido com os riscos dos que não têm o que fazer.

Mercado Novo

Gatos, ratos e borboletas

(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)
(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)


“Procurar algo em um lugar e não achar nada. Esse nada pode ser tudo. Pode ser o cotidiano de um ‘x’ lugar acontecendo”, estampa a parede de tijolos à vista. Iniciais assinam o escrito: A.R. Recorte emblemático do Mercado Novo, onde os gatos estão trabalhando duro para dar cabo dos ratos que andaram fazendo arruaça. O prédio de quarteirão histórico foi construído para fazer o papel do Mercado Central nos anos 1960 e ficou a ver navios nos limites do Centro com o Bairro Barro Preto. Perto de completar meio século, o Mercado Novo jamais foi concluído. São cerca de 1 mil lojas ocupadas pela metade – muitas improvisadas – em três andares emparedados por tijolos vazados. A boa gente dali, a maioria pequenos comerciantes e prestadores de serviços, trabalha duro para manter vivo o lugar. O serralheiro José Pacheco, de 40, morador de Ribeirão das Neves, há 21 anos ganha o pão com suor no mercado. “Não posso reclamar. Por mais que seja ruim, para mim é bom. É daqui que tiro o meu sustento. Mas com uma localização tão boa tinha tudo para ser bem melhor”, diz. Tarcísio Ribeiro Júnior, artista visual, aposta no ponto para a realização de sonho antigo: uma incubadora de arte em BH. Inquieto, é responsável pelo Mercado das Borboletas, que ocupa o inacabado terceiro piso. “Investimos neste andar porque acreditamos na revitalização do Hipercentro. É um local, antes abandonado, que merece ser descoberto. Perfeito para fazer uma revolução dentro do mercado de arte na cidade”, entusiasma-se. Um gato cinza cruza a escada rolante estragada. Um lojista se aproxima: “Reportagem?”. Sim. “Rapaz, isso aqui dá para fazer um jornal inteiro”. Não é exagero. Há um mundaréu invisível pelos corredores do labirinto underground. De longe, outro gato pardo, sob pouca luz, observa e mia.

Teatro Francisco Nunes

Cultura ameaçada

(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)
(foto: Marcos Michelin/EM/DA Press)


Para o corretor de imóveis Oberdan Avelino Santos, de 54, morador do Bairro Castelo, o Teatro Francisco Nunes, que comemorou 60 anos com as portas fechadas em 2010, por causa de obras, é um exemplo de descaso com a cultura. O local, ícone da cultura de Beloo Horizonte, fica dentro do Parque Municipal, no Centro, e já abrigou grandes peças teatrais. Um funcionário concursado da PBH pede para não ser identificado e afirma que a sociedade tem grande responsabilidade com o que ocorre com o teatro, fechado desde abril de 2009. “A cultura em BH, infelizmente, só trabalha sob pressão. É preciso um abraço real do belo-horizontino em torno do teatro. Como é que o prefeito vai entender a urgência real do Francisco Nunes se da janela do gabinete dele, vizinho do teatro, não vê nenhum grande movimento pela causa?” O consultor, que há anos acompanha de perto a atuação do poder público, avalia que a obra segue “a trancos e barrancos”. Diz que o dinheiro aprovado para o telhado precisou ser destinado para outra parte ainda mais urgente, ameaçada por infiltrações. Alerta ainda para rumores de que o teatro pode ter inauguração no primeiro semestre do ano que vem e, em seguida, ser fechado para outra reforma. “Infelizmente, vejo o teatro às escoras, como um machucado, cheio de esparadrapos”. Oberdan, frequentador do espaço em outros tempos, não entende a demora. Já Gildete Meireles, depois de fazer uso do orelhão do lado de fora do teatro – a única coisa em funcionamento por ali –, a pedagoga faz coro às cobranças pela casa. “A cidade só tem a perder, porque o Chico Nunes está fazendo muita falta”, lamenta.

Palavra de Especialista: Sérgio Myssior - Arquiteto e urbanista, diretor do IAB


“É preciso pensar na ocupação e utilização dos espaços”

“Sem passado, a cidade não tem futuro. BH é relativamente nova e tem um remanescente pequeno. Um patrimônio como o da Estação Ferroviária precisa ser revitalizado. Logo ao lado, com o Museu de Artes e Ofícios, temos um bom exemplo que favorece e estimula a população a reagir positivamente. A Praça Rio Branco, trata-se de um ponto de convergência. Em vez de falar em novo endereço para a rodoviária, melhor seria discutir o resgate da praça como ponto de encontro, convivência e de permanência, fazendo com que a pluralidade que há nesse espaço se espalhe por toda a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Já a questão artística é fundamental quando se discute o futuro das cidades. Com o Teatro Francisco Nunes fechado há mais de dois anos, a população acaba não contando com ele. Mantê-lo fechado é deixar o patrimônio cair em esquecimento. São feridas pequenas na cidade. Abertas elas vão só aumentando. O Mercado Novo é um lugar bastante apropriado para se levar essas manifestações culturais alternativas que ainda não foram acolhidas pelo Hipercentro. O futuro dos mercados distritais, por exemplo, passa por uma adaptação do presente, sem que isso comprometa a história. É preciso pensar em ponto de equilibrio na ocupação e utilização dos espaços.”

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