Jornal Estado de Minas

Vinte andarilhos foram mortos em 2011 só em BH

Somente em Belo Horizonte, número de assassinatos de moradores de rua chega a duas dezenas apenas neste ano, sem que nenhum responsável tenha sido identificado e punido

Paula Sarapu

A unidade de Belo Horizonte do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua calcula com pesar o número de assassinatos e tentativas de homicídio contra esses cidadãos na capital: só este ano já são 34 vítimas, com 20 mortos
A preocupação também é grande com outra estatística, a que trata da identificação dos autores Segundo a coordenadora do Centro, Karina Alves, nenhum desses crimes foi esclarecido ainda.

“É muito difícil solucionar os casos que envolvem a população de ruaOntem mesmo estive em uma conversa com o Ministério Público, cobrando empenho e acompanhamento para verificação dos fatosOs inquéritos são abertos, mas a polícia não consegue identificar os autores dos homicídios e tentativasPoucos casos são esclarecidos no país todo e daí a importância de uma discussão nacional sobre a proteção dessas pessoas”, afirma

Como o centro foi inaugurado em abril, não dispõe de dados anteriores sobre o número de crimes que têm como alvo moradores de ruaCom base nas denúncias e casos recentes de envenenamento, vítimas de facadas e até de fogo, ela acredita que a violência contra essa parcela da população esteja aumentando“Nossa realidade é ruimEstá um pouco acima, por exemplo, de Maceió, que tem 18 mortos no ano.”

Paliativo

Pedras assentadas sob passarela na Avenida Cristiano Machado: inspirada em Curitiba, providência tem objetivo de impedir ocupação irregular do espaço - Foto: Renato Weil/EM/D.A PressDiante da expansão da população de rua, duas regionais de BH decidiram instalar pedregulhos nos espaços vazios ao longo da Avenida Cristiano Machado, para impedir a construção de moradias irregulares e a aglomeração de pessoas sob passarelas e viadutosO argumento é de que a medida tem caráter preventivo
Em alguns casos, os locais estão cercados até com arame farpado em espiral, como no viaduto próximo ao Minas ShoppingHá três pontos ao longo da Linha Verde e até o fim do ano o viaduto da Avenida Silviano Brandão, na Regional Nordeste, também vai receber as grandes pedras.

Segundo a regional, a iniciativa foi tomada há dois meses em uma passarela na altura do Hotel Ouro Minas, com o objetivo de prevenir assaltos e furtos, devido à presença de usuários de drogas e à ocupação irregular pela população de ruaNa divisa com a Regional Norte, a primeira a adotar a medida, o revestimento de área com pedra gnaisse, conhecida como pedra de mão, foi colocado em janeiro sob o viaduto entre os bairros São Gabriel e Primeiro de MaioA ideia foi trazida de Curitiba, e a cidade do Rio de Janeiro também adotou o modelo.

Já na Regional Noroeste, as obras de retenção foram realizadas debaixo da passarela de acesso à Estação Calafate do metrô, para dificultar invasõesNa Centro-Sul, o viaduto da Avenida Francisco Sales, próximo ao supermercado Extra, ganhou obstrução para impedir ocupação irregular em um trecho determinadoO lugar, segundo a regional, estaria sendo usado como estacionamento

Enquanto isso, polícia pede prazo

Segundo a unidade mineira do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua, 14 andarilhos de quatro grupos foram vítimas de tentativas de homicídio na capital este anoO caso de maior repercussão ocorreu quando oito pessoas foram envenenadas com chumbinho na Praça Iron Marra, no Bairro Santa Amélia, Região da PampulhaO crime aconteceu em maioUma garrafa de cachaça foi deixada na praça, e misturado à bebida havia veneno contra rato
Ainda não há suspeitos do crime e o inquérito seguiu para a Justiça com pedido de aumento do prazo para investigação.

Ilusório eldorado da Copa

O pedreiro Vanderlei Anastácio dos Santos, de 42 anos, ouviu falar, em Governador Valadares, onde mora, que havia necessidade de muita mão de obra para a reforma do Mineirão, por causa da Copa do Mundo, e que a remuneração era boa“Achei que estava ganhando poucoPensei que aqui ia arranjar coisa melhor, mas não arrumei nada”, conta ele, na fila do Plantão Social de Atendimento ao Migrante, que funciona na rodoviária de Belo Horizonte e atende 650 pessoas por mês.

Os planos de Vanderlei deram erradoEle chegou à cidade sexta-feira passada e diz que foi roubado logo depois“Cochilei”, lamentaFicou sem dinheiro e sem documentosDormiu uma noite no Albergue Municipal e duas na rua“Como vou lá no Mineirão sem documentos? Quero ‘fichar’”, diz o pedreiro, que garante ter prática em trabalhar com armação de ferragensSem deixar a Bíblia que carrega debaixo do braço – “Isso é minha espada, minha arma” –, quer arranjar bicos antes de voltar a Governador Valadares para tirar novos documentos e, aí sim, buscar emprego no Mineirão.

Histórias como a de Vanderlei se repetem no Atendimento ao Migrante“A cada dia que passa aumenta a quantidade de gente perambulando por aí sem documentos e sem qualificaçãoÉ gente demais da conta”, diz a gerente, Maria Mazzarello Vieira TorresSegundo ela, muita gente acredita que Belo Horizonte está fervilhando de emprego com grandes obras, por causa da Copa’2014A grande maioria dos que chegam atraídos por essa crença é formada por homens, que chegam sozinhos.

É o caso do paulista Jonas Ferreira da Rocha, de 29Ele conta que ficou desorientado com a perda de um filho de 8 meses e quis largar tudo para tentar a sorte em outro lugar“Belo Horizonte é bem faladaTodo mundo diz que para serviço é muito boa.” Não foi para ele, que chegou em 19 de setembro e só conseguiu bico para um dia de trabalhoAbrigado no Albergue Municipal, quer ir embora para retomar a vida em São Paulo.

No albergue, existe demanda por mão de obra por parte de empresas, principalmente da construção civil, ou para carga e descarga de caminhõesHá firmas que querem até 30, 40 trabalhadores e se dispõem a mandar ônibus para buscar, informa o gerente, Gladston LageOs casos mais complexos são de pessoas sem qualificação, sem documentos ou que têm dificuldade para se adaptar à disciplina de um trabalho formal“Ele pode ter acolhida e atendimento social, mas tem dificuldade para se estabilizar”, avalia.

Ana Elisa Parolini, de 30, mãe de dois filhos, foi uma que viajou de Vitória (ES) para Belo Horizonte buscando trabalho“Todo mundo falava que aqui era bom de empregoFoi a pior bobeira ter vindoFoi propaganda enganosa”, desabafa a mulher, que diz dispor de casa em Vitória, para onde pretende voltar, com a ajuda do Plantão Social da rodoviáriaEla chegou a Belo Horizonte há dois mesesHá 15 dias foi a vez do namorado, Fernando Dias Peixoto, de 29, que também diz buscar trabalho: “Queria qualquer serviço: servente, chapa de caminhão..O negócio é ganhar a vida”Antes de fornecer as passagens de volta, o serviço faz uma sindicância, no sentido de confirmar se o interessado tem vínculos no local para onde pretende ir, para evitar que as pessoas fiquem perambulando de cidade em cidade