Ela enxerga com o coraçãoTeve a visão comprometida pela retinose pigmentar, mas não abandonou a missão de educadoraMaria da Conceição Dias Magalhães, de 54 anos, é deficiente visual há mais de duas décadasEntretanto, isso não foi empecilho para ela fazer o que mais gosta: ensinar crianças a ler e a escreverAo longo de 18 anos de magistério – 10 dedicados a alfabetizar alunos da rede municipal e quatro atuando com estudantes cegos –, aproximadamente 600 meninos e meninas passaram pelas mãos da ‘tia Conceição’“O meu grande diferencial não é o fato de eu ser cega, apesar de essa ser a opinião de muita gente, mas sim a maneira como trabalho em sala de aula, os métodos que utilizo para estimular o desejo da criança de aprender, como os jogos, as peças, as letras móveis, atividades extraclassePapel e giz sempre foram muito pouco aproveitados por mim e ainda conto com material pedagógico adaptado em braille e computador com sintetizador de voz”, revela a professora, que se formou em pedagogia quando já estava completamente sem a visão.
Irmã do comediante Geraldo Magela, também deficiente visual – cinco dos oito irmãos foram afetados –, Conceição conta que nunca pensou em dar aulasPorém, quando viu os filhos crescendo, se desenvolvendo, e a empolgação deles com as atividades curriculares, decidiu abrir uma escola infantil em casa“Vi que era possível alfabetizar os pequenos e dei aulas durante três anos na minha casaDepois, prestei concurso para professora da prefeitura, passei e, durante 15 anos, atuei na rede municipal”, acrescenta.
No quadro
Os estudantes Leonardo Almeida, Wiusmarqs Moreira, Luana Silva e Priscila Hameze, todos de 16 anos, conheceram letras e palavras por meio de ConceiçãoFoi ela a responsável por ensiná-los a ler e a escrever quando eles tinham 6 anos
A mobilidade e o senso de percepção de Conceição dentro da sala de aula impressionamEla consegue descrever até onde se localiza cada aluno“Como eu organizava a disposição das carteiras, tinha noção se fulano sentava no fundão ou na frente
Para entender
A retinose pigmentar é causada por inúmeras mutações genéticas hereditáriasA doença ataca a retina, causando destruição das células receptoras de luz, que se desativam ou passam pela chamada morte celular programada, uma espécie de autodestruiçãoOcorre a distrofia dos cones e bastonetes, responsáveis por transformar a luminosidade visível em impulso nervoso que é levado até o cérebroPode afetar desde crianças a pessoas em idade maduraCausa a perda progressiva da visãoNum primeiro estágio, a noturnaEla é incurável, sem possibilidade de tratamento clínico ou cirúrgicoA incidência da retinose pigmentar é de 1 para cada 4 mil pessoas