Jornal Estado de Minas

Meninos de rua também são desafio para Belo Horizonte

Órgãos como o Conselho Tutelar reforçam sensação de moradores e comerciantes, que denunciam multiplicação de menores infratores em BH, apesar da falta de dados oficiais

Paula Sarapu
Crescente participação de menores de idade nos furtos ou roubos de pedestres e comerciantes já serve de alerta para as autoridades - Foto: Beto Magalhaes/EM/D.A Press


Grupos sem rosto, sem endereço, sem estatísticas e até sem idadeNa esteira da sensação de crescimento da população de rua em Belo Horizonte – admitida pela própria prefeitura, apesar da falta de dados oficiais, como mostrou o Estado de Minas em sua edição dessa quarta-feira – avança também o número de crianças e adolescentes perambulando pela capital No caso deles também faltam informações confiáveisMas não falta a percepção de que o problema vem se agravando, nem relatos de consumo de drogas, sobretudo tíner, de exploração por maiores de idade e de furtos ou roubos que afetam não só pedestres, mas já levam até comerciantes da cidade a mudar de comportamento, em uma tentativa desesperada de se proteger.

Para tentar quantificar o fenômeno, a Secretaria Municipal de Assistência Social lança mão dos dados de setembro, quando 168 crianças e adolescentes que perambulavam pela cidade foram abordados por assistentes sociaisO dado equivale a 8,5% da estimativa de 2 mil moradores de rua feita pela Pastoral da Arquidiocese de Belo Horizonte, mas não leva em consideração os menores que não foram alcançados pelo poder públicoA cidade tem em média 300 atendimentos do tipo por mês, mas o número tampouco serve como termômetro confiável do tamanho do problema, pois em muitos casos o mesmo menor acaba sendo abordado várias vezes

A reincidência demonstra a dificuldade em reintegrar as crianças às suas famílias e de mantê-las longe da ruaPor outro lado, há somente quatro casas de passagem na capital, com 60 vagas de acolhimentoO resultado da falta de conhecimento detalhado da realidade desses jovens, da dificuldade de lidar com eles e do déficit de lugares para abrigá-los aparece em pontos da cidade como a chamada praça ABC, como é conhecida a Praça Benjamim Guimarães, no cruzamento das avenidas Afonso Pena e Getúlio Vargas, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul da capital.

Sob as marquises da antiga Padaria ABC, hoje fechada, 11 menores embolados em cobertores e colchonetes velhos montaram acampamento do qual normalmente saem quase ao meio-diaNessa quarta-feira, a Polícia Militar circulou pelo local três vezes e conseguiu convencer dois deles a seguir para um abrigoCom a movimentação, no meio da tarde o grupo já não estava mais lá
Deixaram para trás restos de comida, embalagens onde guardam solvente e tudo o que usariam para mais uma noite fria de sonoComo o personagem Pedro Bala, do romance Capitães de Areia, de Jorge Amado, um maior de idade acompanha as criançasMoradores e comerciantes afirmam que é ele o responsável pela compra do tíner, que distribui entre os menores mediante pagamento com produto de pequenos roubos e furtos

Gato e rato

Comerciantes e moradores da região já se habituaram às investidas da polícia, assim como à sua falta de eficáciaSempre que as viaturas saem, dizem, o grupo volta“A gente não sabe o que faz, a quem recorrerÉ uma situação assustadora Diariamente esse grupo se abriga sob a marquise da antiga padariaÀs vezes são recolhidos, mas logo voltamCheiram tíner o dia todo, ameaçam comerciantes com pedras, invadem as lojas da região e puxam bolsas de quem passa
Eu me sinto muito insegura, embora ache uma covardia a situação em que vivem essas crianças”, afirma uma moradora de 48 anos, que acompanha tudo da janela de casa.

Nessa quarta-feira mesmo ela diz ter visto quando um menino, que diz ter 10 anos, derrubou as cadeiras de uma lanchonete quando os funcionários pediram que ele saísseNa segunda-feira, o mesmo garoto, que ela acredita ter menos idade, circulava pela região “limpinho” de calça jeans e camiseta vermelha, afirma ela“Desta última vez ele estava completamente alterado, imundo Saiu xingando todo mundo e ainda deu um murro na moça da loja”, contou ela.

