Ela tem menos de um metro e sessentaA voz rouca da costureira embala uma fala mansa e acompanha o olhar tímido de quem faz 70 anos em dezembro, mas não tem filhos ou marido com quem comemorarA paixão de dona Dalva, “seus filhos”, como os chama, são três cãezinhos: Pichulinha, Rosinha e RequeMas essa mulher humilde e de aparência frágil barra a passagem de máquinas pesadas a serviço da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e é a última barreira, entre os remanescente da demolição da Vila São José, para a ligação das avenidas Pedro II, Tancredo Neves e João XXIII, uma obra arrojada, prometida há décadas, que custa R$ 115 milhões e gastou R$ 26 milhões apenas com desapropriações.
A obra foi iniciada em 2007, prometida para dezembro de 2010, depois para novembro deste anoNa terça-feira, o prefeito Márcio Lacerda (PSB) definiu a intervenção, que segundo seus cálculos fica pronta em dezembro, como o “presente de aniversário para a cidade”, que completa 114 anos no dia 12 do último mês do ano.
A importância das intervenções é grandePela ligação entre as três vias, espera-se que o trânsito das regiões Pampulha e Noroeste seja aliviado e possa fluir melhor na ligação com o Centro, desafogando outras vias arteriais da cidade, como as avenidas Antônio Carlos, Carlos Luz e Abílio MachadoA intervenção vai beneficiar também o entorno de bairros como Castelo, Serrano, Santa Terezinha, Paquetá, Conjunto Celso Machado e parte de Contagem, na Grande BHDe acordo com a prefeitura, passam diariamente pela Pedro II e Tancredo Neves 85 mil veículos
“Eu me encontrei com o ex-prefeito Pimenta da Veiga (gestão 1989/1990) e ele me disse que essa obra era o maior objetivo de sua administração, mas que, na época, não conseguiu realizá-laAgora, será o presente para BH”, prometeu Lacerda, durante o discurso de assinatura das ordens de serviço das obras de mobilidade para a Copa do MundoEle só não contava com a persistência de dona Dalva.
Mesmo sozinha na paisagem desolada, onde agora predomina a terra vermelha no lugar em que se enfileirava uma intrincada rede de barracos, a costureira se agarra aos cães e teima em não deixar sua moradia
Dona Dalva conta que até se sentou no chão quando os engenheiros da Empresa Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel) foram até a casa dela, para dizer que a construção precisava sair do caminho da obra“Eles me ofereceram um apartamento, mas para lá não posso levar meus filhos”, disse, referindo-se a Pichulinha, Rosinha e Reque“Depois, avaliaram minha casa em R$ 36 mil”, completou.
Por causa do tráfego intenso de tratores, patrolas e caminhões pesados pela obra, o muro da casa de Dona Dalva desmoronouEla não esmoreceu: mandou colocar uma cerca de tela de arame e a preencheu com telhas de amianto que encontrou entre os destroços deixados para trás pelos vizinhos
Enquanto a obra não sai, as ligações entre as avenidas Tancredo Neves e João XXIII com a Pedro II e o Anel Rodoviário continuam sendo feitas por dentro dos bairros Jardim Alvorada, Jardim Montanhês, Alípio de Melo e Primavera, em um tumultuado labirinto de ruas, a cada dia mais congestionadas nos horários de pico
De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), as negociações continuam, mas nenhuma moradia atrapalhará o cronograma de entrega da ligação das avenidas em dezembro
A obra, que do total de R$ 115 milhões tem R$ 11,5 milhões de contrapartida da PBH, foi a primeira a ser iniciada na cidade com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federalAlém da ligação das vias, contemplou a implantação de redes de água e esgoto, abertura e urbanização de ruas, áreas de lazer e convivência e a canalização de um trecho do Córrego São JoséMas sua principal promessa, a “avenida que vão abrir”, tem em seu caminho a casa de dona DalvaQue não parece disposta a arredar pé do seu “cantinho”.