Jornal Estado de Minas

Vício mortal

Minas intensifica luta contra o crack

Fundação Hospitalar de Minas Gerais lança nesta quinta-feira campanha para reforçar programa estadual de apoio a dependentes e familiares e orientar prefeitos

Junia Oliveira

Cracolândia na Pedreira Prado Lopes: programa vai ocupar locais de consumo de drogas com atividades culturais e de lazer - Foto: JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS %u2013 1/12/2010



Alguns casos impressionam pelo drama, outros pela dor, e há aqueles que sempre nos deixam sem fôlego quando o assunto é a força de vontade Na história de um operador de áudio e vídeo de Belo Horizonte, de 34 anos, uma decisão foi o divisor de águas entre um passado tomado pelo crack e o que ele é atualmente: um homem correto e exemplarParar de fumar foi a atitude que o impediu de entrar num abismo maior, cujo fim quase sempre é a morteMorando sozinho em Belo Horizonte, desempregado e sem expectativas, acabou se entregando ao crack, entre 1999 e 2001, depois de ter experimentado cigarro, bebida, maconha e cocaínaNa época, aos 23 anos, ele rodava de bar em bar e podia passar o dia consumindo a droga, uma fase que durou dois anos

Uma noite, entrou às 20h com outros viciados numa casa abandonada  e só saiu às 10h do dia seguinte“Quando pulei o muro, a ficha caiuVi todo mundo indo trabalhar e tive vergonhaPercebi que aquilo não era vida para mim Dormi na casa de um amigo e decidi que no outro dia procuraria um empregoAcordei cedo, peguei o ônibus para ir ao Sine (Sistema Nacional de Emprego)
Tinha uma frase no fundo do ônibus que bateu no meu coração: ‘Hoje, eu tomei uma decisão: vou ser feliz assim mesmo’”Nem todos têm a mesma força para mudar e, nesses casos, ajuda é fundamental

Acompanhamento

Para incentivar pessoas que vivem esse drama a agir e a mudar os rumos de suas vidas, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) lança, nesta quinta-feira, às 14h, na Alameda Ezequiel Dias, 365, Bairro Santa Efigênia, a campanha “Se liga! Crack não é brincadeira!”, com o objetivo de mostrar que é possível se tratarA ideia é alertar quem faz uso, familiares e os prefeitos, responsáveis pela abertura de serviços de acompanhamento e tratamento nos municípios Dados do Centro Mineiro de Toxicomania (CMT) mostram que 42% das pessoas procuram o serviço por causa do crackEm seguida vêm o álcool, a cocaína e a maconhaAté 2009, o álcool estava no topo da lista (cerca de 40%), enquanto o crack ficava na casa dos 30%

A iniciativa da Fhemig é um reforço nas ações do estado, que lançou, recentemente, o programa Aliança pela vidaEsse é um dos resultados do decreto assinado pelo governador Antonio Anastasia em fevereiro deste ano, determinando a aplicação de até 1% do orçamento de órgãos e secretarias para o desenvolvimento de programas sociais a projetos de prevenção e combate às drogasApenas para este ano, estão previstos investimentos da ordem de R$ 70 milhões
Numa primeira etapa, os recursos serão destinados a cinco ações principais (veja quadro).

projetos sociais  As medidas já apresentam resultadosSomente o novo serviço telefônico (número 155) recebeu, na última semana, 3 mil ligações de pessoas em busca de orientação e acolhimentoEstá aberto também edital para seleção de projetos sociais que tenham como objetivo auxiliar familiares e usuários de drogasEles devem conter ações educativas, culturais, esportivas, de capacitação, entre outras atividades preventivas e de tratamentoAs informações estão disponíveis na internet: https://www.omid.mg.gov.brSerá ampliada também a rede de Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (Capes AD), de 20 para 40 unidades.

 

Minas sem recursos federais

 

Não é de hoje que parlamentares mineiros que integram partidos de oposição ao Palácio do Planalto reclamam da exclusão do estado pelo governo federalO último episódio envolvendo investimentos não foi diferente: Minas ficou de fora novamenteDesta vez, de um projeto do Ministério da Saúde para construir centros de prevenção e tratamento a dependentes de crackOs investimentos serão feitos, inicialmente, em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito FederalA informação, confirmada pela pasta, foi repassada durante audiência pública em Brasília, na qual a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) informou precisar de R$ 100 milhões para o enfrentamento do problema no ano que vem, face a um orçamento estipulado em R$ 16 milhões

“Essa deve ser uma prioridade nacional, uma verdadeira cruzada antidrogas, principalmente contra o crack, que é devastador e é uma droga barataTemos uma estratégia no Sistema Único de Saúde (SUS), que são os Capes AD (Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas), mas eles não dão conta do desafio”, afirma o ex-secretário de Estado de Saúde e deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG)“O governo anunciou centros de tratamento, mas excluiu Belo HorizonteIsso faz parte de um processo preocupante, pois Minas está sendo excluída de todos os segmentos nacionaisAs relações do governo estadual com o federal são boas, mas, na prática, não há retornoHá uma lista de demandas de Unidades de Pronto-Atendimento UPAs) que foram marginalizadasMinas está carente há nove anos”, diz.

O subsecretário de Políticas Antidrogas, Cloves Benevides, destaca que todas as ações de enfrentamento aos entorpecentes estão sendo feitas exclusivamente com recursos do estado“A justificativa é de que Minas Gerais tem seus sistema mais bem organizado e, por isso, o ministério investiria em municípios com políticas menos desenvolvidasMas temos leitura inversaComo boas práticas estão acontecendo, é mais justificável que se repasse recursos para cá”, afirma“Essa é a primeira subsecretaria antidrogas no Brasil e com essa lógica de integração não há outra”, completa.