Conselheira tutelar na Regional Centro-Sul, Marceline Barbosa diz que a maioria das crianças com trajetória de vida na rua sofre violação de direitos em casa, normalmente violênciaSegundo ela, o recolhimento é rotineiro e o número vem aumentandoAcreditando que os dados referentes às abordagens da Secretaria de Assistência Social não refletem a realidade, ela acrescenta que a reincidência é grande e que os menores acabam voltando às ruas

“Pela nossa experiência, o número é bem maiorRecebemos de oito a 10 menores por diaSão crianças e adolescentes que não recebem em casa carinho, amor e limitesNo caso dos menores de 12 anos, não podem permanecer nas ruasOs adolescentes podem ir e virTomam banho, se alimentam e vão embora”, diz ela“Com a polícia, eles até costumam ir mais facilmenteMas muitas vezes conseguem fugir do conselho pulando muro e tentando nos agredirNão podemos segurá-losApesar da pouca idade, eles têm muita experiência de ruaEssa é uma luta tão difícil que às vezes dá vontade de desistir Só acreditando muito para continuar”, desabafa a conselheira

A Secretaria de Assistência Social também não tem dados sobre o retorno dos menores às ruas, mas a gerente de Promoção e Proteção Especial, Denise de Magalhães e Matos, admite que “os meninos são conhecidos da rede de proteção”Segundo ela, cerca de 80% das crianças e adolescentes com trajetória de vida na rua têm vínculos familiares e o objetivo é reintegrar a criançaO abrigo é a última solução“Se fizermos uma análise histórica, já avançamos muitoNosso objetivo é promover ou aprofundar a capacidade de proteção das famíliasTemos uma rede de proteção muito sólida e oferecemos um cardápio de serviços bem especial, para aqueles meninos que têm vínculo mais desgastado, no Centro de Referência Especializado da Criança e do Adolescente, que funciona na Praça da Estação”, argumenta.

Lojistas fecham portas e janelas

Na segunda-feira, a chuva fez uma turma de menores de rua invadir uma papelaria na Avenida Afonso Pena, esquina com a Avenida Getúlio Vargas, no FuncionáriosSegundo a proprietária, ENL., de 50 anos, roubaram cinco guarda-chuvasNuma abordagem mais amigável, ela foi até o grupo que passa dias e noites sob a marquise da antiga Padaria ABC e tentou pedir que ficassem longeAté recuperou os produtos de sua loja escondidos em um canteiro, mas saiu de lá ouvindo xingamentos e ameaças.

"Cheguei a recolher pedaços de garrafas de vidro, para que ninguém se machucasseNão sabemos a quem apelar, porque são menores, ninguém é dono delesSob efeito de drogas, ainda são mais corajosos: jogam pedras, fazem xixi nas portas do comércioO tíner rola solto e alguns ficam até com os olhos revirandoMeus clientes reclamam de furto e insegurança, mas no fundo tenho dó, porque são crianças largadas, sem amor", lamenta ela, que chegou a ter de fechar uma janela de sua loja, por onde os menores furtavam mercadoria.

O chefe de cozinha André Sá, de 24, presenciou recentemente um assalto a um estudante do Colégio Santo Antônio, próximo à Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi"A situação é muito séria, parece que fugiu do controleE esse não é o único grupo de menores na regiãoOutro dia, cinco menores cercaram um garoto para roubar a mochilaTentei intervir e um casal de estrangeiros acabou ficando no meio da confusãoNão adianta só cuidar da estética do bairro, se a questão social está esquecidaSerá que se resolve este problema até a Copa?", questiona o rapaz, lembrando que os turistas ficaram assustadosEm uma lanchonete da Avenida Afonso Pena, próximo a uma farmácia que agora conta com segurança particular, o horário de funcionamento teve de ser reduzidoO estabelecimento fechava às 23h30, mas as funcionárias decidiram baixar as portas às 19h"Esta semana, um grupo de mais de 15 entrou aqui e pegou sorvetes e potes de açaí que ficam na geladeira, perto da portaEles andam com facas e a gente fica com medo", queixou-se a atendente.