Jornal Estado de Minas

Bairro Cruzeiro

PBH quer liberar grandes empreendimentos e deixa moradores preocupados

Luciane Vidigal - Especial para o EM

Depois de suspender o polêmico projeto de implantação de hotéis de luxo no espaço onde atualmente funciona o Mercado Distrital do Cruzeiro, no Bairro Cruzeiro, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, a prefeitura articula mudança de zoneamento que permitiria empreendimentos de grande porte naquela área

Classificadas como vias preferencialmente residenciais (VR), a PBH propôs ao Conselho Municipal de Política Urbana (Compur) alteração para vias mistas (VM)O Poder Executivo alega que se trata de mero passo para legalização de atividades que já existem, mas grupo de moradores e arquitetos enxerga possível manobra oficial para a demolição do mercado

A mudança, sugerida em parecer técnico, foi apresentada nesssa quinta-feira ao Compur, que pediu prazo de 30 dias para avaliá-la melhorEla integra projeto da PBH para reclassificar 4,7 mil quilômetros de ruas e avenidas de acordo com parâmetros da nova Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo, sancionada há um anoAs vias recebem a classificação de residenciais (locais e coletoras com até 10 metros de largura), mistas e não residenciaisAs coletoras acima dessa medida e arteriais serão consideradas mistas, e as vias de ligação regional, não residenciaisIsso serviria para regulamentar – ou não – alvarás de funcionamentoO estudo será entregue dia 20 à Câmara Municipal

Por essa proposta, o Bairro do Cruzeiro estaria de volta ao centro da polêmicaDuas ruas próximas ao mercado distrital receberiam a classificação de vias mistas, liberando empreendimentos de grande impacto
Para alguns moradores e arquitetos, isso reabre a perspectiva de retomada do projeto de remodelação do mercado, que interpretam como descaracterização, Orçado em R$ 200 milhões, previa dois hotéis, lojas, restaurantes e 1,9 mil vagas de estacionamentoEm maio, sob pressão, a PBH suspendeu o plano“Mas tem encontrado alternativas para conseguir aprová-lo”, acusa a presidente da Associação dos Cidadãos do Bairro Cruzeiro (Amoreiro), Patrícia Caristo

A rua que sofreria a maior mudança é a Ouro Fino, entre a Opala e Avenida Afonso Pena, atrás do mercadoAo lado dele está o Parque Municipal Amílcar Vianna MartinsO logradouro é definido como preferencialmente residencialEm outra via alvo das mudanças funciona um supermercadoA alegação da gerência do Compur, responsável pelo projeto, é de que os dois trechos têm ligação direta com a Avenida Afonso Pena, fluxo de veículos intenso e sem casas

Discussão

O argumento não convenceu os 10 conselheiros presentes, ligados à prefeituraJúnia Neves, representante da Associação dos Profissionais Liberais de Engenharia, Arquitetura, Agrimensura e Agronomia da PBH, foi quem pediu adiamento da votação
A secretária adjunta de Planejamento Urbano e vice-presidente do Compur, Gina Rende, não vê relação com o destino do mercado“A alteração não é uma manobra da PBHPara fazer os hotéis ela pode se beneficiar da normatização para a construção de hotelaria na cidade, como demanda para a Copa do Mundo de 2014”, sustenta.

 Já os logradouros Opala, Oliveira, Albita, Cobre e até a Ouro Fino, no trecho entre as ruas Opala e Pium-I, foram classificados como residenciaisSe aprovada a mudança, pequenos estabelecimentos, como oficinas mecânicas, teriam que se transferir dali

 

Entenda o caso

Em junho de 2010, a prefeitura publicou procedimento de manifestação de interesse (PMI), para receber estudos sobre a revitalização do Mercado Distrital do CruzeiroApenas uma proposta foi entregue, a do consórcio que envolve a Faculdade Fumec e duas construtorasO projeto era construir dois hotéis, com 387 quartos, estacionamento para 1,9 mil veículos, área de eventos e cerca de 60 lojas, mantendo-se espaço para as bancas hoje existentesParte dos comerciantes e dos moradores temia extinção do mercado e perda das características residenciais do bairro Em maio, a PBH suspendeu o iniciativaNessa quinta-feira, o Conselho Municipal de Políticas Urbanas (Compur) levou à votação proposta de mudança de classificação das ruas do entorno, definindo-as como vias mistas, permitindo construção de empreendimentos de grande porte