Publicidade

Estado de Minas

Mais de 40 anos de confrontos entre torcedores rivais

Registro da primeira briga entre torcedores de clubes rivais em Minas é de 1967. Desde então, foram registradas 13 mortes no estado como resultado do fanatismo pelo futebol. Segundo especialista, vândalos são minoria, mas conseguem se impor


postado em 05/06/2011 07:07 / atualizado em 05/06/2011 10:21

“Você imagina que somos movidos a quê? Se a gente não fizesse isso nos jogos de futebol, acabaria fazendo em algum outro lugar. Tá na gente, né? A violência. Todos nós temos por dentro. Ela só precisa de um motivo, de uma válvula de escape aceitável. E não importa qual. Basta alguma coisa. É quase uma desculpa" (Trecho de depoimento de um hooligan inglês publicado no livro "Entre os vândalos", de Bill Buford)

Pesquisa feita pela professora de sociologia do esporte da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Heloísa Reis a respeito da violência motivada pela paixão pelo futebol mostra que, desde 1967, data do primeiro registro de confronto entre torcedores rivais, até março de 2010, 11 pessoas morreram em Minas Gerais, em especial na capital e na região metropolitana, vítimas das torcidas adversárias.

O trabalho não leva em conta as mortes de Otávio Fernandes, de 19 anos, assassinado em novembro do ano passado quando saía de um evento de lutas marciais, e de Paulo Pimenta Freire, de 22, morto em Montes Claros no domingo, pois ela também não ocorreu nas imediações ou dentro de estádio de futebol. Assim, o número se elevaria para 13 vítimas da insanidade de torcedores, mesmo número do Rio de Janeiro e atrás das 21 mortes de São Paulo, líder nacional, de acordo com o levantamento de Heloísa Reis.

A professora, apesar de ver uma tendência de redução da violência no contexto do esporte, aponta para uma falha crucial: a impunidade, que contribui para o surgimento de novos casos.. “A impunidade e, mais que isso, a sensação de impunidade são um incentivo a brigas e agressões. A impressão é de que no Brasil as lei são frouxas. Pessoas não são julgadas e, quando o são, ficam presas pouco tempo. Esse é um dos principais fatores de geração de violência, que encoraja pessoas a cometer atos ilícitos”.

Minoria nos estádios

O professor do curso de educação física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (Gefut), Sílvio Ricardo da Silva, ressalta que os indivíduos violentos são minoria nos estádios e que os brigões têm rompantes de agressividade em vários ambientes, seja em estádios, no círculo familiar ou no trabalho. “Na verdade, a questão da violência está posta na sociedade desde que ela existe. Os esportes, de uma maneira geral, foram criados para dar vazão a essas manifestações, sempre controlados por regras”, explica o professor. Ele cita registros de 1917 que tratam dos “sururus”, como eram chamadas as brigas entre torcidas. O agravante é que, na visão de Silva, a sociedade hoje está abarrotada de armas, o que aumenta o potencial de mortes nos conflitos.

Heloísa Reis afirma que a situação de rivalidade exacerbada, principalmente por parte das torcidas organizadas, ganhou corpo na década de 1980, com a mercantilização do futebol. “Na medida que o futebol se mercantiliza e se inflaciona, faz aumentar a violência, pois os torcedores passam a agir com revolta vendo que as condições de seu clube divergem dos investimentos feitos em outros”, analisa a professora.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade