Disfarçados na Avenida Olegário Maciel, a menos de 300 metros da 6ª Companhia da Polícia Militar, no Hipercentro de Belo Horizonte, e no 9º andar de um edifício em plena Praça Sete, duas centrais responsáveis pela contabilidade, fornecimento de resultados e administração de um terço das lojas de jogo do bicho na capital –são mais de 100 bancas sob seu controle – foram devassados e fechados nessa quinta-feira pela Polícia Militar. A operação, que contou com o Ministério Público Estadual (MPE), fechou 16 casas de apostas e levou três pessoas para o Juizado Especial Criminal, onde responderão por envolvimento com jogo ilegal.
Os dois escritórios invadidos na operação pertenciam a uma das três grandes organizações que comandam o jogo do bicho em Belo Horizonte. Para disfarçar a atividade ilegal e criar meios para escapar da polícia, os bicheiros adaptaram os espaços. Na Avenida Olegário Maciel, por exemplo, havia uma loja de bolsas funcionando como fachada para o escritório. Atrás do balcão de atendimento das vendedoras, pelo menos cinco pessoas faziam a contabilidade de casas de apostas, conferiam débitos, transações e recolhimentos. O espaço era usado para fazer a contabilidade e pagar aos donos de bancas o valor dos prêmios recebidos pelos jogadores. Cada bilhete recebe um carimbo com a inscrição :“Pago. Nova BH Loterias. Válido por 03 dias”, indicando que o crédito foi descontado pelo dono da banca.
Quando os militares entraram no escritório, os bicheiros começaram a correr. Além da sala que fica logo atrás da loja de fachada, o complexo do jogo ilegal se desdobra numa estrutura profunda e secreta, com cozinha, depósito e um longo corredor que termina num armário. Ao abrir as portas desse móvel a PM encontrou uma porta falsa usada pelos bicheiros para escapar com documentos e com todo dinheiro que puderam levar.
Em vídeo, repórter Mateus Parreira revela o interior do QG do jogo do bicho. Confira!
Pelo do acesso, chega-se a um banheiro com uma escada postada na parede. Os degraus ligam a casa de apostas a um motel vizinho. “Acreditamos que os suspeitos tenham fugido por dentro do motel, enquanto verificávamos a segurança desse complexo”, conta o tenente Cristiano Ribeiro, responsável pelo comando daquela parte da operação. Apenas R$ 259,40 foram apreendidos, além de cadernos com a relação de 15 lojas e sua contabilidade diária.
Parede falsa
Nos arquivos desse escritório, a PM encontrou a relação de mais de uma centena de casas de apostas, com seus contatos e movimentações diárias que chegavam a R$ 300 mil em alguns casos. A ramificação das casas de apostas abrange quase toda a cidade.
“Aqui não entra nada de dinheiro. A gente só passa para as casas de apostas o resultado. Somos uma casa de confiança”, afirma um aposentado de 73 anos que foi detido. “Aqui, me pagam R$ 1,2 mil a R$ 1,5 mil, dependendo do desempenho da empresa”, disse. Segundo o tenente Wilson Castelar Júnior, que comandou parte da operação, a maioria dos funcionários são aposentados. A PM e o MPE ainda não divulgaram o resultado da operação.
Na contramão da lei
Na última grande ação contra o jogo do bicho e caça-níqueis, em 3 de dezembro de 2009, 15 pessoas, entre elas nove policiais civis e um militar, foram presas pela Polícia Federal em BH e Santa Luzia. A Operação Safari 3 apreendeu 13 veículos com os acusados, a maioria de luxo, incluindo um esportivo italiano Lamborghini, zero quilômetro e ainda sem placas (foto), pertencente a um dos quatro chefes da quadrilha. O carro custava na época R$ 1,4 milhão. Um caminhão baú lotado de máquinas de caça-níqueis também foi apreendido. Cada máquina movimentava, em média, R$ 10 mil por mês. Em duas operações no ano anterior, foram presas 21 pessoas e 142 máquinas recolhidas, o que representou uma queda de R$ 1,4 milhão na arrecadação mensal dos criminosos. A operação Safari 3 contou com 220 policiais federais, no cumprimento de 54 mandados expedidos pela Justiça.