Era o primeiro dia de férias de MarildesO casal havia deixado Itamaraju por volta das 16h30 em uma Pajero TR-4 prata dirigida por André, professor de economia da PUC Minas, com destino ao distrito de Caraíva, em Porto Seguro, onde encontraria uma amigaDepois de dirigir pela BR-101, eles pegaram a estrada de terraApós 30 minutos na rodovia vicinal, os dois foram ultrapassados por uma picape de cor escura, com quatro homens armados, dois deles encapuzados, que os obrigaram a pararUm deles estava com uma espingarda calibre 12 e ameaçou atirar em AndréOs outros estavam com revólveres.
Em depoimento prestado ontem à tarde ao delegado Ricardo Feitosa, da Delegacia de Proteção ao Turista de Porto Seguro, o professor relatou que os ladrões fizeram o casal refém, afirmando que iriam precisar da PajeroOs dois encapuzados seguiram na frente, na picapeComo a professora alegou necessidade de ir ao banheiro, os outros se atrasaram um pouco.
Com a intenção de alcançar os comparsas, o assaltante que assumiu a direção partiu com a Pajero em alta velocidade
André conseguiu sair do carro e começou a procurar pela mulher já em meio à escuridãoAvistou um corpo estendido no matagal, mas, ao tocá-lo, percebeu que se tratava de um dos ladrõesO professor decidiu então se esconder, sem desistir de procurar por Marildes, mesmo com a clavícula fraturada e sentindo muitas dores.
A dupla que havia seguido na picape retornou e perguntou pelo casal aos comparsas“Cadê a mulher? Cadê o cara?”, gritavam, segundo André“A mulher morreu e o homem saiu correndo para aquele lado”, respondeu um dos envolvidos no acidenteOs ladrões desistiram de perseguir o professor, colocaram o comparsa ferido na carroceria da picape e fugiramAo se sentir seguro, André saiu do matagal e encontrou Marildes morta, perto do carro.
Desesperado, gritou por socorro, desorientado, na estrada escuraApenas por volta das 21h foi ouvido por um caminhoneiroDepois que a polícia foi avisada, André foi levado de ambulância para Eunápolis (BA), antes de ser transferido para um hospital particular de Porto Seguro
Na noite de terça a polícia da região continuava à procura dos bandidosA esperança era de que o ladrão ferido procurasse atendimento médico em algum hospitalAndré recebeu alta médica ao meio-dia de ontemDurante toda a tarde, prestou depoimento à polícia.
O encontro que não ocorreu
Amiga do casal, a professora Ana Maria Gomes, que trabalhava com Marildes, conta que terminava suas férias e a colega começava as dela“Eu voltava para Belo Horizonte e combinamos um encontro de passagem em Caraíva”, disse Ana MariaSegundo ela, o casal foi abordado pelos ladrões por volta das 18h e o acidente ocorreu algum tempo depois“O André está muito perturbadoO grau de violência foi assustador”, disse Ana MariaMarildes deixou dois filhosVinícius, que estuda geografia na UFMG, foi a Porto Seguro reconhecer o corpo da mãeO outro filho, Guilherme, que faz doutorado em economia na Universidade de São Paulo (USP), ficou sabendo da má notícia em Paris.
A professora da Faculdade de Letras Sônia Queiroz também era amiga de MarildesEla conta que desde as primeiras pesquisas de mestrado e doutorado o trabalho dela sempre foi voltado para a questão social, especialmente sobre a literatura e a escrita da população de baixa rendaSegundo Sônia, André é tranquilo, sempre dirige devagar e deve ter ficado apavorado quando percebeu a aproximação dos assaltantes.
Professora do setor de linguagem da Faculdade de Educação, Maria Zélia Versiani Machado ressaltou a importância da amiga Marildes para todos os que trabalham no Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita“Ela foi uma das fundadoras do centroUma pessoa muito dinâmicaAtualmente, coordenava o curso de formação indígena na área da linguagem”, disse(PF)